Ceda el Paso convoca todo mundo para caminhar

O estúdio paulistano é mais um que busca contribuir com a construção de cidadania através da ocupação do espaço urbano

Ceda el Paso convoca todo mundo para caminhar
Ceda El Paso é Jéssica Andrade e Ricardo Silva

Em 14 de abril de 1921, o Grupo Dadaísta, puxado por Tristan Tzara, André Breton, Philippe Soupault e outros artistas, saiu para caminhar pelas ruas de Paris, partindo da igreja Saint-Julien-le-Pauvre. Debaixo de chuva, caminharam e registraram o percurso, uma performance anti-arte, como forma de mostrar que o absurdo está no banal e no cotidiano. Esse movimento é considerado o primeiro a pensar no caminhar como prática estética, conceito que posteriormente foi discutido, repensado e adaptado às diferentes realidades globais.

Pouco mais de cem anos depois, andei pelo centro da cidade de São Paulo, também sob a chuva, para conhecer o Ricardo Silva, arquiteto, professor universitário, fotógrafo e um dos idealizadores do Ceda el Paso, um estúdio voltado para questões urbanas, que habita uma salinha na Galeria 7 de Abril, bem do lado da Biblioteca Mário de Andrade. Através de publicações, caminhadas e encontros, o Ceda el Paso, que também é composta por Jéssica Andrade, antropóloga social e educadora, se propõe a pensar a cidade a partir de um olhar politizado, conectando pontos históricos com o contexto atual, levando temas que antes habitavam só as universidades, mas que conversam diretamente com todos nós, que vivemos em espaços urbanos. Este, aliás, é um dos primeiros pontos que Ricardo sinaliza quando se apresenta:

A placa que originou o nome do coletivo, comum em países latino-americanos que falam espanhol

"Nunca me identifiquei com a disciplina 'Arquitetura', com o ofício de prancheta, desenhar, AutoCAD… Eu fui para a arquitetura por conta desse universo criativo que ela convoca, tem um pouco essa aura do arquiteto como criativo, e aí dentro da faculdade eu percebi que eu gostava de projetar, de propor coisas, mas não necessariamente o edifício. Eu gostava muito mais de como o espaço era usado.

Inevitavelmente eu fui me deslocando dentro da literatura para ciências sociais aplicadas, muito mais do que para as ciências exatas. Então ali havia muito mais Antropologia, Sociologia, Filosofia, Psicologia e tal. E aí eu consegui uma bolsa de monitoria em História e Teoria. Isso me ajudou um pouco a me aproximar do universo das humanidades.

Meu mestrado já foi dentro da teoria de arquitetura, fiz meu doutorado, e tudo que eu vinha fazendo desde então, sempre dava voltas em torno de entender a cidade, ou de olhar para a cidade a partir desta experiência das pessoas. E o caminhar talvez seja o exercício mais fundante dessa discussão, porque é o jeito mais completo e inteiro de se estar em um território. Você pode até conhecer a partir de outras experiências, só que você nunca vai conhecer plenamente isso se não estiver lá com o seu corpo."

Ricardo no estúdio do Ceda el Paso

Comento o quanto isso se conecta com outras manifestações urbanas que também se apropriam da cidade e fazem disso uma forma de se entender como membros ativos dela. O skate, por exemplo, é uma dessas ferramentas, e não à toa o coletivo Flanantes começou a se apropriar de conceitos, ideias e textos de pensadores da cidade para fundamentar os vídeos de skate que produzem. Murilo Romão, aliás, é citado como um grande parceiro por Ricardo. 

Jéssica, sua companheira de vida e de estúdio, também já vinha dessas experiências, através do coletivo Derivas Urbanas, de caminhadas, intervenções como lambe-lambe, e de entrevistar “pessoas invisíveis” que experimentam a cidade. O projeto então nasce a partir da união das vontades em romper com fronteiras da universidade e realizar experiências com o público, principalmente aquele que por vezes não pode exercer sua cidadania através da ocupação dos espaços.

É curioso pensar que o Ceda el Paso nasce dentro do contexto da pandemia, período em que uma parte da população ficou em quarentena e, na incerteza do que era possível, deixou de estar na cidade. Ricardo comenta que acompanhou nas redes as manifestações de desejo para retornar à vida urbana, mas se perguntou quem eram essas pessoas.

A gente estava muito curioso com essas pessoas tão afoitas com voltar pra rua, porque boa parte da população não tem relação nenhuma com o espaço público. Que tanto desejo essas pessoas têm pela rua, que estão se sentindo tão presas, sendo que boa parte das pessoas que estavam reclamando é dessa classe média que nunca foi pra rua. Mora num apartamento, entra no carro, vai pro shopping, vai pro trabalho, entra no prédio, no estacionamento, vai no clube.... Essa pessoa nunca tá na rua. Só que de repente está essa coisa: "a gente quer ir pra rua, tiraram a rua da gente".

Para quem mora em São Paulo e tem o interesse genuíno pela cidade, sabe que as coisas não são nada simples. A própria sala em que eu e Ricardo conversamos foi escolhida não por acaso, mas por estar em um dos poucos edifícios que permite a permanência de pessoas depois das 19h, algo fundamental para eles. Estar na cidade é um ato de resistência, sempre foi, e passa por ondas de repressão aqui e acolá. 

Conversamos sobre como os anos 1980 foi um período de abandono da cidade, e que tiveram na figura de Luiza Erundina, uma paraibana, mudanças que ajudaram na retomada por meio de espaços culturais. Já nos anos 2000, a criação do Bilhete Único mudou as formas de deslocamento e acesso à cidade, principalmente por pessoas das regiões periféricas. No início dos anos 2010, a revitalização da Praça Roosevelt foi fundamental para uma nova fase do centro da cidade, que viveu o pico da efervescência em meados da década, quando as viradas culturais estavam no ápice e o carnaval de rua voltou com força total.

A liberdade de sair caminhando pela cidade, conhecendo ruas, observando a arquitetura, a promoção de encontros, fez de São Paulo uma cidade viva, e que verdadeiramente se conectava para além do centro. Tudo isso foi se perdendo nos últimos anos, muito por conta da pandemia, claro, mas por escolhas das administrações públicas, que pouco valor enxergam na ocupação dos espaços por ações culturais.

Nesse contexto, Ricardo comenta que sente conhecer melhor a cidade do que muita gente que aqui nasce. Em 22 anos morando em São Paulo, teve a oportunidade de caminhar e entender as conexões entre bairros, pontos históricos esquecidos e como eles contam parte da história da megalópole hoje em dia. 

A caminhada também tem o seu caráter pedagógico, claro. Para muitas pessoas é a primeira oportunidade de andar na rua e se sentir segura, entender as dinâmicas da cidade e treinar o olhar. O Ceda el Paso promove caminhadas pela madrugada com roteiros que consideram a construção da cidade, ou com temáticas específicas, se relacionando com datas ou regiões.

"(A caminhada) É um exercício desse processo pedagógico. Convocar as pessoas para vir para o Centro e sair daqui quinta-feira, 21h00, e deixar explícito para a pessoa que ela pode fazer isso aqui nesse horário. É um pouco que a gente vai percebendo durante todas as nossas caminhadas.

A gente têm vários programas dessas andanças, e tem um que chama 'Umbilicais'. A gente entendeu que o centro de São Paulo não é o Marco Zero, é o Obelisco do Piques, aqui na Ladeira da Memória. O centro fundacional da cidade foi o Pátio do Colégio, mas a nossa relação, de São Paulo como metrópole, não tem nada a ver com aquele centro. Então, para a gente, o que fundou essa metrópole são os caminhos, e o lugar de encontro de muitas linhas, dos caminhos, é o Piques. Você vê a Consolação, Rebouças, a 23 de Maio e a 9 de Julho, Tiradentes, a Prestes Maia... Se olhar no território a Ladeira da Memória é um irradiador de caminhos.

Então a gente vai caminhar em volta desse centro e faz caminhos circulares. A gente marca um raio da Ladeira da Memória e vai fazendo esse circular em volta da cidade. Eu lembrei disso porque tem uma pessoa específica que fez essa caminhada, que a gente se encontrou no metrô, saiu da Higienópolis - Mackenzie e fez a circular. A gente passou ali, naquela parte de baixo da Consolação, Baixo Augusta, no Bixiga, na Liberdade, no Glicério, depois ali no Mercadão, Florêncio de Abreu, um pouquinho aqui em cima, Campos Elísios, República, Vila Buarque e Higienópolis. São muitos bairros.

Essa moça fez a caminhada e falou 'eu não consigo acreditar até agora que a gente passou por todos esses bairros e que eles estão um do lado do outro. Eu nunca coloquei na minha cabeça'. E é uma mulher que nasceu em São Paulo vive na cidade há 50 anos. Ela falou que nunca colocou na cabeça que a Augusta está do lado do Bixiga, e do Bixiga para a Liberdade menos ainda."

Ainda pensando nesse caráter político, Ricardo comenta que mais de 80% das pessoas que buscam os programas de caminhada são mulheres que sinalizam não sentirem segurança em caminhar sozinhas, mas que a coletividade dos encontros as encoraja. Aos poucos, questões que eram definidas de forma orgânica, começam a ganhar peso institucional, na decisão de um roteiro, horário e temas. 

Em tempos que saímos de casa para trabalhar, estudar, ou encontrar pessoas, e ficamos reféns de Uber, ou metrô, passamos a perder a capacidade de observar o meio e se identificar com o cotidiano, o banal. A cidade é feita de coisas ordinárias, que se observadas com atenção, ganham sentido e revelam histórias de quem vive a cidade de verdade, no dia a dia. O objetivo de tudo isso é construir consciência e cidadania. 

Observo a sala e pergunto sobre os livros e a importância desses registros para o Ceda el Paso, que também atua publicando e divulgando materiais físicos. Ricardo me mostra alguns dos livros que foram lançados a partir de materiais das caminhadas, fotos, textos, rascunhos de caminhantes. Tudo é aproveitado para contar histórias.

Andanças pela madrugada, o Rio Ipiranga e as raízes de seu nome indígena, “O Rio Vermelho”, ou as freguesias, termo que significa o ajuntamento de membros de uma paróquia, mas que passou a significar cliente de um estabelecimento, e que resultou em um livro que registra as igrejas e os botecos presentes no roteiro. Tudo isso publicado para ampliar as experiências.

"Não é só um percurso porque percurso é espaço. Se eu falar para ser 12 quilômetros, são 12 quilômetros, e se eu falar duas horas, é tempo, duas horas. Mas eu posso fazer um percurso de 12 quilômetros em duas horas. Eu posso fazer um percurso de 12 quilômetros em quatro dias.

Então a gente fala muito dessa ideia da duração de uma caminhada. E só dá pra acontecer isso quando você está lá caminhando, propondo um ritmo. É a distância e o tempo, simultâneos, definidos por você. É essa experiência do corpo no espaço, de verdade.

E dá pra você ver essas fotos aqui (no livro), mas você só vai ter essa experiência de folhear, ir para frente e voltar. O tamanho da imagem... Tem fotos que a gente escolhe botar pequeno, porque a gente quer que a pessoa chegue perto do papel, sinta o cheiro, textura, tem o peso do livro."

Por fim, Ricardo comenta sobre a conexão do Ceda el Paso com a comunidade latinoamericana, que vai para além do nome. Esses laços nascem a partir do individual, já que Jéssica tem uma relação muito forte e pessoal com o México, enquanto Ricardo tem com o Uruguai. A partir disso, o estúdio não quis se isolar na língua portuguesa, mas quer promover trocas com outros coletivos que entendem o caminhar e o espaço urbano ocupado como uma prática estética. 

Por meio de viagens, encontros com outros caminhantes, trocas de experiências e publicações, o estúdio cria rotas com outros países, afinal, um caminhante não entende fronteiras. A ideia também é democratizar o acesso a materiais publicados internacionalmente, e que talvez não viriam de forma espontânea para cá, fazendo do espaço físico uma verdadeira biblioteca para quem se interessa nos temas. Ser brasileiro também é ser latinoamericano.

Ao sairmos do estúdio a rua estava vazia, escura, e comentamos sobre o atual momento do centro de São Paulo, as dificuldades dos movimentos de luta por habitação, que ocupam prédios mas encontram dificuldades em acessar serviços básicos, já que a região não promove isso com facilidade. Questões que dariam mais algumas horas de papo.

Caminhei para o ponto de ônibus e escolhi uma rota diferente da que estou acostumado. Decidi olhar um pouco os prédios por ruas que dificilmente passaria se não fosse por uma decisão ativa. Me lembrei dos dadaístas mas também me lembrei do mestre Chico Science, já que, se com um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar e com alguns passos pra lado você enxerga algo comum de um ângulo totalmente diferente.


ISMO
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