BIOND1 expõe a sua intimidade e convida à respirar em novo disco
beyond, vol. 1 – respirar, terceiro álbum de estúdio do rapper de Pirituba, chegou ontem nas ruas
Ontem, 27 de março, BIOND1, compositor e produtor de Pirituba, lançou beyond, vol. 1 – respirar, seu terceiro álbum de estúdio. Respirar é o primeiro volume da série intitulada Beyond, projeto marcado por uma forte exteriorização da intimidade do rapper e que se propõe a ir além do "além", como ele mesmo define.
"Foi desafiador demais o processo desse disco. É uma parada bem pessoal minha, são as experiências que eu vivenciei e a maneira que eu fui formulando elas — e isso é sempre singular. Se você fica só no 'você', é uma coisa, mas quando você abre pra outras pessoas trazerem as percepções delas, isso te ajuda a enxergar outras nuances, outras perspectivas. E você olha pra você mesmo de uma outra maneira."
A capa do disco surgiu dessa ideia. A pintura de Brenda Passos nasceu à partir da provocação de BIOND1 que ela fosse uma representação da primeira escuta de Brenda ao disco. "No momento que eu vi, eu me senti abraçado pela arte. Foi um gesto bonito, porque eu senti que ela deve ter ouvido e ter falado: 'nossa, ele precisa de um abraço mesmo, pela arte'. Uma das coisas mais da hora de ser artista é poder vivenciar esse diálogo através da arte", conta o rapper.

"Antes de ser um disco de rap pra galera ouvir, rodar e fazer o meu nome — todas essas coisas que passam na cabeça do MC —, foi muito um barato que eu precisava fazer mesmo, de vida. Um bagulho que, se eu não fizesse, eu nem sei onde eu estaria hoje, sinceramente."
Com fortes inspirações do boombap dos anos 90, do spiritual jazz e do post-bop dos anos 60 e 70, beyond, vol. 1 – respirar chega com 9 faixas, com rimas e produção de BIOND1, além dos feats com eNiBê, Ramos Bt e Gato Congelado e coprodução de DJ Mako.
O disco começou a ser criado quatro anos atrás, em 2022, momento de mudança na carreira do rapper, que começava a abordar temas mais pessoais — uma intimidade que, até então, não havia sido externalizada em sua arte, como ele explica: "isso tudo foi um processo muito ligado à vida, mesmo. Quando eu comecei o disco, pensei assim: 'eu vou botar isso pra fora e vou melhorar'. Eu piorei, na real, nesse processo. Passei por momentos de um adoecimento muito grande — mental, físico, fiquei zoadão. Só que foi necessário."

O disco abre com "fazendo rap", faixa que reverencia a tradição do gênero e dita o tom do projeto. "É sobre um barato que eu não consigo, e nunca vou, deixar de fazer. É uma necessidade básica pra mim, sabe? Eu quis começar com essa faixa pra trazer isso — pode acontecer o que for, eu sigo fazendo rap. É um mecanismo de sobrevivência, é a maneira que eu posso produzir saúde pra mim mesmo. E é isso — isso aqui é um álbum de rap", explica BIOND1.
É importante que isso seja pontuado, pois as faixas que a seguem exploram sonoridades bastante experimentais, com influências do boombap, drumless, afrobeat e muito jazz.
"É uma narrativa que causa uma estranheza, mesmo. A intenção foi essa, também, porque foi uma fase que eu me sentia muito estranho de mim mesmo. Foi um mergulho no desconhecido, e eu acho que isso tá impresso — esse espírito, sabe, de desbravar. Por isso que o nome é Beyond (além, em inglês). É uma coisa de querer ir além porque você precisa atravessar essa distância. É um instinto, essa necessidade do novo. A gente não consegue prever o que vai acontecer, e eu quis passar isso no disco."

"Eu imagino que as pessoas possam, através desse percurso que eu trouxe ali no disco, sentir coisas que dialogam com a experiência delas. Eu sei que muitas dessas coisas podem não ser confortáveis. Mas é essa coisa, de trazer as coisas materiais que estão acontecendo no mundo. O nosso estado de espírito não tá desconectado delas — tudo que tá acontecendo no mundo a gente sente também."
Além do lado mais íntimo e sentimental que é o ponto focal do disco, assuntos como capitalismo tardio, genocídio da população periférica, colapso ambiental e relações amorosas não monogâmicas são explorados ao longo das letras. BIOND1 conta que abordar essas pautas vem de um esforço para se posicionar frente ao que está acontecendo no mundo, com a ideia de que tudo mexe com a gente de alguma maneira: "o meu desejo é que, de alguma maneira, isso remexa o solo. Dos sentimentos, né? Dar uma remexida ali naquela terra, uma marejada".

"São tantas coisas, ideias e concepções sobre a vida e do que tem que ser, do que não tem que ser. Isso tudo muda, passa. E a gente vai sempre seguir respirando. Respirar é meio que isso — o que resta em vários momentos, mas é o que mais ajuda também. É o lembrete de que tudo flui, que tudo muda."
beyond, vol. 1 – respirar já está disponível nas plataformas de streaming. Ouça e também acompanhe o trabalho de BIOND1 pelas redes sociais.