Bazuros e a cumbia punk latino-americana

Das origens do punk à pluralidade da cumbia na América Latina, o Bazuros vem fazendo um som cada vez mais próprio

Bazuros e a cumbia punk latino-americana

Nas casas dos rolês mais alternativos de São Paulo, uma coisa é fato: a diversidade de sons é notável. Numa noite você ouve o avant-garde do eletrônico atual e na outra você ouve um projeto de folk de uma banda de uma pessoa. Ou às vezes, os dois numa noite só. Nesses picos, acabei conhecendo o Bazuros, banda brasileira de cumbia que começou tocando nessas casas alternativas, muitas vezes de donos que se relacionam com o punk (é importante isso nessa matéria, como a gente vai ver mais pra frente) e que, com a pesquisa musical e o interesse próprio, abriram suas mentes para os mais variados ritmos e fizeram do seu bar/balada, morada para rolês alternativos de sons que não necessariamente tinham guitarras no overdrive. 

O Bazuros é um projeto de, também, um monte de punk junto. Cesar Hiro e Vitor Ranieri juntaram uma galera pra tocar ritmos latinos, influenciados por sua formação musical, mas também por sua vivência. Para entender melhor como esses mundos colidiram e como a música do Bazuros é pensada e performada, a gente trocou uma ideia com eles e você lê a seguir. 


Como veio a ideia de fazer cumbia em São Paulo?

Hiro: A primeira vez que ouvi uma cumbia que chamou minha atenção, foi a cumbia argentina, enquanto eu morava com um argentino no Bom Retiro. Ele me mostrou Pibes Choros, Damas Grátis… Nessa época a gente se encontrava muito, eu, Vitinho, o Leão e ficávamos na casa um do outro ouvindo música e começamos a ouvir cumbia coletivamente aí.

No meio da pandemia deu vontade de fazer um projeto diferente. A gente já tinha um projeto que tocávamos coisas diferentes, mas era despretensioso, não tinha nenhum foco em cumbia. Aí a gente foi alimentando a ideia até compor as primeiras músicas, aumentar a banda… Não tinham outras bandas para se inspirar e saber mais, era mais pra se encontrar, tirar um som. 

Vitor: A gente não teve essa ideia; simplesmente aconteceu. Depois pareceu uma boa ideia, sabe? Quando a gente começou a tocar nos picos e as pessoas curtiram, pareceu que a gente teve uma puta sacada, mas não rolou isso. Na verdade a gente tocava uns punks, tipo Agent Orange, Misfits e a gente começou a ouvir bastante coisa com teclado, meio synth pop, nosso som já estava migrando desde essa época. 

Tocando com uma formação que tinha teclado e guitarra, já abriu várias portas pra gente tocar várias coisas diferentes e aí a gente foi experimentando. Tocávamos Tim Maia, Odair José, várias coisas diferentes, até tocar cumbia, que a gente estava ouvindo bastante. 

Hiro: A primeira vez que eu ouvi cumbia, numa coletânea Roots of Chicha, era um som que a gente não conseguia se imaginar tocando, uma coisa primitiva, meio antiga… Quando eu ouvi cumbia argentina de 2000 pra cá, era muita guitarra, você vê que os caras ouviam rock, não é possível não terem ouvido, sabe? Você ouve e tem guitarra, pedal, era muito riffado, então pensei que essas coisas davam pra tocar! Você vai ver a construção das músicas, é 3, 4 acordes, parada meio riffada, mesmo processo de compor música de rock, mas você quebra o tempo, as guitarras vem no contratempo. 

Vitor: Isso até mudou hoje, a gente ouve músicas que a gente ouvia e achava que não conseguia tirar, hoje a gente coloca no nosso repertório. Tem até mais a ver hoje. Sinto que aos poucos, nesse corre de tentar tirar os sons, a gente ia fazendo umas livres adaptações de acordo com nossa capacidade técnica, que foram virando uma sonoridade diferente, que estava legal de tocar e a gente curtia bastante. 

Aí fomos botando mais cumbia no repertório. Quando a gente olha na história, tem várias pessoas que estavam nesse corre da cumbia há um bom tempo, mas a gente não conhecia. A gente não é pioneiro, é importante falar isso, mas a gente não conhecia mesmo essa cena. Ninguém da banda tinha raízes na cumbia. 

Hiro: A gente acabou criando um jeito de produzir e tocar os sons, tentando se desvencilhar desses sinais clássicos do gênero, de se vestir todo mundo igual, usar a mesma camisa, ter um dress code, tocar aqueles covers, compor em espanhol… Nosso começo é todo instrumental, da minha parte eu tinha muito a preocupação de parecer que estava tentando entrar num nicho, ou parecer algo que a gente não era. A gente usava um modus operandi de banda, de rock e punk, e começamos a tentar tocar cumbia e fomos aprendendo, aperfeiçoando. A banda tinha 3, 4 pessoas, hoje a gente tem 10. Tudo é uma construção, você vai aprendendo a tocar, vai criando um caminho, vai tendo sustância a parada. Foi um processo que fomos entendendo fazendo. 

Vocês têm uma base de vida na música no punk e no hardcore. Como disso foi pra cumbia? 

Vitor: No processo de composição, a gente chega sempre com um modelo e depois cada um vai colocando um pouco da sua personalidade. Acho que o processo foi muito parecido com qualquer outra banda, onde tive uma dupla pra compor, alguém pra fazer a melodia e outra pessoa pra fazer os ritmos… As composições saíram sempre num formato simples. 

Dentro desses 5 anos de banda, no começo parecíamos mais uma banda de punk do que de cumbia, porque outras bandas tem um compromisso com a galera dançar, de fazer um baile sem parar, e no começo a gente não tinha muito disso, a gente tocava uma música, parava, tocava outra, parava… A gente foi entendendo qual é essa coisa do baile, plugar uma música na outra, juntar 3, 4 músicas para não deixar cair o ritmo, bota um cover, bota uma mais devagarzinha… A gente foi aprendendo a ser uma banda de cumbia, fazendo. 

Hiro: No começo a gente não conhecia bandas de cumbia ou casas especializadas no gênero, então o caminho mais curto para viabilizar a gente tocar, foi ir nas casas de amigos e lugares que estava acostumado a tocar com outras bandas - esses caras foram sempre muito receptivos. Então você pega os primeiros cartazes do Bazuros, a gente está sempre dividindo palco com banda de punk rock, de música instrumental, experimental, porque de fato era o circuito que estávamos mais próximos. 

Essa coisa de tocar com outras bandas de cumbia ou em festas no Bixiga, foi coisa que aconteceu depois, a gente fez 20, 30 shows nesse circuito anterior. Então essa coisa de se entender como uma banda que anima um baile, foi uma parada que foi surgindo na necessidade de atender outros públicos também, sabe? Uma coisa é tocar no Porta, na Associação Cecília e outra é ir tocar no Sol y Sombra, são públicos totalmente diferentes. 

O Vitor pensa na apresentação, no show, eu fico um pouco na mentalidade de tocar punk rock (risos), mas hoje a gente toca um som mais produzido. Outra coisa que muda, é quando você começa a colocar mais instrumentos, metais, você começa a entender a estrutura musical, saber fazer silêncio, saber a hora que estoura, nesses pontos mudam bastante. Hoje até acho que toco punk rock melhor, hoje eu considero a matemática da música de outro jeito, a gente vai ficando mais ligeiro na questão de arranjo, pensamos como vai entrar o metal, no buraco da percussão… Nesses pontos mudam bastante do punk rock.

Mas tem um monte de exemplo foda na cena que veio dessa base do punk e se encontra em outros sons, tipo o Hurtmold. A gente vai abrindo a cabeça, encontra caminhos, possibilidades e vai deixando acontecer. 

Vitor: Uma coisa que sempre perguntam pra gente é se a gente faz uma cumbia punk, mas nem sei responder isso. A gente não tenta fazer uma mistura dos dois mundos, na verdade. Não é tipo baixar a versão punk da Forever Young, sabe? (risos).

Hiro: A questão do punk para mim vai nesse lado do Do It Yourself, de ensaiar na garagem, ter nosso próprio modo de produzir, viabiliza o próprio lançamento, organiza a própria festa, nesse sentido a gente traz essa coisa do punk. 

Ouvindo o som da banda você ouve a influência, mas não é emulado. É mais sobre a origem da banda, como conseguimos dar nossos próprios passos, foi dentro desse pensamento punk. 

Vitor: Em algumas situações a gente usou o termo “punk” atrelado à cumbia porque as pessoas esperavam chamar a gente pra tocar e ter um show genuinamente de cumbia, com dress code e baile, mas a gente sempre tocava The Clash, Misfits, tudo embolado no nosso som. Então até pra não ter uma quebra de expectativa, esperarem chegar os caras tudo de camiseta florida e chegar 8 caras de preto olhando pra baixo, foi importante usar o termo punk. Foi legal até pra diferenciar na cena, pois tinham bandas que faziam a cumbia como ela é, tradicional, parecido com os discos mais clássicos de cumbia. 

Em alguns momentos a gente até usou o punk para dar uma diferenciada.

Hiro: Eu acho que nossa cumbia é acessível para ouvidos que não sabem diferenciar as diversas cumbias da América Latina, que é difícil até pra gente (risos). Ouvindo a gente tocar, algumas pessoas conseguem se identificar porque colocamos outros elementos. 

O clipe de Luchador

E essa necessidade de cantar em espanhol ou português? Como vocês criam as letras?

Vitor: No começo, só de cantar já era difícil (risos). A gente fazia a linha de vocal no teclado ou na guitarra, a melodia bem tocada pelo piano eletrônico da CASIO, ao invés da minha voz. Hoje eu acho que já desenrolo um espanhol quinta série, bem iniciante, mas na época era muito menos, soava meio mentiroso, então porque ia fazer letras em um idioma que eu não domino?

Hiro: A gente ficou preocupado quando gravamos, até pedimos para revisar o espanhol. A gente canta um portunhol, fazendo adaptações para caber na métrica. 

Vitor: Penso que a coisa do idioma é conseguir se comunicar, mas você sempre vai ter seu sotaque, seu jeito de falar aquele idioma. Se você vai para outro país, você acha um jeito de se comunicar e quem estiver disposto, vai entender. Nosso sotaque é o do mesmo tom quando a gente conversa com argentinos, peruanos, colombianos… A gente criou essa linguagem

Hiro: A gente tem músicas em português, outras em espanhol. Tem letras de outras pessoas, quero fazer uma letra com uma galera do Japão, então é bastante fonte. 

Olha só que coisa interessante do Japão, tem uma galera que toca cumbia por lá e eu acho bem parecido com o Bazuros, porque o Japão não tem necessariamente uma tradição de cumbia - os caras conheceram o ritmo por causa do Joe Strummer, ele falava muito de cumbia e os caras se influenciaram por isso, porque eram punks que ouviam The Clash e isso se conecta com a gente! 

A Bazuros é de São Paulo, então é uma pluralidade de pessoas, de estilos, a gente não tem uma unidade visual, temos todos os tipos de pessoas colando com a gente. 

Vocês hoje estão gravando e soltando por algum selo?

Vitor: Nosso primeiro disco foi independente. A gente teve ajuda do Mario Maluquinho, na época trabalhava no Estúdio Central e conseguimos fazer um take ao vivo. Só saiu no Spotify, nunca saiu físico, é meio que uma demo. 

Hiro: A gente teve oportunidade de fazer um disco com uma produção melhor, guardando dinheiro dos shows e gravamos ao vivo, num puta estúdio legal, gravamos com o Paulo Kishimoto, que toca com a Pitty e o Bufo Borealis e já teve banda de cumbia e isso ajudou a gente bastante, porque transformar o show em um álbum tem um grande descompasso, então ter uma pessoa que entende do assunto por perto ajudou a gente a ter um disco melhor. O Mozine entrou com um apoio e a gente lançou em CD, o álbum Mucha Lucha, Poca Plata

Em 2026 vamos tocar bastante, estamos compondo, queremos pensar no que queremos mostrar, na evolução do som, todas essas coisas.

O último álbum pode ser ouvido aqui

Hoje pra vocês, na vida de bandas de cada um, está rolando mais tocar punk ou cumbia?

Hiro: O Bazuros toca bastante. Ano passado foi média de 3, 4 shows por mês. Teve ano que fizemos quase 50 shows, então é algo muito presente, a galera precisa estar junto, conciliar a agenda de 10 pessoas, tem a logística de ir tocar e levar mais equipamentos… De tanto fazer, hoje rola de um jeito mais simples, mas vai um puta esforço de todo mundo pra deixar rolando. 

Olha que louco, nesse Carnaval de 2026, o Bazuros tocou com o Restos de Nada, dia 07 de fevereiro, no mesmo dia que a nossa música estava sendo tocada por um bloco de Carnaval em Belo Horizonte, o Atípica de Lhamas. Ou seja, a Luchador, nossa música, tocou em 2 lugares simultaneamente!

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Orquestra Atípica de Lhamas tocando Luchador no Carnaval 2026

Vitor: Às vezes eu brinco com o Hiro, que toca em outra banda de punk, com 4 pessoas, que eu queria um projeto com duas pessoas no máximo (risos). Uma vez ouvi um papo que o limite para banda é pensar no carro, dois na frente e dois atrás (risos), para poder viajar de boas. Mas brincadeiras à parte, achamos um jeito de tocar com o Bazuros nesses dois universos, então a gente acaba não sentindo tanta falta. 

É um caminho no punk que tem sido explorado desde lá o The Specials, juntando o gênero com outros. O ska foi bem explorado por aqui, Skamoondongos, Sapo Banjo… O Bazuros também faz um papel desse de aproximar dois cenários que antes não se encontravam tanto na cidade de São Paulo. 


ISMO
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