A sensibilidade combativa das arpilleras chilenas
Quando o fazer manual vira denúncia e documento político
As arpilleras chilenas são imagens costuradas contra o esquecimento. Feitas sobre juta ou estopa, tecido rústico conhecido em espanhol como arpillera, elas transformam o gesto íntimo do bordado em linguagem política, social e afetiva. Mais do que objetos artísticos, são documentos visuais criados a partir da experiência direta da violência, da ausência e da sobrevivência.

Essas peças ganham força a partir dos anos 1970, em pleno regime de Augusto Pinochet. Diante da censura, da repressão e do silêncio imposto pelo Estado, grupos de mulheres passaram a se reunir em oficinas coletivas para compartilhar suas dores e registrar aquilo que não podia ser dito publicamente. Muitas dessas iniciativas contavam com o apoio da Vicaría de la Solidaridad, ligada à Igreja Católica, que oferecia abrigo, articulação comunitária e meios para que as obras circulassem dentro e fora do país. As mulheres envolvidas eram, em sua maioria, mães, esposas e filhas de presos políticos e desaparecidos. Sem acesso à justiça ou aos meios formais de denúncia, encontraram no bordado uma forma de resistência e também uma maneira de garantir alguma subsistência.

As cenas retratadas nas arpilleras não recorrem à abstração. Elas mostram o que estava acontecendo. O bombardeio do Palácio de La Moneda, prisões arbitrárias, torturas, desaparecimentos forçados, fome, filas por comida, mulheres e crianças em busca de familiares. O cotidiano atravessado pela violência de Estado aparece costurado em pequenas narrativas visuais, diretas e difíceis de ignorar. Essa frontalidade é parte central da força das arpilleras. Elas não explicam. Elas mostram.

A estética dessas obras nasce da escassez. O suporte geralmente vinha de sacos de farinha ou batata cortados, enquanto os bordados eram feitos com retalhos reaproveitados. Em muitos casos, esses pedaços de tecido pertenciam às roupas dos próprios desaparecidos, incorporando literalmente a memória física dos entes queridos à obra. Além do bordado e do aplique, algumas arpilleras incluem elementos tridimensionais, como pequenas bonecas de pano que se projetam para fora da superfície, dando relevo às cenas e reforçando a dimensão humana do que está sendo narrado. Cada ponto carrega tempo, insistência e afeto. Bordar, aqui, é também um gesto de luto e de permanência.

Embora hoje sejam amplamente associadas à resistência política, as arpilleras não surgem do nada. Antes de se tornarem ferramentas explícitas de denúncia, a técnica já havia sido explorada por Violeta Parra, figura central da arte e da cultura popular chilena.
Em 1964, Violeta expôs suas arpilleras no Museu do Louvre, legitimando o bordado e o fazer popular como linguagem artística potente, capaz de ocupar espaços tradicionalmente reservados à arte erudita. Esse gesto abriu um caminho simbólico fundamental para que, anos depois, outras mulheres transformassem o têxtil em ferramenta política sem pedir permissão ao sistema da arte.

Durante a ditadura, muitas arpilleras foram contrabandeadas para fora do Chile com a ajuda de redes internacionais de solidariedade. Elas circularam como testemunhos visuais, revelando ao mundo uma realidade que o regime tentava ocultar. Essas imagens costuradas atravessaram fronteiras e cumpriram um papel decisivo na denúncia internacional das violações de direitos humanos. Hoje, integram acervos e exposições ao redor do mundo, incluindo o Museo de la Memoria y los Derechos Humanos, onde são apresentadas simultaneamente como obras de arte e documentos históricos. Seu reconhecimento como patrimônio cultural não apaga sua origem coletiva, feminina e popular. Pelo contrário, reforça sua singularidade.

O legado das arpilleras ultrapassa o Chile e segue vivo em outros contextos latino-americanos. A técnica e sua dimensão política inspiraram movimentos que utilizam o bordado como forma de denúncia e organização social. No Brasil, o Movimento dos Atingidos por Barragens, por exemplo, incorpora o fazer têxtil como linguagem para expor violações de direitos humanos, deslocamentos forçados e impactos ambientais, atualizando essa tradição de resistência coletiva.

As arpilleras não pedem autorização para existir. Elas surgem quando todas as outras linguagens falham. São imagens feitas a partir do que sobra, do que falta, do que dói. Cada ponto afirma uma presença onde o Estado tentou impor o apagamento. Cada cena bordada recusa o silêncio. Entre arte e documento, entre afeto e denúncia, as arpilleras permanecem como prova de que a memória também se constrói com as mãos e de que, mesmo diante da violência extrema, ainda é possível costurar sentido, comunidade e resistência.








