Amor in Sound: onde a música se sente em casa

Tempo, encontros e a construção de um selo guiado pelo afeto

Amor in Sound: onde a música se sente em casa

Em uma indústria musical imediatista, onde encontros são frequentemente pautados pela lógica do mercado e do alcance nas redes sociais, a Amor in Sound responde com outra coisa: tempo, intenção e cuidado.

Criada por Samantha Caldato e Mario Caldato Jr., a iniciativa funciona como selo, produtora e extensão do espaço onde tudo acontece: o estúdio e a casa do casal, em Los Angeles. Não como “marca” no sentido tradicional, mas como um organismo vivo, sustentado por encontros, confiança e liberdade artística. A premissa é clara: fazer música sem pedir licença para o relógio da indústria e sem reduzir o processo criativo a uma linha de produção.

“Amor in Sound é a intenção de juntar parceiros, encontrar gente nova, produzir alegria, produzir arte, produzir música e sobre a qualidade desses encontros”, resume Samantha. “Para poder resistir a essa pressão.” A palavra “amor”, aqui, não é retórica. Ela aponta para uma ética de retorno. “É como retribuir para o universo tudo de bom que a gente recebeu da música ao longo de todos esses anos.”

Mario Caldato com os Beastie Boys no Rio em 2006 (RIP MCA)

Esse modo de operar nasce de um acúmulo raro. Mario Caldato Jr. é uma dessas figuras cuja trajetória se confunde com a história de cenas inteiras. Engenheiro de som e produtor, foi decisivo na sonoridade dos Beastie Boys, trabalhou com Beck, Jack Johnson e construiu uma relação profunda com a música brasileira ao lado do Planet Hemp e de Marcelo D2. Ao longo desse percurso, acumulou Grammys não como meta, mas como consequência de uma prática guiada por escuta, risco e liberdade criativa. A Amor in Sound surge desse lastro: continuidade natural de uma vida dedicada a criar condições para que a música aconteça com entrega e autonomia.

Marcelo D2 e Mario C., de parceiros de trabalho a compadres

Se Mario traz o acúmulo de estúdio, gravação e cena, Samantha amplia o campo de atuação do selo para além da música como produto. No início da carreira, tocou violoncelo no trio original do Black Alien, ao lado de Junior Rodrigues como DJ, chegando a abrir shows para o Planet Hemp. Hoje, sua trajetória atravessa arte, performance e agroecologia, conectando pessoas, solo e alimentos por meio de projetos que pensam cultura e cultivo a partir de uma mesma raiz: o cuidado. Seu trabalho propõe experiências que articulam música, memória, bioeletricidade das plantas e transmissão intergeracional de conhecimento, uma dimensão que atravessa silenciosamente a Amor in Sound e ajuda a definir não apenas o que se cria ali, mas como se cria.

Na prática, isso se traduz num selo que funciona quase como uma residência informal. Artistas entram para conviver, experimentar e deixar as coisas acontecerem no próprio ritmo. “Aqui dentro você pode fazer muito do encontro com o Mario, da maneira de estar aqui”, explica Samantha. “As pessoas ficam aqui. É quase como se fosse uma residência sonora e afetuosa.” A liberdade não é discurso abstrato. É critério de curadoria. “Não precisa pensar se vai fazer show, se vai ter continuidade. É puramente pela entidade da música.” Um selo que não se apresenta como atalho para crescimento ou visibilidade, mas como um espaço de proteção do processo, onde o artista não precisa se adaptar ao formato da vez.

Mas essa ideia de residência não se limita às paredes do estúdio. Ela se estende para uma rede de relações que dá sustentação real ao selo. Desde o início, a Amor in Sound se constrói a partir de parcerias baseadas em afinidade, confiança e visão compartilhada. “Nada disso existe sozinho”, deixa implícito o modo como Samantha descreve o projeto. A estrutura cresce por proximidade, não por terceirização.

Mario Caldato Jr. e Samantha Caldato

Do lado do Mario, essa visão aparece também como uma necessidade de controle sobre o ciclo completo da obra, do som ao objeto. “Às vezes tem um projeto lindo e o acabamento é ruim”, ele observa. “A gente quer entregar uma capa legal, um produto bem feito.” Essa atenção ao detalhe ajuda a explicar a escolha recorrente pelo vinil. Não como fetiche, mas como coerência estética. “Tem sido uma experiência incrível, porque a gente é muito dessa cultura e preservar o som num vinil é uma delicadeza”, diz. “É cuidadoso. Mesmo em menor quantidade, é importante e vale a pena.”

Seu Jorge em casa, na cozinha do estúdio dos Caldatos em Los Angeles

O embrião conceitual do selo começou a se materializar a partir de um projeto que carrega, na própria história, a marca do tempo: um disco do amigo de longa data Seu Jorge, previsto para lançamento em maio desse ano em parceria com o selo Phonomotor da Marisa Monte, que começou a ser gravado há muitos anos atrás e foi amadurecendo sem pressa. “A gente falou: vamos fazer um disco seu totalmente livre”, lembra Samantha. “E aí olhamos para a estrutura que o Mario construiu e pensamos: a gente tem tudo que precisa para fazer o que a gente gosta. Vamos fazer e ver no que dá.”

Mario descreve esse método como uma construção por camadas, sem pressão externa e sem cronogramas artificiais. “Começou com uma música. Ele veio em casa, gravou uma voz e violão. Depois eu tive uma visão daquilo com orquestra, chamei um amigo para fazer um arranjo, e foi a primeira semente que floresceu numa ideia completamente diferente que ninguém estava esperando. Foi crescendo devagarzinho, sem pressão. A gente bancando, mas com o nosso coração, com o nosso tempo".

Seu Jorge e Mario C. no estúdio

Esse modo de operar só se sustenta porque o selo se apoia em relações sólidas, muitas delas construídas ao longo de décadas. A Amor in Sound não terceiriza confiança. Ele compartilha processos. Na Europa, a produção e distribuição dos vinis acontece em parceria com Ruben Planting, figura-chave na coordenação da fabricação dos discos na Europa, e com a Rush Hour, em Amsterdam, responsável por fazer esses discos circularem fora do Brasil. No Brasil, o trabalho se ancora em aliados como DJ Paulão e a Patuá Discos, além de parcerias com selos e estruturas como a Rocinante, que ajudam a fazer o catálogo chegar ao público local.

Essa mesma lógica aparece na criação. Samantha cita com frequência o papel de Thaís Pimenta e a Café8 Music, não apenas como suporte operacional e de comunicação, mas como parte do pensamento do selo. “A qualidade da relação é fundamental”, ela reforça. “Quando isso não é autêntico, não faz sentido.”

Capa de Arruda, Alfazema e Guiné, de Álvaro Lancellotti. Arte por Maria Klabin

No campo artístico, essa rede se amplia ainda mais. O álbum Arruda, Alfazema e Guiné, de Álvaro Lancellotti, lançado em 2025, surge como um dos marcos desse modelo. O disco funciona como abre caminho do selo e sintetiza esse encontro entre tempo, cuidado e liberdade. Não por acaso, o nome Lancellotti volta a aparecer quando Samantha e Mario falam do álbum Caminho dos Pescadores, que foi gravado recentemente e terá lançamento em breve, reunindo Ivor Lancellotti, compositor veterano com obras gravadas por Elizeth Cardoso, Clara Nunes, Nana Caymmi, Nelson Gonçalves e Roberto Carlos, ao lado de seus filhos Álvaro e Domenico. Um projeto que conecta herança, família e futuro, em sintonia direta com a visão da Amor in Sound.

Orquestra Afro-Brasileira - 80 Anos (Remixes). Arte por MZK

Outro exemplo dessa fortaleza relacional é o álbum de remixes da Orquestra Afro-Brasileira, construído inteiramente a partir de convites diretos e trocas reais. A partir do material original da orquestra, a Amor in Sound reuniu um time amplo e diverso de MCs, DJs e produtores, conectando gerações, cenas e linguagens. Do lado brasileiro, participam Criolo, Emicida, Rael, Marcelo D2, Lúcio Maia, Pupillo, Rogê, Tropkillaz, Kassin, Pedro Dom, Zilladxg, Nuts, Daniel Ganjaman, Imperatore e Nave. Do lado internacional, o projeto conta com nomes como Mix Master Mike, Cut Chemist, Gaslamp Killer, J Rocc, TASO, Mexican Institute of Sound e Mophono. “A gente só perguntou: quer participar?”, conta Samantha. “E todo mundo falou sim.” Sem briefing fechado ou expectativa comercial, o disco nasce do interesse genuíno pela potência rítmica e tímbres únicos da orquestra. “A instrumentação é tão específica que as pessoas piravam. A troca foi o motor de tudo.”

É nesse ponto que Pra Gira Girar entra como uma espécie de aprofundamento simbólico do caminho traçado até aqui. Concebido como uma celebração à obra dos Os Tincoãs, o projeto explicita a relação da Amor in Sound com ancestralidade, espiritualidade e continuidade.

O disco reúne Álvaro Lancellotti, Michele Leal e Alan de Deus nos vocais, Pedro Costa na guitarra, Kassin no baixo, Zé Manoel no piano e voz, Zero Telles e Anna Magalhães nas percussões, além de Diogo Gomes no trompete. Mais do que um tributo, o trabalho funciona como atualização sensível de um legado profundamente enraizado na cultura afro-brasileira.

Dois singles já foram lançados — Atabaque Chora e Deixa a Gira Girar — apontando o caminho estético do projeto. O álbum completo já foi finalizado e será lançado em breve exclusivamente em vinil, reforçando a escolha do selo por formatos que valorizam a escuta atenta e o objeto como extensão da música. Em Pra Gira Girar, a homenagem não passa pela repetição, mas pela continuidade.

Essa mesma filosofia orienta projetos ainda em gestação, como o álbum em produção de Pupillo, que surge como um dos trabalhos mais emblemáticos da proposta da Amor in Sound. Pensado como um espaço real de liberdade criativa, o disco reúne um conjunto diverso de colaboradores e atravessa diferentes linguagens musicais sem hierarquia. Entre as participações estão Pedro Martins, Céu, Carminho, Adrian Younge — fundador do projeto Jazz Is Dead — e Jeremy Gustin, entre outros músicos que orbitam esse mesmo campo de escuta e experimentação. “O Pupillo é um gigante”, diz Samantha. “E aqui ele pode fazer um trabalho totalmente livre.” Mario completa: “Um trabalho autoral em que ele visita ritmos fundamentadores dele e transforma com influência do hip hop. E é isso que é legal: poder fazer do jeito que tem que ser e não ter que dar conta das demandas de um grupo comercial. É música por música. E aí a gente volta a acreditar.” Ainda em processo, o álbum reflete com clareza a vocação do selo: criar condições para que artistas experientes possam arriscar, aprofundar e se deslocar sem a pressão de responder a expectativas externas.

Pupillo no estúdio dos Caldato em LA

Mesmo quando o assunto é circulação internacional, a conversa nunca vira plano de expansão. “Música é internacional, não tem limite geográfico”, diz Mario. Samantha complementa: “Aqui é um lugar de tábula rasa para fazer música.” Los Angeles é base, mas o centro de gravidade é a escuta. E nisso o Brasil aparece como força estética, afetiva e estrutural.

“A música brasileira é fenomenal. Eu sou meio suspeita, porque eu acho que é um remédio pro planeta. Se não tivesse música brasileira, o planeta ia estar pior”, diz Samantha. Essa visão se materializa de forma clara no disco de Seu Jorge, que ela descreve como a revelação de um outro lado do artista. “Por isso o disco se chama O Outro Lado do Seu Jorge. É um trabalho mais jazz, mais clássico, mais orquestrado.” Mario completa: “É um disco bonito. Um disco de intérprete. Tem “Vento de Maio”, tem “Caboclo” do Verocai, “Crença” do Milton Nascimento… Traz memória e constituição de uma música brasileira muito forte.”

Mario com Zegon e David O Marroquino, em estúdio gravando o primeiro disco de Seu Jorge em 2000.

Ao longo da conversa, fica evidente que a Amor in Sound não tem a ambição de “corrigir” a indústria nem de se posicionar como uma alternativa salvadora. O que o selo faz é mais simples e mais raro: sustentar um compromisso contínuo com a música em primeiro lugar, com o processo, com as relações e com a permanência do que é feito. “Pensar no amor e na alegria como forma de resistência é a maior força que a gente tem” diz Samantha. “Se a gente só continuar dentro dos formatos ultracapitalistas e neoliberais, e das coisas existirem só pelo consumo, ferrou”. Em vez de correr atrás do próximo ciclo, a Amor in Sound aposta no que permanece.

“A gente tem o luxo de, no segundo, terceiro ato da vida, poder escolher o que fazer com isso tudo. Não é nossa opção gastar dinheiro com grandes carros, grandes sei lá o quê". A gente prefere produzir algo que, daqui a 10, 20, 30 anos, alguém olhe e fale: "o que esses malucos estavam fazendo aqui?”, ela completa. “Que disco é esse, que trabalho é esse?”. Talvez seja exatamente aí que o selo encontre sua medida: menos interessado em responder ao agora e mais comprometido em construir uma rede de encontros que continue fazendo sentido quando o barulho passar.


ISMO
Cultura em movimento

Assine nossa newsletter e receba
as últimas notícias em 1ª mão!

Assine agora