Amélia Janta, canta, cozinha e faz arte
Da preparação para o show da Varanda a dicas de drinks e comidas, um papo com Amélia do Carmo
Música, Artes Cênicas, Pintura, Escultura, Arquitetura, Literatura e Cinema. Essas são as sete artes clássicas conhecidas e, para muita gente, separadas em caixinhas individuais, cada uma com o seu espaço e características. Mas não para Amélia do Carmo, conhecida como @ameliajanta nas redes sociais. A mineira, nascida em Ubá, criada em Caratinga e formada em Juiz de Fora, conquistou uma base de seguidores com vídeos apresentando receitas de rangos legais e drinks maneiros com um humor bem peculiar. Mas reduzir seu trabalho à isso seria injusto com o multitalento que carrega nas ideias, fazendo tudo ao mesmo tempo.
Atualmente, Amélia continua produzindo os conteúdos gastronômicos nas redes sociais, enquanto incendeia palcos como vocalista da banda Varanda, ao mesmo tempo que pinta, escreve, roteiriza, atua em filmes independentes, e escreve, função aliás, que resultou no livro Breve viagem ao mercado (Editora Patuá), coletânea de crônicas sobre a vida cotidiana. Convidei Amélia para um papo, com o objetivo de entender um pouco como essas diferentes atuações coexistem e, principalmente, para falar sobre o show no Lollapalooza, que acontece neste final de semana em São Paulo. A banda faz parte do seleto grupo de artistas brasileiros da nova geração que foi convidado pela curadoria do festival, muito elogiado pela seleção.
Antes da leitura começar, dê o play no último disco da Varanda
Não teria como começar com outro assunto que não o show de vocês no Lollapalooza daqui uma semana. Como está a expectativa?
A gente tá muito animado. A gente ainda não tá com a materialidade da coisa tão presente, porque é um evento de proporções tão grandes que a ficha meio que tá caindo aos poucos, mas a gente tá ensaiando, tá focado, então estamos tranquilos nesse quesito. O negócio vai ser quando chegar lá mesmo. Eu acho que toda a adrenalina tá sendo guardada para esse momento.
E como rolou o convite? Sempre fiquei curioso em como isso rola com bandas menores.
Cara, a gente recebeu uma DM (risos). Tanto que a gente achou que era trote, que era brincadeira. Tava todo mundo junto, inclusive, voltando de um show, em Santa Rita do Sapucaí, interior de Minas. E a gente tava no carro, aí eu li essa DM e todo mundo começou a pirar. Mas a gente ficou achando que era mentira por um tempo.
Parando para pensar, acho que eu ficaria igual. Mas me diz, isso gerou alguma repercussão logo após o anúncio do lineup?
Foi um momento muito legal. A gente percebeu que a galera ficou muito feliz, a galera que já acompanhava. A gente notou uma celebração em conjunto, especialmente a galera da cidade de Juiz de Fora. Até quem não conhecia e tal, os veículos de imprensa, todo mundo noticiou porque é uma coisa muito inédita, né?! Galera do interior de Minas tocando no Lolla. Suscitou um bairrismo muito legal de ver, bem interessante. A gente ficou feliz com todo mundo animado.

É legal ouvir isso porque, depois de alguns anos, o festival voltou a olhar para essa cena de música independente brasileira, e não só do circuito Rio-São Paulo. Você acha que é reflexo de algo mais sistêmico rolando por aqui?
Então, a gente percebeu essa, não sei, universalização de onde a cena tá vindo nos últimos anos. O Lolla tem um pouco desse DNA de trazer algumas bandas pequenas para serem apresentadas, fazer essa curadoria. Mas eu percebo que esse ano o line tá bem recheado de bandas nesse sentido, de gente que veio do Sul, vem do Nordeste... É uma efervescência que é massa de estar presenciando e de estar todo mundo concentrado nesse lugar, que é um palco incrível. Pra gente é uma oportunidade insana e eu acho que isso reflete muito também dessa universalização da cena. A galera tem gostado de conhecer gente nova. A gente sente muito isso no crescimento da Varanda também, de uns tempos para cá. Cola galera nova nos shows e galera que vem de outras bandas também. Tentamos fortalecer esse laço com quem a gente toca junto. Sempre gosto de falar dos amigos que estão nesse caminho.
Então, acho que é uma coisa que a gente vê crescendo de forma muito natural na nossa trajetória e tal, de tocar junto. Galera de São Paulo especialmente, a gente toca muito lá, mas a gente tem gostado e tem visto também uma cena geral. A gente foi no fim do último ano fazer a rota do cerrado, Brasília, Goiânia, Uberaba, e foi muito massa tocar com as bandas locais e ver uma galera colando e conhecendo as músicas. Então, essa coisa de crescer na cena tá sendo muito legal de acompanhar ao vivo.
Pô, que massa. Aliás, vocês já dividiram palco com alguém que está no line também?
A gente já dividiu com Oruã, na festa que eles fazem no Rio que se chama Fechamento, e é muito massa. Eles fazem um rolê ali, um rolê carioca muito foda. E foi uma das noites mais legais que a gente pôde dividir palco e tocar no meio da rua, com os bondinhos passando. Com a Nina Maia também, ela veio tocar aqui na cidade e aí eu e o Augusto (baixista da Varanda) abrimos o show dela, foi incrível também. A gente é muito fã do som dela.
A Papisa, a gente nunca dividiu palco, mas acompanhamos bastante. Foi um dos primeiros shows que eu vi aqui em Juiz de Fora, quando me mudei pra cá. É legal de relembrar. E a galera das bandinhas assim, tipo a gente, Jonabug, Terraplana… A gente não tocou junto, mas acompanho nas redes e vejo a trajetória. Então é legal, parece que a gente tá meio entre colegas, amigos.
Pegando isso de primeiros shows e chegada em Juiz de Fora, a Varanda existe desde 2021, mas você entra num segundo momento, certo? Como foi a troca entre você e os outros integrantes da banda no período?
Na época eu tocava synth e percussão em uma banda chamada André Medeiros Lanches, que eu entrei também meio de supetão, nem tinha muita experiência com tocar instrumentos. Minha coisa sempre foi cantar, mas entrei pelo rolê, porque eu curto muito essa coisa de fazer música, de banda independente. E daí foi que me apresentaram para a Varanda, justamente nessa situação: "óh, tão sem vocalista, não sei se é a sua onda, mas se quiser fazer um teste…" E aí foi meio loucura, porque a "Lanches" ia fazer uma mini tour com a Varanda, no Rio, e em algumas cidades de Minas também, fazer uns três shows, batidão. E aí eu entrei uma semana e meia antes dessa tour e fui em trabalho duplo. Foi meio insano (risos).
Mas eu curti bastante, a galera me acolheu direitinho. Foi um batidão muito insano, entrei muito rápido, já saí para viajar com eles, foi uma contratação relâmpago.
Imaginei a cena do primeiro show terminando, roadie entrando pra trocar palco e você já ficando para a próxima banda (risos).
Foi meio isso! E eu não tinha tido tempo ainda de aprender várias músicas, então eu fiquei super grilada com isso. Deixei umas partes de letras coladas nos lugares para disfarçar.
Que situação! Mas e falando de som, você sente que algo mudou com a sua chegada?
Eu acho que eu trouxe uma outra energia ao vivo, especialmente, porque eu sou mais enérgica mesmo, é da minha natureza, de ter essa coisa mais performática, mais dançante. Talvez a gente tenha adicionado um punch a mais no som, não sei, vocais mais presentes, no sentido de impostar a voz, de cantar, gritar e etc. Eu acho que isso foi uma adição que a gente fez, não sei se instintiva, se veio de mim, mas foi uma coisa que todo mundo concordou que era legal ter essa energia a mais, tanto no ao vivo quanto na gravação.




Sim, temos gritos de Amélia nos shows da Varanda Fotos: Aderson Souza / Downstage
Acho curioso te ouvir falar sobre a performance, porque eu te conheci primeiro como criadora de conteúdo, e você tem uma fala mais centrada, calma… Mas quando você vai pro palco é uma energia diferente mesmo, outra persona. Aliás, o lidar com a câmera facilitou a lidar com o palco e o público?
Acho que essa relação com a câmera, bom, eu também fiz (Faculdade de) Cinema, atuo em curtas aqui, então é uma relação multimídia com a câmera. No meu caso, eu acho que ajuda porque é tudo performance, de certa forma. Enquanto eu tô performando, o que quer que seja, acho que ajuda nesse arcabouço de referências e desenvolvimento. Mas em questão de relações interpessoais, eu acho que eu ainda me reservo um pouco para não gastar energia em todas as coisas. Às vezes eu sou bem quietinha quando eu saio do palco.
Você citou o cinema e chegou em um ponto que eu tinha muita curiosidade, que é como todas as suas atuações se interligam. Você já fez dança, lançou suas crônicas pela Patuá, tem música, artes visuais, vídeos… Me explica, como funciona isso na sua cabeça?
Bicho, é engraçada essa pergunta porque, para mim, parece tudo tão interligado e em conjunto, vai andando junto. Porque a música também é escrita, e o vídeo também é escrita. Então, acho que a escrita permeia bastante essa coisa artística que eu tenho, o apreço, o gosto. E aí ela só se traduz em outras formas também. Sei lá, essa vontade de me comunicar, de qualquer forma, de qualquer jeito. E uma curiosidade. Eu acho que eu gosto de experimentar meios e caminhar por eles. Talvez eu seja facilmente entediada por manter só uma coisa. Não sei, às vezes é um sinal dos tempos, né, da jovem que gosta de fazer tudo. Mas eu gosto de fazer tudo.

E como você tem equilibrado isso hoje? Existe uma organização mental ou mesmo prática para dar conta de fazer tudo? E existe uma consciência de respeitar o próprio tempo quando precisa parar?
Não, não! (risos). Eu também tampouco me organizo nesse sentido. Talvez ver uma separação clara seria vantagem, né?! Nesse quesito organizacional. "Agora eu vou bater o ponto da Amélia Vídeos." Mas tudo acontece ao mesmo tempo, pelo menos por hora. Inclusive, esses últimos meses foram muito sintomáticos dessa mistura toda, que tem essa coisa do Lolla, e estamos levantando músicas novas, então tem a composição, tem essa coisa do palco, e aí os vídeos não param, aí publi… Às vezes eu me pego fazendo um roteiro e aí na outra aba eu passo para uma composição, aí eu ouço uma música, edito um vídeo e tudo meio que ao mesmo tempo. E eu realmente não vejo uma separação muito clara, muito certa. Vou fazendo o que aparece na frente mesmo.
Amélia Janta, Amélia Canta, Amélia Escreve…
Vai indo. Amélia Trabalhos (risos).
Voltando um pouquinho pro show, vocês pretendem apresentar alguma coisa nova?
De música não vamos apresentar nada novo por enquanto, porque estamos em uma parte bem embrionária das coisas, mas estamos conectando as músicas de forma diferente, trazendo outras visões pros arranjos. É um show que a gente pensou mais para esse momento e também para, de certa forma, ser um show de despedida pro nosso primeiro disco, que foi muito importante pra gente. Primeiro trabalho completo que apresentou a gente para a maioria das pessoas que nos acompanham agora. Então, vamos dar um “tchau, obrigado”, e aí partimos para a próxima. Mas de novo não vai ter nada específico.
Rebarba, último EP da banda, foi lançado em 2025, com "sobras" do disco Beirada
Bom, para fechar eu preciso da ajuda da Amélia Janta com algo pessoal. Baseado no seu quadro “Janteta Russa”, eu quero que você me indique algo para cozinhar para o almoço, um drink para beber depois do trabalho e um som para ser a trilha sonora disso tudo.
Eu gosto muito dessa coisa de adaptar a minha situação ali do momento, “o que eu tenho, o que eu posso usar, o que eu faço com isso?” O que você tem na geladeira agora?
Cara, eu tenho brócolis, cenoura, vagem, edamame, ovo, uns molhos…
Acho que você tem que ir para um caminho de arroz frito, então. Essa coisa do stir fry, fazer um um legume salteado, bota um ovo, bota no arroz, cebolinha… Eu sou muito fã dessa coisa do arroz frito chinês, de vários legumes. Ou você faz uma frittata de cenoura, vai pro italiano. É só grelhar a cenoura, corta em rodelinhas, grelha até ficar com uma casquinha, aí tu joga um ovo ali e depois tu vira. Acho que é incrível.
Beleza, vou na frittata que é mais rápido (risos). Agora o drink pro final do dia. Não é algo que me orgulhe mas tem mais bebida que comida em casa.
Tem mezcal? Faz aí uma mezcalita com abacaxi! Puta merda, é muito bom. Eu tomei isso quando tava na curtição do ano novo agora, essa coisa de piscininha e drinks. Aí eu não sabia se era uma receita de fato, mas existe mezcalita com abacaxi.
E pra ouvir?
Agora eu tô muito viciada na Oklou. Eu cheguei meio tarde, que é aquela querida das musiquinhas digitaizinhas, eu acho a vibe dela muito boa, mas não tem nada a ver com mezcalita nem com frittata, né?! Então ouve o EP da Judeline, que é muito bom. Ela é espanhola, meio filha da Rosalía. O EP é Verano Saudade (2025), já é mais sexta-feira.