Alejandro “Mono” Gonzalez
Uma trajetória construída entre a rua, o povo e a recusa em silenciar
Nem toda arte nasce para durar. Algumas existem para acontecer, para atravessar o instante frágil entre o gesto e o apagamento, entre a tinta ainda úmida e a próxima camada de cinza. O trabalho do chileno Alejandro “Mono” Gonzalez emerge exatamente desse intervalo instável, não como ornamento urbano, mas como gesto de enfrentamento. Falar de Mono é falar de um artista, mas também de uma ideia radical de comunicação: o muro como voz ativa, como jornal aberto, como território em disputa, onde cada imagem é escolha, conflito e recusa em silenciar, muito antes da internet transformar a narrativa em guerra permanente.


Cartaz 1º de Maio e da Brigadas Ramona Parra lembrando os 50 anos do golpe no Chile
Formado no Chile efervescente dos anos 1960, Mono se torna uma das figuras centrais da Brigada Ramona Parra, coletivo muralista que entendeu cedo que imagem também é poder. Ligada às juventudes do Partido Comunista Chileno, a brigada levou a política para os muros com a urgência de quem não tinha tempo para sutilezas. Cores chapadas, traços diretos, figuras reconhecíveis à distância. O mural deixava de ser obra para se tornar mensagem, deixando claro que a cidade não era neutra e que o espaço público sempre esteve em disputa.

Essa lógica nunca se limitou à pintura fixa. O mural era ponto de ancoragem, mas o papel dava mobilidade à imagem. Cartazes impressos de forma artesanal circulavam pela cidade como mensagens em fuga, colados em postes, muros e tapumes, multiplicando mensagens, símbolos, espalhando palavras de ordem e escapando do controle imediato. Se o mural marcava território, o cartaz atravessava bairros, mudava de mãos, reaparecia onde menos se esperava. Juntos, muro e papel construíam uma rede visual de comunicação popular e direta, impossível de domesticar.


Cartazes contra o Fascismo e contra à impunidade dos crimes da ditadura chilena
Durante o governo de Salvador Allende, murais e impressos convivem como parte de um mesmo ecossistema visual, ocupando centros urbanos e bairros populares com imagens de futuro, coletividade e transformação social. Após o golpe militar de 1973 e a instauração da ditadura de Augusto Pinochet, essa produção gráfica ganha ainda mais importância. Quando pintar um mural se torna perigoso, o cartaz assume o papel de mensagem móvel, rápida, clandestina. Pode ser colado à noite, arrancado pela manhã, e reaparecer no dia seguinte em outro lugar.


Cartazes Nunca Más e Libertad!
É nesse embate contínuo que Mono passa a ser reconhecido como o artista do povo, não como rótulo folclórico, mas como consequência direta de uma prática que nunca se afastou da rua, das comunidades e dos conflitos reais. Sua dedicação sempre esteve voltada à criação de uma arte acessível, coletiva e territorializada. Para além do centro expandido, seu trabalho se estende a comunidades afastadas, vilas, bairros periféricos e zonas historicamente negligenciadas. Seja no mural pintado em mutirão ou no cartaz colado à mão, a lógica permanece a mesma: construir imagem junto, falar com quem está ali, transformar o espaço em ferramenta de expressão comum.







Murais de Mono espalhados pelo chile e ao redor do mundo
Essa coerência atravessa décadas e chega intacta ao presente. Durante o processo eleitoral que levou Gabriel Boric à presidência, Mono atuou de forma ativa na produção e circulação de imagens em apoio à candidatura, reativando o cartaz político como linguagem urgente. Ao mesmo tempo, se posicionou de forma explícita contra o avanço da extrema direita representada por José Antonio Kast, entendendo aquela disputa não como um embate abstrato, mas como um momento histórico de risco real de retorno a uma época que ninguém quer viver novamente. Mais uma vez, sua arte não observa à distância, ela escolhe lado.


Poster da campanha de Gabriel Boric e ilustrações em oposição a José Antonio Kast
Essa disposição para o diálogo político e cultural nunca se limitou ao território chileno. Ao longo das décadas, Mono levou sua arte para muitos outros países da América Latina e do mundo e construiu uma relação bem próxima com o Brasil, participando de murais, encontros, oficinas e intercâmbios com artistas, coletivos e comunidades locais. Suas diversas passagens pelo país reforçam a ideia de um muralismo latino-americano como linguagem compartilhada, atravessada por histórias comuns de desigualdade, resistência e invenção popular. No Brasil, assim como no Chile, seu trabalho se dá menos como intervenção autoral isolada e mais como troca, aprendizado mútuo e construção coletiva.

Essa dimensão viva e acessível do seu trabalho eu pude experimentar pessoalmente em 2024, quando, por indicação do amigo e também artista Felipe “Flip” Yung, visitei seu ateliê, no bairro Franklin, em Santiago. Fui recebido com generosidade pelo próprio artista, que fez questão de conduzir a visita, apresentar as obras e contextualizar imagens, cartazes e fragmentos de história espalhados pelas paredes. Não havia ali distância entre artista e visitante, nem mediação institucional. Havia conversa, escuta e transmissão direta.


Mono no seu ateliê em Santiago
Inserido em um território profundamente ligado ao mundo do trabalho, à economia popular e à cultura urbana chilena, o Taller del Mono, em meio ao mercado Persa Bío-Bío, se confunde com a própria dinâmica do bairro. Cercado por galpões, feiras, oficinas e fluxos informais, não se isola da cidade. Funciona como extensão da rua e do mercado, aberto à visitação pública, operando ao mesmo tempo como arquivo vivo, ponto de encontro e espaço contínuo de circulação de saberes.


Pinturas em tecido de Mono Gonzales
Recentemente, sua trajetória foi consagrada com o Prêmio Nacional de Artes Visuais do Chile, um dos mais importantes reconhecimentos culturais do país. Um gesto simbólico potente: o Estado reconhecendo um artista cuja obra sempre tensionou o poder, ocupou os muros e falou diretamente com o povo. Não como domesticação, mas como reconhecimento tardio de uma prática que nunca pediu autorização para existir.


Tapeçarias com a arte de Mono Gonzalez
Em um tempo em que a arte urbana é frequentemente absorvida pelo mercado e esvaziada de conflito, o trabalho de Alejandro “Mono” Gonzalez permanece desconfortável. Ele não pede selfie, não busca neutralidade, não se acomoda em narrativas fáceis. Seus murais e impressos exigem leitura, contexto e posicionamento. Talvez por isso sigam atuais.
Durante o estallido social chileno de 2019 e no ciclo político que se seguiu, a reemergência espontânea de códigos visuais da Brigada Ramona Parra nas ruas, nos cartazes improvisados e nos grafismos de protesto deixa isso claro. Não como homenagem nostálgica, mas como linguagem viva, pronta para ser reativada sempre que a história volta a tensionar o presente. Essa mesma lógica atravessa outras lutas contemporâneas das quais Mono se engajou diretamente, seja em manifestações de solidariedade ao povo palestino, seja no apoio visual e político ao movimento Black Lives Matter. Não como adesão simbólica à distância, mas como continuidade de uma prática que entende a imagem como ferramenta de posição e alinhamento. Não é saudosismo, mas sim continuidade.


Cartaz de apoio à Palestina e ao movimento Black Lives Matter
Em um mundo que individualiza tudo, inclusive a arte e a luta, Mono insiste em outra lógica: a da criação coletiva;, da imagem como ferramenta pública, da cidade como espaço de fala. Enquanto houver tentativa de apagamento, haverá tinta, papel e alguém disposto a fazer tudo de novo.