Alain Voss: o arquiteto do caos e da transgressão
Elegante, psicodélico, bizarro e autêntico, Voss é responsável por imagens que moram no imaginário do Brasil e do mundo
Existem alguns bordões usados para definir alguns artistas, como “arquiteto”, ou “documentarista de seu tempo”, mas a real é que bordões existem por um motivo, e para mim realmente existem pessoas que contribuem para criar a lente através da qual enxergamos uma era. No Brasil dos anos 60 e 70, enquanto a música rompia barreiras com a Tropicália e o Rock Psicodélico, a imagem dessa revolução passava em grande parte, pelas mãos de um franco-brasileiro de olhar ácido e técnica impecável. O nome do brabo é Alain Voss.
Nascido na França em 1946 mas radicado no Brasil ainda moleque, Voss viveu entre dois mundos, e sua obra é reflexo dessa dualidade. Ele foi o homem que deu rosto à loucura dos Mutantes e, mais tarde, um dos pilares da revolução dos quadrinhos adultos na Europa. Explorar sua obra é fazer uma viagem por um universo de sátira, detalhismo obsessivo e uma profunda rebeldia estética (mais um bordão).

É impossível falar da discografia d'Os Mutantes sem falar das imagens criadas por Voss. Se Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee criavam camadas sonoras inéditas, Alain Voss criava a casa visual para esse som. Numa comparação infame, ele seria o quarto mutante original, tipo o George Martin para os Beatles. Suas colaborações mais icônicas são, sem dúvida, a capa do álbum Jardim Elétrico (1971) e Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets (1972).
Em uma época em que o Brasil vivia o sufoco do regime militar, a capa de Voss era um manifesto de liberdade, quase uma sátira. Com influências claras do surrealismo e da estética underground americana, como Robert Crumb, Voss desenhou os integrantes da banda como personagens de uma HQ lisérgica.
Entre os elementos que gostava de desenvolver em seu trabalho estão o uso de hachuras pesadas, a distorção de membros e figuras que beirava o bizarro, uma profusão de detalhes que exigem que o ouvinte passasse horas examinando o encarte enquanto o disco tocava, coisa que hoje em dia, em tempos de streaming, tem pouquíssimo valor e destaque. Voss não apenas ilustrava, ele de certa forma expandia a narrativa lírica da banda, e se tratando do período, com o uso de lisérgicos da pra considerar que para ele a música também era visual.


Com a ditadura pesando a mão e a censura batendo na porta, Voss retornou à França em 1972, e por lá se firmou como um dos maiores nomes dos quadrinhos mundiais. Ao lado de gigantes como Moebius, Enki Bilal e Richard Corben Jean-Pierre Dionnet, ele integrou o grupo que fundou a revista Metal Hurlant, que chegaria nos EUA com o nome de Heavy Metal.
Enquanto Moebius, talvez o nome mais famoso dos amigos da Metal Hurlant, explorava o o onírico, Voss trazia brincava com o mundano, o sujo e o urbano. Tinha algo de punk no seu trabalho, apesar da precisão estilística, já que começou a parodiar ícones da cultura pop, transformando personagens intocáveis em figuras decadentes, uma escolha que anos depois viria a influenciar gerações de quadrinistas independentes.
Ainda na França, chegou a lançar uma HQ chamada Heilmann, um trabalho muito polêmico pois se inspirava na androginia de artistas como David Bowie, mas com elementos visuais nazistas no personagem principal, uma paródia que não foi muito bem aceita pelos alemães, que proibiram a publicação da revista.
Nessa fase, além dos quadrinhos, as pinturas e ilustrações de Voss apresentam uma evolução muito técnica para a época, colocando vários elementos, criando camadas e texturas que davam não só forma como volume. Se antes, ainda no Brasil, as cores falavam mais alto, sua fase européia é de uma psicodelia mais realista. A antropofagia aparece como elemento importante em seu trabalho assim como influências do rock progressivo e da art nouveau.




Voss retornou ao Brasil nos anos 80, colaborando com revistas como a Bizz, onde suas ilustrações continuaram a dialogar com o universo do rock. No período, chegou a ganhar o prêmio HQ Mix diversas vezes, se consolidando como um veterano que ainda tinha muito coisa pra dizer, ou melhor, desenhar. Monga - A Mulher Gorila e O Careca são alguns dos quadrinhos que mais fizeram sucesso nessa segunda fase brasileira do artista. No período, quase ilustrou a capa do disco Decanse em Paz (1986), do Ratos do Porão, mas preferiram seguir com algo mais brutal.
Em 2001 o Itaú Cultural promoveu o evento Anos 70: Trajetórias, que tinha Alan Voss como um dos artistas destaque, além de outros quadrinistas como o já citado Robert Crumb, Paulo Caruso, Angeli e Laerte, provando que mesmo morando na Europa, seu trabalho foi bem influente aqui no Brasil. Ainda nos anos 2000 chegou a colaborar com a edição brasileira do jornal Le Monde Diplomatique, ilustrou livros, produziu tirinhas e seguiu ativo até 2009, quando teve um infarto.








Sua morte em 2011 deixou um vácuo na arte gráfica mundial, já que ele provou que a ilustração de capa de disco e as páginas de uma HQ não são artes menores, já que estão ali no front da batalha cultural e um cara tão provocativo e autêntico como Viss tinha seu papel muito bem definido. Ele foi o elo entre a sofisticação e a nossa tão brasileira antropofagia.
Hoje, vemos ecos de Voss em artistas que buscam o grotesco elegante e a crítica social ácida. Ele permanece como o artista que ensinou que, para criar o novo, às vezes é preciso deformar o real e realçar a bizarrice do cotidiano.