AKA AFK sempre levou o grime brasileiro para os gringos

Uma conversa sobre a relação do MC de grime brasileiro com o mercado internacional

AKA AFK sempre levou o grime brasileiro para os gringos
AKA AFK no CARNAGRIME 2025 (foto por @crizanleone)

AKA AFK é um dos maiores artistas de grime do nosso país. O seu primeiro álbum, BR140, é o maior projeto estritamente de grime da cena brasileira, contando com mais de 20 colaborações, entre os maiores MC's e produtores do Brasil e de fora.

Além de movimentar muito a cena aqui no nosso país, ele conseguiu se inserir no mercado de voz da música eletrônica internacional, com a comercialização de dubplates — versões exclusivas de músicas, elemento da cultura que surge lá no começo da música eletrônica, com o reggae.

Recentemente, o pessoal da Station Twenty, projeto londrino, veio até São Paulo gravar um episódio sobre a sua história, ressaltando o impacto e relevância que tem na cena. Pensando nesse momento, e na atualidade que o seu disco de 2022 ainda tem, trocamos a ideia que segue.


Salve mano! Podemos começar falando sobre esse projeto do documentário, como foi que surgiu essa ponte?

Desde quando eu comecei a fazer grime, eu tenho uma grande conexão com a rapaziada de Birmingham e esse mano que gravou o documentário é de lá. Ele ia vir pro Brasil e deu um salve no Félix Dubs, porque já conhecia o meu trampo.

Aí eu troquei ideia com ele, mano. A ideia do documentário é tipo "um dia na vida", tá ligado? Eu falei sobre grime, sobre viver em São Paulo, sobre como a parada funciona dentro da minha visão. A gente trombou ele lá em Guarulhos, fez um rolê por Pinheiros, centro da cidade, colou lá no JPEGO. Gravamos um freestyle, que é um quadro à parte, além do documentário, e gravamos uma música pro documentário.

Essa sua relação com o pessoal lá de fora não é de hoje. Como começou a troca com a cena de Londres e qual foi a importância disso para o seu trabalho?

No final de 2019, a gente preparou os singles pra começar a lançar tudo em 2020. Eu lancei o meu primeiro single com o Yescal, e fui me conectando, através dele, com o Meio Feel, com o Enigma, que estavam começando. A cena era muito escassa, mas através desses primeiros singles, eu conheci o Toncali e ele me mandou o beat de "Dez e Faixa". Como o Toncali já tinha uma vivência maior dessa parada da música eletrônica, ele pegou esse single e mandou pra uma lista com um monte de gringo.

E daí, o que que aconteceu? O J Fresh do nada postou que tocou "Dez e Faixa" na Pyro Radio e foi muito louco pra mim — isso em 2020, tinha pouquíssimo material de grime na rua e ter o meu som tocado numa rádio, no começo da minha carreira com grime, eu falei: "caralho, os manos viram e curtiram a parada".

Ele começou a tocar a música toda semana na rádio e aí eu fiz o convite pra ele participar do meu primeiro EP — ele fez a intro do Zoo Babel, como se fosse um dubplate — e a partir daí, foram aparecendo vários DJs tocando as músicas. Eu lancei o EP, lancei mais uns trampos, fui pro Brasil Grime Show, participei do Purgatorium e, depois dessa leva, a gente lançou "Pull Up".

Isso foi em 2021, né?

Isso e esse foi o primeiro trampo que eu peguei a visão da métrica 4x4, tá ligado? O Toncali fez a mesma fita de mandar pelo email, o bagulho já chegou em várias pessoas, e "Pull Up" foi eleita a música da semana na Kiss FM, que é uma rádio gigantesca.

Logo em seguida, teve meio que um prêmio revelação da Kiss e aí a gente pegou uma conexão muito foda com os caras, fizemos set pra eles, enviamos set e através disso, rolou o trampo do EP Brasa no Mapa. Esse EP bateu muito lá fora, em Londres — tanto que a gente ficou na página inicial BandCamp quando foi lançado.

E aí foi quando eu meio que perdi o controle da onde minha música tocava lá fora. Se você entrar hoje em dia lá e ver o EP no BandCamp, os apoiadores lá, quem comprou a track, é muita gente — a gente perdeu a parada de vista.

Esses trampos com os gringos, além de ser um bagulho dahora, foi o bagulho que pagou e paga muitas contas minhas até hoje. Eu tinha um trampo CLT e quando eu tava começando a fazer o BR140, eu saí fora — eu já tava tendo que ir pra vários lugares fazer música e tinha vez que eu não conseguia mais acordar 3 horas da manhã pra ir trampar.

Eu não acreditava que dava para ganhar um dinheiro na parada, porque eu já tinha meio que uma caminhada no rap, nas batalhas de rima e eu não acreditava nesse bagulho. Teve um certo dia que uma DJ de Barcelona, chamada Alvva, me deu um salve e falou: "Mano, quer fazer uma dubplate pra mim? Quanto que você cobra?".

Eu nunca tinha feito nada disso, e ela pegou e me mandou 50€ pra fazer esse bagulho. Esses 50€ davam o vale que eu recebia no dia 20, tá ligado? E aí eu comecei a ver possibilidade nessa parada, nesse mercado de voz. Logo em seguida, eu saí fora do trampo, e meio que desesperado, virei pro Medley P, um DJ que sempre tocava as minha músicas, e falei para ele: "quer comprar um dubplate?". Ele falou: "quanto que é?". Eu falei que era 100 libras, que era o que eu pagava de aluguel e conta, e ele virou e falou: "demorou".

A partir desse dia, até hoje, eu só trabalhei com grime e música a minha vida toda. Foi todo um aprendizado, né? O grime me possibilitou conhecer esse mercado de voz, porque, lá fora, realmente é um mercado, da venda de voz, de som pra festa. Então, além de trampar só com grime, eu trampo no mercado de voz da música eletrônica, tudo quanto é tipo de eletrônica, em tudo que é tipo de país.

Em setembro de 2022, você lançou o BR 140, que contou com um time enorme de artistas, tanto daqui, como de fora. Como surgiu a ideia desse disco?

O meu sonho, desde que eu comecei a gravar os meus primeiros sons, era ter um álbum. Só que não tinha como, eu não me via pronto — eu já trocava muita ideia com o Meio Feel, desde o meu primeiro lançamento, e eu sempre ficava falando pra ele: "mano, eu quero fazer um álbum, eu tenho que fazer um álbum".

O primeiro respiro do álbum foi no sample de "FIFA Street" — eu peguei o sample do PES 2008 e mandei pro Meio Feel, e virou esse beat. Isso em 2020, e eu continuei tacando marcha nos trampos. Eu fui viajando, coletando os bagulhos pro álbum, conhecendo outras pessoas e lançando trampo.

Eu sabia que, pra lançar um álbum de grime, eu tinha que ter mais conteúdo de grime, então eu fui fazendo tudo que aparecia — singles, várias paradas, e trabalhando com o álbum em paralelo. Quando foi 2021, logo no primeiro dia que falou que podia ter show, no final da pandemia, a gente já fez um bagulho.

Foi o meu primeiro show de grime, e todo mundo cantou a música — foi onde, pela primeira vez na vida, eu falei: "que dahora, eu tenho um público, eu tenho que entregar um bagulho pra essa rapaziada". E fui meio que criando esse conceito do BR140. Fui muito inspirado pelo 40º.40, que o SD9 tava fazendo na época também. Eu achava muito louco, e a gente também sempre foi parceiro.

Capa de BR140

Nesse processo, começou todo o bagulho que eu falei da gringa, das dubplates, que foi onde eu conheci os gringos que participaram. O único gringo que participou presencialmente foi o Jammz, que ele fez o beat e a gente gravou lá na casa do SonoTWS. O Sono era o meu vizinho, eu comecei a gravar na casa dele — ele que me ensinou como gravava um dubplate, foi ele que me mostrou como fazer.

Depois que eu já tava com uns trampos na rua, eu podia me concentrar em fazer o álbum. Só que na hora que eu fui ver todo mundo que eu tinha chamado, era muita gente, e aí veio a ideia de montar uns times, tá ligado? Montei as duplas que eu imaginei, como se fosse um show, mesmo, e eu chamasse duas pessoas que eu curto pra cantar comigo ali, duas pessoas que combinam. E foi tipo isso.

E aí eu fiz os CDs. Eu posso estar errado, mas eu acho que o primeiro CD físico de grime no Brasil é o BR140. E é o primeiro CD de grime do Brasil que tá lá em Londres, com os caras do International Grime, que foi um dos primeiros portais que compartilhou a minha música.

Quando eu fiz o álbum, e é o pensamento que eu tenho até hoje, foi feito com uma grandeza pra pavimentar a parada, mesmo. Não só por mim, mas pra fazer um bagulho da mesma forma que você olha lá fora os álbuns que são a "escola do grime", eu fiz o BR140 pensando nisso.

Até pelos nomes que tão lá, por todo mundo que eu selecionei, tem quase a cena inteira de grime da época ali, mano. Tem pessoas que nem se falam, mas tão no álbum, dispensaram o ego pra fazer parte desse projeto. Eu tô muito orgulhoso desse bagulho.

Contracapa de BR140

E como tem sido pra você ver essa nova onda de gente fazendo grime? Essas movimentações ajudaram a reacender uma chama dentro de você, em algum sentido?

Sim, mano. O grime é muito novo no Brasil — eu vivo nele, e consigo enxergar que é um movimento igual a qualquer outro no começo. É um movimento estável.

Ali em 2022, no ano do álbum, e em 2023, foi um momento que deu pra viver de grime, fazendo show. De 2024 pra cá, isso já diminuiu. Os shows continuaram acontecendo, mas a maioria deles foram a rapaziada da nova geração movimentando festas. Então, no quesito de contratantes, de festa, a cena passou por algumas instabilidades — e pouquíssimos trabalhos foram lançados.

O movimento passa por essa instabilidade. Então, quem já conseguiu alcançar um patamar no bagulho, tem que correr pra outras paradas também, pra não ficar esquecido. Tem que continuar o trampo — fazer feats, fazer outras paradas com artistas de outros gêneros, em outros gêneros, pra ter uma segurança a mais.

Mas agora, em 2026, eu tô enxergando que o bagulho vai voltar forte, mano. Tá igual a 2021, esse clima de grime, das paradas acontecendo, mesmo, de novo.

Feat recente do AFK em POUCO PRA ENTENDER, álbum do ano passado de JPEGO e WALTEREGOS

De 2024 pra cá, eu também pude acompanhar essa nova geração de São Paulo crescendo — os moleques do Terra à Vista, os RAGGACLUBBERZ. O Cassiel eu já conhecia, mas tipo o Sucateiro. Esses moleques viraram DJs, produtores monstros. Pessoas que tão movimentando a parada, e isso também me deixou muito feliz.

A colaboração com o Terra à Vista em julho de 2024 foi um momento histórico para a cena de São Paulo

Porque é isso — eu não sou um dos caras mais velhos do grime, mas eu sou um pouco velho porque comecei cedo, só que os caras já tavam movimentando. Eu não tenho o mesmo tempo de grime que o diniBoy, que o Antônio, que o próprio Febem, Fleezus, eu cheguei um pouco depois — mas ainda cheguei meio que nessa primeira geração, ao mesmo tempo que eu consegui ver essa nova geração surgir.

Um bagulho que eu enxergo hoje em dia, com essa experiência e toda essa parada de fazer grime, é esse bagulho de furar a bolha — de artistas de grime estarem presentes também em outros gêneros. Lá fora foi assim também. Porque você começa a trazer gente pro nosso mundo.

No começo, eu era aquele mano maluco, que vestia a camisa do bagulho e falava: "é grime, foda-se o resto do mundo, é isso, nóis é grime". Só que com o tempo, você vai vivendo, aprendendo, e você vê que várias coisas que você faz fora disso, somam no seu próprio movimento também.

E agrega, mano. Eu fiquei 4 anos lançando só grime, e era essa a minha brisa. Só que não precisa disso também, tá ligado? Porque eu fiz outras paradas, mantendo a mesma essência, a mesma estética do MC de grime, que eu sempre vou manter.

Isso só agregou — tanto pra mim quanto pras pessoas que escutaram um trampo meu de outro estilo, mas foram escutar os meus grimes e hoje entendem, consomem o bagulho. Eu tô falando isso de mim, mas aí você multiplica por 10, por 20, MC's e produtores que também fazem isso, e vai sempre somar pro movimento.

Isso é muito louco, e esse momento atual é dahora. Mesmo com certas instabilidades, o movimento continua crescendo no Brasil todo, e hoje em dia tem coletivo movimentando em vários lugares do Brasil. A gente precisa disso — de álbuns, de EP's de grime.

É só não parar. Todo mundo trabalhando, cada um do seu espaço, com o seu talento, com a sua força. Hoje em dia, em cada cantinho do Brasil já tem a rapaziada, e conforme o tempo passar, só vai multiplicar. Não tem como a gente ver e falar o jeito certo de fazer. É o tempo, mesmo. É constância, é trabalho, é projeto, é álbum de grime, é as pessoas fazerem as paradas.

Como qualquer outro gênero, como qualquer cultura de rua, tem espaço pra todo mundo, é só você chegar e fazer o seu. Eu torço pra que cada vez tenha mais pessoas fazendo. A gente faz a nossa parte, mas as pessoas também tem que vir e fazer pra fomentar a parada.

Porque nóis vai ser isso aí, mano. Até o final da vida, eu vou ser isso aí. O que eu torço é pra que cresça de tudo quanto é forma. Grime é grime e vambora.

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Sequência de rewinds cabulosa no set da Boiler Room x COMO VOCÊ


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