A herança de Jorge Ben para o rap contemporâneo
Mesmo separados por décadas, artistas da nova geração do rap e outros sons urbanos continuam reverenciando a obra do maior de nós
A história da música popular brasileira contemporânea é, em grande parte, uma conversa contínua com a obra de Jorge Ben. Mais do que um músico absurdo e compositor de sucessos cantados por gente que talvez nem o conheça, o "Babulina", apelido que Jorge ganhou junto de Tim Maia, estabeleceu uma estética que ajudou a definir o DNA do rap nacional. Recentemente, o novo EP do Leall, Você Precisa do Álibi, se tornou mais um exemplo dessa herança, através da faixa “MULHER BRASILEIRA”, um drill que mescla batidas de funk e amapiano ao sample da canção homônima de Jorge Ben
Essa relação de Jorge Ben com o rap não é nova e lembro da primeira vez que ouvi Sobrevivendo no Inferno (1997) dos Racionais MC’s, ainda bem pequeno, na casa de uns primos mais velhos, e não curti a primeira faixa, pelo beat lento que pouco parecia rap, uma letra que não rimava em forma de oração que eu não conhecia. Só anos depois entendi que aquela não era uma música dos Racionais, mas uma releitura genial com samples de Isaac Hayes e Portishead.
Essa sensação de não entender bem o som, a letra, o que Jorge Ben estava falando me atravessou por muito tempo, e pra ser sincero até hoje as vezes me pego ouvindo algum de seus discos e fico surpreso com algo novo. A real é que Jorge Ben realmente era um homem a frente do seu tempo, seja pelos elementos sonoros que colocou em suas músicas, criando um novo tipo de samba, popularmente conhecido como Samba-Rock ou Sambalanço, com seu violão percussivo e levada única, ou pelo vocabulário, construindo histórias que parecem sem sentido mas que, pela primeira vez na música popular brasileira, tinham a pessoa negra como protagonista. E aí que a coisa começa a ficar interessante.
No documentário francês Fragmentos Negros do Samba (1987), Gilberto Gil conversa com Jorge Ben e afirma que o amigo foi o primeiro a trazer palavras, ritmos e melodias de origem africana ao samba. Indo além, afirma que se não fosse Jorge Ben, não existiriam músicas populares que falassem sobre negritude no Brasil. Uma fala muito forte e até questionável, quando o próprio Gil já abordava a temática racial em suas músicas, mas Ben não só pautava o homem negro, mas o definia como personagem fundador da modernidade brasileira.

A centralidade do homem negro na narrativa de Jorge Ben, apontada por Gil, é um pilar para a estética e o conteúdo do rap nacional. Além da temática, a maneira como Jorge Ben fundiu ritmos com o samba, criou um precedente sonoro no Brasil para a própria técnica do sample e da colagem, essenciais ao hip-hop.
Anos depois, os aqui já citados Racionais MC’s, que desde o primeiro álbum, o Raio X do Brasil (1993), já tinham Jorge Ben entre as bases sonoras e sempre deixaram claro como foram influenciados pelo seu fazer artístico, afinal, queriam falar com seus pares, majoritariamente pessoas negras. Não é à toa que a primeira faixa do disco, Fim de Semana no Parque, sampleia 2 faixas: Frases e Domingas.
Ainda nessa geração, o grupo Consciência Humana se apropria de Jesualda na faixa Amigo de Infância, do disco Entre a Adolescência e o Crime (1997) e o 509-E, de Dexter e Afro-X, lançou o clássico Oitavo Anjo, faixa produzida por Mano Brown que puxou Porque É Proibido Pisar Na Grama para o instrumental, e fez história.
Mas não quero transformar este texto puramente em uma lista de referências a Jorge Ben, e sim falar sobre a contribuição do artista na música popular brasileira contemporânea. Considero impressionante que anos depois de artistas seminais do gênero terem considerado Jorge Ben como um referência, a nova geração do rap ainda hoje o tenha como base para sua feitura artística.
A influência de Jorge Ben transcende o sample melódico. O violão rítmico estabeleceu um groove percussivo que inspira a cadência de flows e beats de rap, e o vocabulário vasto, que também brincava com sonoridades distintas e até então pouco exploradas no Brasil dialogam muito com a forma mais livre de fazer rap. Além disso, seu legado se espalhou para outros gêneros urbanos, como o funk carioca e o grime, onde seus loops são a matéria-prima para a criação de novas identidades sonoras.
Entres os nomes dessa nova geração, Big Bllakk talvez seja o principal deles, fazendo alusão a Jorge Ben não só no som como no visual. Tudo começa em Errejotacultdrill Vol 1 (2019), album que replica a capa de Bem Vinda Amizade (1981) e traz nas letras e sonoridades as vivências de um jovem negro nos suburbios do Rio de Janeiro. Apesar da distância geográfica — Jorge Ben nasceu em Madureira, Zona Norte, e Big Bllakk na Cidade de Deus, Zona Oeste, ambos provavelmente passaram por experiências similares, afastados por décadas.


Em Ícarus (2023), de BK’, na faixa composta em parceria com Major RD, ele cita: “Se não conhece nós, pergunta pra alguém / original Campo Grande com a essência do Jorge Ben”, algo que não é aleatório, já que hoje em dia os conceitos de popularidade e qualidade são facilmente confundidos e o Homem Patropi definitivamente conseguiu ser extremamente popular, em todos os sentidos do termo, sem abrir mão da qualidade de sua entrega.
Big Bllakk volta a olhar para Jorge Ben no álbum Errejotacultdrill Vol 2 (2023), no qual refaz a capa de Samba Esquema Novo (1963), que completava 60 anos. Os códigos estéticos são atualizados, e a camisa vermelha, agora é uma polo do Liverpool enquanto o sapato social é substituído por um VaporMax Plus. Além da capa, o artista da zona oeste sampleia a faixa Chove Chuva, mas ao invés de uma canção de amor, Bllakk convida Sant para refletirem juntos sobre as perdas de uma vida no crime.
Esses são apenas alguns exemplos que mostram a dimensão atemporal da obra de Jorge Ben e como ele consegue conversar no mesmo tom com artistas de um outro espectro da música brasileira, e que por sua vez contribuem para que toda uma nova geração de ouvintes conheçam sua obra.


É emocionante ver que a juventude está atenta a um artista que foi muito popular, mesmo trabalhando na margem do que a indústria da época exigia. Hoje, muitos nomes são lidos como os favoritos dos nossos artistas favoritos, mas se tratando de Brasil, não é exagero dizer que Jorge Ben foi o primeiro dessa leva. Mesmo seus contemporâneos da Tropicália o tinham como referência, grupo do qual ele não fez parte diretamente, mas muito contribuiu.
A atemporalidade e a natureza vanguardista de sua obra o tornam, até hoje, um pilar fundamental para a identidade sonora e narrativa do rap brasileiro, especialmente na afirmação da negritude em primeiro plano.