A galera nos shows nichados têm ficado mais velha?
Como os gêneros mais nichados tem um público mais velho mas consegue ainda lotar shows e fazer sua cena se autoconsumir
No mundo pós-pandemia de Covid 19, 2025 se mostrou um dos anos mais ativos, onde a gente esteve mais disposto a sair de casa para fazer um milhão de coisas e produtoras, por sua vez, voltaram a trazer uma cacetada de atrações pra cá. Na música, a gente viu show e sets e de tudo quando é gente, mas principalmente, um revival de ícones dos anos 90 e 2000 que, ou tinham suas carreiras num banho-maria, ou tinha até mesmo parado de tocar.
O combo de nostalgia, desejo de viver tudo o que se tem pra fazer e possibilidade real de ver sua banda ou artista favorito, tem trazido para grandes cidades do Brasil uma avalanche de bandas que foram famosas no passado e algumas até que já tinham anunciado seu fim, mas voltaram para lotar estádios.
Nesse cenário, ir a shows nichados, de bandas antigas, é encontrar uma galera que envelheceu junto da banda ou do artista.

A música é cíclica e os gêneros musicais que mais atingem os jovens, em sua maioria, são aqueles que estão em alta. Ir a um show de um gênero que está bombando no mainstream hoje, é encontrar um público de idade diversa, mas na sua maioria, jovem. Um show de trap hoje ou um show de hardcore de bandas novas atraem uma galera mais nova e doida para consumir artistas que são seus reflexos (inclusive de idade).
Mas quando você vai para o nicho, para subgêneros e ritmos em que você ou precisou ter vivido aquilo com intensidade, ou precisa fazer uma pesquisa além da superfície, essa faixa etária aumenta, não só no palco, mas na platéia também.
Fato é que a “juventude” mudou de espectro. Em artigo publicado pela BBC Brasil em 2025, a adolescência hoje vai até os 32 anos. Para a ONU, jovem é quem tem dos 15 aos 24 anos. Para o Senado Federal Brasileiro, essa idade é até os 29. Mas convenhamos que os 30+ de hoje em dia não são mais os mesmo que eram na idade dos nossos pais. Se antes, nessa idade já se tinha casa e carros quitados, além de um casal de filhos, pelo menos, hoje a pessoa entra no “trintou” malemá procurando um trampo que pague um pouco mais para viver um aluguel confortável. Tudo bem, não é regra e não é com todo mundo, mas fato é que a realidade financeira do adulto hoje é diferente e menos versátil do que antes dos anos 2000.
Se formar aos 20, ter filhos aos 25 e uma casa aos 30? Não dá mais pra afirmar que esse é o sonho médio do adulto, principalmente aquele que se relaciona com artes e com a cultura de rua. Não só pelas questões financeiras que todas essas coisas necessitam, mas pelo desejo mesmo - existe até um termo pra isso, super discutível, mas o da “geração NoMo” que afirma que 37% das mulheres brasileiras atualmente não desejam ter filhos, um número expressivo.
Essas discussões extrapolam nosso tema aqui do artigo, dos shows somente, entra nas casas, igrejas e nas rodas de conversa Brasil afora. Apesar de um número crescente do conservadorismo abertamente falado nos últimos anos - e com isso um apelo maior à família tradicional - isso não necessariamente parece desacelerar os inúmeros motivos para a galera não querer ter filhos ou uma vida que os pais tiveram de posses e responsabilidades.
Mas voltemos à música.
Hoje o adulto começa a ter uma liberdade financeira para hobbies e passeios mais tarde. A gente começa a respirar além do pagar contas mesmo lá pros 30+ e só aí a gente consegue alimentar os sonhos do nosso eu-adolescente e jovem adulto. As empresas já se ligaram nisso e não é à toa que grandes marcas relançam seus sucessos do passado, mas dessa vez numa versão atualizada para o uso adulto, mais voltada para o status do que para a performance. Uma Total 90, da Nike, chuteira que era desejo para adolescentes nos anos 2000, chega em 2025 com status de fashion, custando uma nota e brincando com esse consumo possível tardio que o jovem adulto acabou de ter - tanto que lançaram para o dia a dia e não para as quadras.
Isso também se reflete nos shows, uma vez que o adulto de hoje tem a possibilidade de ir ver sua banda favorita de volta aos palcos. Apesar de ser arte, a música também é um business e também se espelha nesse molde capitalista - e que dá muito certo - da nostalgia enquanto produto. Bandas que nem tinham mais carreira acabam voltando e lotando estádios para emos-adultos ou para metaleiros-já-pais-de-família.


FalloutBoy no I Wanna Be Tour e emos mais velhos na platéia (fotos: @iwannabetour)
É uma matemática que tem dado muito certo e tem trazido bandas e artistas dos mais diversos para shows no Brasil. Estilos que nasceram nos anos 80 e 90, como o R&B, o grunge, o stoner rock, death metal, e outros que foram fortes nos anos 2000, como new metal, emo e o indie, são hoje um palco fértil para que bandas que fizeram sucesso no auge dos seus gêneros voltem a ganhar dinheiro com turnês. Em 2025, o Oasis lotou 2 dias de estádio do Morumbi, enquanto o Refused também esgotou seus ingressos passando pelo Brasil - detalhe: essas duas bandas antes tinham acabado e voltaram a tocar recentemente.
Isso também vale para as inúmeras turnês de despedidas de artistas de diferentes gêneros. Tudo bem, vale também mensurar que os artistas que gostamos estão ficando mais velhos e talvez precisem mesmo de um tempo distante dos palcos para descansarem ou até mesmo focarem em algum outro projeto novo para suas bandas. Mas fato é que esse shows lotam de pessoas mais velhas que foram (e são) fãs desses artistas em algum momento e tiveram suas vidas marcadas por suas músicas.
O público nichado de shows hoje consome não só a música, mas vai a shows, compra merch, investe em discos e posta seu amor pelo artista nas redes sociais. Na contramão de apostar em streamings que pagam muito pouco ou entender a lógica das redes sociais com dancinhas do TikTok e afins, esses artistas então apostam em shows, turnês e acabam tendo dias de casas lotadas para verem sua passagem pela cidade.
Não necessariamente essas bandas e artistas que foram hypados em outra geração buscam contato com a nova geração. Isso acontece, é claro, e você vê, por exemplo, a Evinha sendo exaltada por uma nova geração com sua música relida pelo BK ou, por exemplo, o Sanguisugabogg chamando o Defeated Sanity e o Cattle Decapitation para feats em seu último álbum. Mas isso não quer dizer que essas participações tragam efetivamente inúmeros fãs mais jovens nos shows desses artistas - abrem mais possibilidades, com certeza, mas acabam atingindo uma galera mais velha, mais uma vez.
De maneira geral, os artistas que foram mencionados nesse texto e os que tem vindo fazer shows não estão lançando coisas novas ou fazendo feats com um artista novo. O Corrosion of Conformity fez show tocando sucessos de álbuns lançados em 1994 e 1996. O Cro Mags tocou músicas de álbuns de 1986 e 1989. Os shows da Marisa Monte tem seu ápice em músicas lançadas em álbuns de 2000 e 2006. E dá muito certo.

Se o artista e o público estão mais velhos, está tudo bem. Tem espaço pra todo mundo bangear e soltar a voz, e a gente tem visto cada vez mais isso em shows no Brasil. Foda é o Dorflex do dia seguinte que tem que constar depois de ficar 2 horas em pé quando se tem 30+.