A desobediência literária da FLIPEI
A oitava edição da feira acontece de 5 a 9 de agosto em São Paulo, mas já conta com edições no interior do Estado antes dessa data
A Feira Literária Pirata de Editoras Independentes (FLIPEI) foi criada em 2018 e surge como uma oposição aos monopólios, um antagonismo político à FLIP. Desde então, a feira atua como um espaço de resistência e conversa, focado na democratização da leitura, reunindo editoras independentes, autores, movimentos sociais e trabalhadores da cultura.
Com foco no Sul Global e programação gratuita (fato importante e intrinsecamente ligado à cultura popular da FLIPEI), o foco na leitura marginal e o espaço à vozes que são, por muitas vezes, silenciadas e diminuídas, a FLIPEI é construída de forma colaborativa: “prezamos pela autonomia e auto responsabilidade de cada tripulante da equipe, garantindo uma programação diversa, com os temas mais relevantes para pensarmos criticamente e com convidados nacionais e internacionais de renome”, comentam.
Em 2026, a Feira acontece em mais de um local em São Paulo, garantindo a diversidade não só de expositores, mas de pessoas adentrando os espaços. Os locais serão no Galpão Elza Soares (Alameda Eduardo Prado, 474), Café Colombiano (Alameda Eduardo Prado, 493) e Sol Y Sombra (Rua Treze de Maio, 180), dos dias 5 a 9 de agosto. Além disso, a FLIPEI acontece antes também: quatro ações formativas que precedem o evento em São Paulo, nas cidades de Carapicuíba (06/06), São Carlos (27/06) e Mairiporã (18/07) – todas elas gratuitas.
Para saber mais sobre a iniciativa, a gente bateu um papo com a equipe da FLIPEI que você lê na íntegra abaixo.
A FLIPEI nasceu pequena e hoje ocupa um espaço grande no circuito de feiras de publicações independentes. Como vocês enxergam esse crescimento, sucesso e o interesse do público, gradativo ao passar das edições?
A FLIPEI nasceu em 2018, em Paraty, como um ato de desobediência literária. Surgiu para fazer antagonismo político à FLIP, que não abria espaço para o pensamento crítico, para a não-ficção e para as editoras independentes, e que há muito se deixou capturar pelos monopólios editoriais e pelo grande capital. Nossa primeira edição aconteceu a bordo de um barco pirata no rio Perequê-açu — um símbolo de liberdade e insubordinação. Ali, afirmamos que a literatura precisava voltar a ser encontro, e não espetáculo.




A primeira edição, em 2018, já tinha conversa e o debate em seu currículo (fotos: FLIPEI/AutonomiaLiterária)
Sem dúvida, a forma como a FLIPEI é construída, de forma colaborativa e, ao mesmo tempo, prezando pela autonomia e auto responsabilidade de cada tripulante da equipe, garante uma programação diversa, com os temas mais relevantes para pensarmos criticamente e com convidados nacionais e internacionais de renome.
Existe um espaço além das bancas e dos livros, um espaço de debates, música, arte e encontros. Como vocês enxergam esse lugar que a FLIPEI ocupa de ir além do impresso? Como vocês incluem essa necessidade de conversar com outras formas de debate?
Sim! E é por isso que dizemos que o F da FLIPEI é de Festa - uma festa que celebra a circulação de ideias emancipatórias como prática política insurgente em torno do livro.
Dançar, ler e pensar juntos é o modo como enfrentamos o desânimo e inventamos futuro; é nossa forma de luta contra as forças que nos querem tristes, cansados e isolados.

A FLIPEI nasceu em 2018, com outras 13 editoras independentes. Como está hoje? Quantas são e quais os critérios para editoras e projetos de cultura estarem presentes na feira?
A 7º edição da FLIPEI, ano passado, foi a maior já realizada, com 180 expositores entre editoras, livrarias, sebos e autoras(es) independentes, além de 28 debates nacionais e internacionais, shows de grande porte da música brasileira, Zona Piratinhas e recursos de acessibilidade para a galera com deficiência. Batemos um público recorde de mais de 50 mil visitantes e o evento superou todas as expectativas de público, vendas e engajamento digital. Para se ter uma ideia, a Editora Autonomia Literária reportou crescimento de 153% nas vendas comparado à edição passada; enquanto a Editora Sob Influência registrou a melhor venda de toda sua participação na FLIPEI desde 2020, dobrando os números em relação ao ano anterior.
A pertinência da FLIPEI está em articular, de maneira inédita, a bibliodiversidade com a democratização do acesso e a valorização de vozes minorizadas. Em 2025, 59,9% das editoras participantes se identificaram com grupos historicamente excluídos, como mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIAP+, periféricas e quilombolas. Ao garantir espaço gratuito para todas as editoras e ampliar a circulação de seus catálogos, a FLIPEI atua como correção histórica e como afirmação do direito à leitura e à produção cultural no Brasil. A representatividade nacional também foi marcante: mais de 180 editoras independentes estiveram presentes, vindas de todas as regiões do país — de estados distantes como Acre, Pará e Rondônia até vizinhos como Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Ao todo, circularam cerca de R$ 500 mil em vendas, com cada participante movimentando em média R$ 2.654. Para além dos números, a imprensa destacou o recorte social e racial dessa presença. A Agência de Notícias das Favelas (06/08/2025), por exemplo, sublinhou que a FLIPEI reafirmou “a importância da literatura negra e africana para crianças e adultos”, demonstrando o quanto o festival se tornou referência em pluralidade e inclusão, dando visibilidade a editoras, catálogos e autores que historicamente foram invisibilizados. Em linhas gerais, é o alinhamento com o pensamento crítico e com o modo de fazer independente.
A convocatória da FLIPEI acontece até o dia 01/06 através desse link.
Os debates vão além do campo literário na FLIPEI. Como vocês enxergam essa importância de falar de outros assuntos, além dos livros, no espaço que vocês ocupam? É um sentimento de um lugar também social e político?
Entre alguns motivos, a FLIPEI nasceu de uma necessidade do público e das editoras na FLIP que viam os autores homenageados serem “higienizados” e despolitizados embora fossem militantes históricos - como é o caso do Euclides da Cunha, Lima Barreto, Pagu e etc. Por isso, o evento acabou tendo uma carga política importante e, como resultado desse processo, cresceu a ponto de roubar alguns holofotes da FLIP já na sua segunda edição, em 2019, quando trouxe o Glen Greenwald no ápice do desmonte da farsa da Lava Jato, gerando aquela foto histórica de drone com mais de 4 mil pessoas assistindo à palestra em cima do barquinho no Rio Perequê-açu.
Nas outras edições a dose se repetiu e chegou em um novo patamar na edição de 2023 quando levamos Silvia Federici e KL Jay. Virando a principal atração do evento e atraindo ataques da extrema direita em conluio com a burguesia editorial, incomodada com o nosso sucesso e politização dos debates.
Em 2024, na primeira edição de São Paulo, João Pedro Stedile enfatizou que a FLIPEI estava tomando um lugar muito caro para a esquerda brasileira, tendo em vista que o Fórum Social Mundial já não tem a mesma relevância social e importância política que teve no passado.




Os espaços para debates são a alma da cultura de conversa da FLIPEI (fotos: Taís Noaqui)
Vocês enxergam esses debates acontecendo em um campo mais mainstream? Ou vocês acham que eles funcionam justamente por serem feitos em um local independente?
Quando a gente pensa na mídia hegemônica, sabemos que, ainda que tenhamos jornalistas antifascistas e comprometidos com pautas sociais, os verdadeiros donos dos veículos são também donos do capital e, portanto, estarão alinhados aos interesses da elite. Nesse sentido, sabemos que mesmo que a FLIPEI tenha alguma projeção nas mídias tradicionais, os debates fundamentais não serão aprofundados nesses canais. Mas a ideia de furar a bolha faz parte, sim, dos nossos horizontes. Caso contrário, vamos restringir as pautas somente entre aqueles que já pensam parecido.
Em 2026, uma das formas de captação de incentivos da FLIPEI é através do Abrace uma Causa, que com a aprovação na Rouanet, a plataforma se fortaleceu na captação de IRPF. Nessa modalidade, o público passa de espectador para se tornar um financiador direto do festival, sem gastar a mais por isso – uma forma legal e segura de ajudar e incentivar projetos sociais e culturais, em que você ou sua empresa pode destinar parte do seu imposto, estimulando a proteção às crianças, adolescentes e idosos, as atividades culturais, audiovisuais e desportivas.
Para saber mais e apoiar a FLIPEI através do Abrace uma Causa, clique aqui.