5 fotos, 5 histórias: Rafa Jacinto

Duas décadas de olhar condensadas em cinco histórias

5 fotos, 5 histórias: Rafa Jacinto
Autoretrato de Rafa Jacinto, em madrugada típica cobrindo o plantão noturno no Notícias Populares nos anos 90

Em 5 fotos, 5 histórias, nova série da ISMO, convidamos fotógrafos a revisitar seus próprios arquivos e olhar para trás sem nostalgia fácil. A proposta é simples e direta: selecionar cinco imagens e contar as histórias que vivem por trás delas. Não apenas o que está enquadrado, mas o contexto, o momento, as escolhas, os acasos e as tensões que atravessam cada clique. Um exercício de memória, autoria e leitura crítica do próprio percurso, onde a fotografia deixa de ser apenas imagem final e passa a existir como processo, vivência e narrativa.

Para inaugurar a série, convidamos Rafa Jacinto, fotógrafo e filmmaker paulistano radicado em Milão desde 2018. Com cerca de duas décadas de trajetória, Rafa começou no fotojornalismo, passando por jornais e revistas, antes de cofundar o coletivo Cia de Foto no início dos anos 2000, experiência que marcou profundamente sua formação artística. Ao longo do tempo, transitou com naturalidade entre a fotografia autoral, a publicidade e o cinema, levando para todos esses campos um olhar documental afiado, moldado pelo skate, pela rua e pela observação atenta do cotidiano. Entre imagens fixas e em movimento, seu trabalho constrói narrativas precisas, diretas e honestas, sempre ancoradas na experiência real de quem está por trás da câmera.

A partir daqui, Rafa revisita o próprio arquivo e conta, em primeira pessoa, as histórias por trás de cada imagem.


Comecei a fotografar profissionalmente no fim de 1998, início de 1999. Antes disso, eu já fotografava, mas não enxergava a atividade como uma possível profissão. Se não me engano nas datas, foi no final de 1998 que fui chamado para uma conversa no extinto jornal Notícias Populares. Na época, eu estava terminando a faculdade e mantinha uma marca de skate com alguns amigos.

Quando cheguei ao jornal, me ofereceram um estágio de um mês. Acabei ficando pouco mais de um ano. Para esta seleção de imagens pra ISMO, decidi começar pelo começo.

A primeira foto é de uma pessoa morta, assassinada. Era uma pauta comum no Notícias Populares. O turno começava à meia-noite e terminava às seis da manhã, e eu fazia esse horário de vez em quando. O diretor do jornal, Fernando Costa Neto, me incentivou a assumir essas madrugadas por conta de uma exposição que ele organizava no MIS, sobre a violência no estado de São Paulo.

Lembro bem desse dia. Depois de uma madrugada inteira sem nenhuma foto “boa”, estávamos voltando para a redação quando o celular do repórter tocou. Haviam acabado de nos informar sobre um crime em um edifício da rua Paim, que na época era conhecido como “treme-treme”. Quando chegamos, já estava amanhecendo. A polícia estava no local e a cena do crime havia sido isolada. Subi as escadas correndo, meio escondido, e consegui entrar no apartamento.

Vi o corpo no chão, um prato com cocaína ao lado, móveis virados e muita bagunça. Fiz algumas fotos em pé, registrando a cena. Quando reparei na unha longa e no anel na mão do morto, decidi trocar a lente. Coloquei uma 50mm macro e me deitei ao lado do corpo, apoiando a câmera no chão para conseguir uma exposição mais longa sem tremer a imagem. Fiz dois ou três cliques assim antes de ser expulso do local aos gritos pela polícia.

Nessas madrugadas, eu sempre pensava em encontrar um ponto de vista diferente, alguma poesia possível naquele desastre, ou ao menos permitir que a imagem fosse interpretada de forma mais subjetiva. Essa foto acabou sendo publicada em outros veículos nacionais e internacionais e, mais tarde, virou capa de um romance da autora Patrícia Melo.

Em ordem cronológica, decidi incluir uma foto de skate nessa seleção. Afinal, tudo para mim começou a partir do skate. O skatista na imagem é Rogério Manosa.

Gosto da história por trás dessa foto porque o Tiago Moraes, que na época trabalhava no marketing da Crail e tinha uma marca chamada Recap logo depois da Agacê, que criamos juntos, tinha acabado de organizar um campeonato mundial de skate e as rampas ainda estavam com ele. Foi quando ele me ligou dizendo que queria levar essas rampas para um galpão abandonado que havia encontrado no interior de São Paulo.

A ideia era produzir um ensaio fotográfico com skatistas da Crail, Agacê e Recap para publicação em uma revista de skate. Essa história concentra tudo o que sempre me fascinou: o skate, a fotografia, o faça-você-mesmo, a reapropriação e a ressignificação de espaços.

Outra fase muito importante da minha carreira foi o período da revista +SOMA. Era uma publicação feita por amigos, na qual eu colaborava como fotógrafo. Por ser uma revista independente e por eu fazer parte do conselho editorial, tínhamos total liberdade para experimentar. Não ganhávamos dinheiro algum, mas nos divertíamos muito.

Fotografei muita gente interessante e experimentei bastante com a linguagem fotográfica. A imagem que apresento aqui é um retrato de Carlos Dias, caracterizado como Albertinho dos Reis, um de seus projetos musicais. Artista e personagem fundamental da cena independente paulistana e brasileira, Carlinhos apareceu diversas vezes na revista, e eu o fotografei em muitas ocasiões.

Para mim, um retrato é sempre o resultado de uma troca entre fotógrafo e fotografado. Quase nunca chego para retratar alguém com uma ideia pré-concebida.

Durante dez anos, entre 2004 e 2014, fiz parte de um coletivo fotográfico chamado Cia de Foto. Foram anos intensos de projetos e trabalho verdadeiramente coletivo. Produzimos muita coisa relevante, participamos de exposições e festivais em diversos países e realizamos trabalhos importantes juntos.

Um dos projetos do coletivo se chamava Caixa de Sapato, no qual fotografávamos nossas próprias vidas e publicávamos as imagens quase sempre de forma conjunta. O projeto também se desdobrou em um vídeo, exibido em diversos festivais, e hoje integra coleções que vão de museus a acervos particulares.

Para esta seleção, escolhi uma foto que fiz do meu primeiro filho e da nossa cachorra. Foi um período decisivo tanto na minha vida profissional quanto pessoal.

Por fim, selecionei um retrato que fiz recentemente de Maurizio Cattelan, para uma revista inglesa. Cattelan é, talvez, um dos maiores artistas vivos da atualidade. Tive a oportunidade de passar uma tarde com ele em Bérgamo, na Itália, durante a montagem de uma exposição espalhada por diferentes pontos da cidade.

Depois de algumas horas, entre retratos e registros da mostra, ele decidiu subir e se deitar sobre o altar de uma igreja onde havia uma obra sua. As pessoas que estavam conosco ficaram visivelmente desconfortáveis, por entenderem o gesto como um desrespeito à religião católica. Ele respondeu dizendo que aquele espaço já não funcionava mais como igreja e que, portanto, não havia problema.

Peguei rapidamente um flash que estava na bolsa e fiz dois ou três cliques rápidos. O diretor do museu responsável pela exposição me pediu para não publicar a imagem. De fato, quando a matéria saiu na edição da revista do jornal The Guardian, essa foto não foi incluída. Ainda assim, considero uma das imagens mais interessantes daquele dia e decidi publicá-la aqui.


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