5 fotos, 5 histórias: Alexandre Urch
O tempo, a rua e o instante exato em que tudo se encaixa
Na cidade que nunca para, o gesto de olhar com atenção já é, por si só, um desvio. Alexandre Urch construiu sua fotografia justamente nesse intervalo entre o fluxo e a pausa, onde quase tudo parece ordinário até que alguém decida ver de verdade. Sua câmera não busca o extraordinário, mas tensiona o que está dado, reorganizando o cotidiano até que ele revele outras camadas.
Ao longo de mais de duas décadas de trajetória, Urch desenvolveu um olhar que nasce do confronto direto com a rua. Seja atravessando uma São Paulo vazia no auge da pandemia, observando a ritualística silenciosa de um campo de várzea ao amanhecer ou insistindo por horas até que uma imagem imaginada finalmente aconteça, seu trabalho é menos sobre o clique e mais sobre o tempo que o antecede.
Neste novo capítulo da série 5 fotos, 5 histórias, esse processo aparece de forma ainda mais nítida. As imagens escolhidas não são apenas registros, mas pontos de condensação de experiências: o medo e a estranha calma de um mundo em suspensão, a transformação do ordinário, o controle quase coreográfico do acaso, a busca por ângulos improváveis e, sobretudo, a consciência de que uma fotografia pode mudar tudo, mesmo quando o próprio fotógrafo ainda nem se deu conta disso.
A partir daqui, Alexandre nos conta, em primeira pessoa, as histórias por trás de cada imagem selecionada por ele especialmente para essa série da ISMO.

O ano era 2020, mais precisamente no mês de abril. O Brasil e o mundo vivia, desde março, a pandemia do coronavírus SARS-CoV-2, popularmente conhecido como o vírus da COVID19. Lock down decretado, tudo fechado e ruas vazias, somente quem realmente precisava se arriscava a caminhar por aí.
Após quase um mês preso dentro de casa, meu espírito fotodocumentarista falou mais alto e me fez fazer esporadicamente caminhadas solitárias, munido de máscara e álcool em gel, saindo da minha casa nas proximidades da Praça da Árvore até o Centro em busca de imagens.
Num desses dias me deparei com esse grafite do Henrique “EDMX” Montanari. A arte me fez congelar diante dela, uma criança vestida com uma camisola de pé ao lado de um ursinho de pelúcia. Até aí tudo normal se os dois personagens não estivessem com uma máscara com o escrito em vermelho “No Panic” pairando sobre eles.
No mesmo instante levei minha câmera ao olho e ao me preparar para clicar pude ver uma pessoa se aproximando do desenho e apertei o botão. A mistura de excitação por ter feito a foto e medo de estar me expondo na rua ao vírus não me fez perceber que o cabelo da pessoa na foto era quase do mesmo tom de vermelho da escrita no muro.
Depois de chegar em casa e fazer todos os processos de higienização ao voltar da rua, vi que tinha feito uma foto que para mim representa muito o que estávamos passando naquele momento. Uma calma, representada pela pessoa andando na rua, e a frase “No Panic”, lembrando que precisamos ter cuidado e não entrar em pânico para seguirmos sobrevivendo.

Não sou fã de futebol, nunca fui, mas essa minha indiferença ao esporte número um entre 10 de 10 brasileiros me faz ter a curiosidade de fotografá-lo, mas não aquele jogado diante de grandes públicos e transmitido em horário nobre, mas o que acontece nas primeiras horas da manhã aos finais de semana em campos que mais parecem um terreno baldio do que um campo de futebol.
Essa foto foi feita no campo da comunidade da Xurupita, próximo ao Pico do Jaraguá em São Paulo. Eu gostava de chegar cedo, acompanhar a resenha e os preparativos para os jogos e um desses preparativos era marcar as linhas do campo com cal. Muitas das vezes, quem fazia as linhas no campo estaria jogando logo em seguida em algum time, como é o caso dessa foto.
Hoje a beleza desse terrão não existe mais, ficou na lembrança. A terra vermelha e rústica foi substituída por um gramado sintético e o cal que voava com o vento virou uma linha pintada na grama de plástico.

Uma imagem nasce primeiro na minha cabeça e essa era uma que sempre quis fazer. Esse prédio fica na Praça do Patriarca em São Paulo e por lá sempre ficam umas pombas que carinhosamente chamo de “gaivotas urbanas”.
Já tinha feito diversas fotos desse mesmo ângulo somente do prédio, mas sempre sentia que faltava alguma coisa até que um dia eu vi umas pombas voando, olhei para cima e as vi cruzando o céu e naquele instante descobri o que faltava na minha foto.
Mas não foi uma tarefa fácil, precisei da ajuda de dois amigos e uns 2 quilos de milho. Posicionei a câmera no local que queria e começamos a observar o comportamento das pombas. Entendido como elas “funcionavam” começamos a espantar algumas com milho para longe da cena até sobrarem apenas algumas próximas da câmera e começamos a bater os pés para ver como elas se comportam ao alçar voo, qual direção seguiriam.
Após cerca de duas horas de milho e bater pé uma das pombas começou a voar na direção que eu queria, me deitei no chão e me preparei para a foto, dando instruções para meus amigos de quando baterem o pé. Muitos erros depois consegui essa foto, um clique apenas, muitas horas e muitas risadas, afinal era um dia de semana, as pessoas passavam e riam ou faziam um olhar de julgamento sobre tal cena (risos).

Ao contrário do futebol, sou fã de basquete e nesse dia estava cobrindo uma edição do Desafio dos Parques que acontecia no Parque do Ibirapuera em São Paulo.
Durante meus anos de fotografia, uma característica que gosto de ter nas imagens que faço é de estar sempre o mais próximo possível do assunto que estou fotografando. Em imagens de esportes sempre são utilizadas teleobjetiva com uma distância focal enorme, 300mm, 400mm até 600mm para registar a ação. Eu aqui estava com uma grande angular, debaixo da tabela para fazer as fotos dessa competição.
Já tinha feito diversas fotos desse ângulo inusitado, mas nunca tinha conseguido registrar uma onde o jogador “perdeu a cabeça” na enterrada e a bola parecesse a cabeça perdida, flutuando no ar.

A história dessa foto não é exatamente sobre o que foi registrado, mas o que essa foto me proporcionou depois de a ter feito. A foto foi num dia que eu estava andando de bicicleta e resolvi cortar caminho pelo Parque do Ibirapuera, ao passar na frente do Auditório Ibirapuera avistei esse pintor pintando o chão, sempre ando com minha câmera na mochila, a beleza daquele vermelho da fachada recém pintada pedia uma foto e o chão cinza foi a cena perfeita para uma foto.
Feita a foto ela ficou em meu HD por meses, ela ficou “boa”, mas no momento não havia gostado dela, até hoje confesso que ela não entra na minha lista das minhas “melhores” fotos, mas essa foi a foto que abriu as portas para que meu trabalho fosse representado por uma galeria de arte, ganhasse concursos, expusesse em diversos lugares e até uma cópia dela foi adquirida pelo Ronaldo "Fenômeno".
Essa imagem me mostra que para conseguirmos algo temos que manter a simplicidade, nem sempre precisamos do equipamento mais caro e estar a milhares de quilômetros de casa para termos uma foto que fará a diferença na sua carreira. Muitas vezes essa imagem está a algumas centenas de metros da sua casa e foi feita com um equipamento simples, o importante é estar atento às oportunidades que aparecem na sua frente e fotografá-las…mesmo não gostando delas.