2026 tem tudo para ser o ano do grime no Brasil

Um olhar para a história do gênero em nosso país e para o que está por vir

2026 tem tudo para ser o ano do grime no Brasil
CR1AGRIME #12 (foto: teodoro buendia)

A ISMO surgiu no final de março do ano passado e o meu primeiro texto aqui, no comecinho de abril, foi uma lista de 8 álbuns e EP's brasileiros de grime. Nesse texto, eu pude relembrar um pouco da história do gênero e falar um pouco sobre alguns projetos que eu considerei essenciais e que muitas vezes passavam batido quando se falava de grime — modéstia à parte, a lista é boa e recomendo a leitura para quem se interessa pelo gênero.

De lá para cá, rolaram várias entrevistas e alguns outros textos escritos por mim, somando ao todo 34 matérias — a grande maioria delas sobre grime. Foi um ano em que os artistas do gênero se movimentaram muito e, na minha opinião, o ano em que começou o desenvolvimento do que a gente vai poder chamar de cena de grime brasileira.

Como eu conto na minha primeira matéria aqui na ISMO, que já mencionei ali em cima, o grime esteve no Brasil desde sempre. Ao mesmo tempo em que Dizzee Rascal terminava de produzir o seu primeiro disco — "Boy in da Corner", tido como muitos como o primeiro álbum de grime da história — MV Bill se inspirava em algumas de suas demos que chegaram até ele para lançar grime no Brasil antes mesmo de Dizzee.

Esse não é o único lançamento de um artista de rap da época que explorou a sonoridade do grime em suas produções. Z'África Brasil, 7.Velas.Crew, Funkero e XIS foram alguns desses nomes que compõem a primeira onda de grime nacional. O Poeira Grime é um canal no YouTube que organizou uma série desses lançamentos no seu perfil — se gosta de grime, entra lá e faça a sua pesquisa.

A segunda onda veio um pouco depois, liderada por VANDAL, que já havia aparecido no grime em 2007, mas mudou o jogo completamente em 2015. "TIPOLAZVEGAZH MIXTAPEH" foi o primeiro disco de grime feito no Brasil, e de maneiras ainda pouco compreensíveis, influenciou todas as gerações que seguiram — o disco acabou de comemorar 10 anos de aniversário, e mantém o seu lugar como a obra-prima do grime nacional.

Ainda nessa época, Febem puxou o bonde com seu EP "Elevador", que já trabalhava com vários elementos do grime — destaque também para "Pega a Visão", feat com VANDAL —, ao mesmo tempo em que o Well, que já fazia grime há alguns anos, lançou "Muito Bem Feito", um feat com o jovem Djonga.

Tudo mudou com o surgimento do Brasil Grime Show, no final de 2018, momento em que os DJ's começaram a ocupar os espaços e a palavra do grime começou a ser espalhada pelo país. A grande maioria das pessoas com quem eu conversei ao longo do ano passado teve o seu primeiro contato com o grime por meio do BGS, e o que foi desenvolvido ali foi crucial para que o grime exista hoje enquanto movimento.

ANTCONSTANTINO e diniBoy, ao lado de Yvie Oliveira, Rennan Guerra, Lucas Sá e Diego Padilha, foram responsáveis por espalhar o grime por todo o Brasil, e transformar o que existia apenas como uma exceção dentro do mundo do rap em um movimento que chegou em todos os cantos do país.

O BRIME! foi lançado, parecia que tudo ia dar certo, e daí chegou a pandemia. As festas tiveram que parar, e começa a se desenvolver o outro lado que compõe a cultura do grime no Brasil — a parte da internet. Como uma cultura de música eletrônica, o grime se constrói muito próximo da cultura da internet, dos games, dos nerds — e nesse período de quarentena, diversas conexões e relações que são essenciais para a nossa cena foram surgindo.

Esse momento, que vai do começo de 2020 até o meio de 2022, foi muito marcado por esse crescimento da figura dos produtores, que conversavam e compartilhavam as suas pesquisas pela Twitch, pelo Discord, pelo próprio Instagram e grupos privados, movimentando e criando como podiam.

O período que se segue, que conta com o retorno das festas e vários lançamentos importantes, não parece dar tão certo assim. A comunidade vai se fortalecendo, as relações vão se intensificando, mas parece que ninguém sabia direito o que estava acontecendo, não tinha muita informação circulando. Nesse período, de 2022 até 2024, muita gente estava tentando, mas não tinha tanto retorno.

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Afroh amassando no CR1AGRIME #12

Tudo mudou em 2025, quando uma série de jovens que acompanhou toda essa história acontecer começou a se movimentar fazendo grime de qualidade pelo país inteiro. Todos os aspectos essenciais da cultura já haviam sido absorvidos por essa nova onda de artistas, que começa a moldar e definir a cara da cena que começa a se construir.

No final de outubro do ano passado, trabalhei num mapeamento dos coletivos de grime no Brasil, feito junto com o ANTCONSTANTINO, em que pudemos documentar os projetos que estão movimentando o grime no país. Poderia falar muito sobre cada um deles, mas vale mais você acessar a matéria e conferir cada um dos trabalhos. Agora na reta final do ano, também soltei uma lista com os 10 sets de grime com MC's que marcaram 2025 para mim, e vários desses coletivos estão presentes lá.

E por que 2026 pode ser o ano do grime no Brasil?

Esse é um ano que vai começar com uma série de lançamentos e tem muita coisa quente sendo produzida — a cena está mais ativa do que nunca e cada vez conquistando mais espaços. O grime no Brasil está sendo documentado em vinis, projetos inéditos, novas colaborações e é isso que vai garantir que a nossa cultura não se perca.

Vivemos um momento nocivo para os artistas em relação aos streamings e a cena do grime é uma das que mais tem desenvolvido formas de sobreviver de maneira independente. Vendas de discografias, de mídias físicas e de merch acenam para uma certa autonomia da nossa cena em relação ao mercado.

Estamos cada vez mais conectados com as movimentações lá de fora, e grandes figuras da cena londrina estão em conexão profunda com os artistas daqui. O grime já é praticamente autossuficiente, mas depende da coletividade e da colaboração para se construir de maneira verdadeira. Parece que, cada vez mais, os aspectos essenciais que compõem o grime estão sendo assimilados por quem consome a cultura.

Eu não teria como elencar esses elementos essenciais aqui, mas tem uma coisa que o Pedro Malta me disse esses dias numa conversa e é algo que eu ouço desde que comecei a estudar grime, que resume bastante o que eu sinto: "a pesquisa do grime mais básica e essencial é você ouvir muita música e set; só de você estar ali ouvindo e prestando atenção, você já entende muita coisa."

Eu posso compartilhar a minha posição enquanto observador, mas cada um vai ter a sua própria pesquisa. Talvez bastante por causa daquele momento da pandemia, os ratos de internet puderam mergulhar a fundo no grime e construir esse lado do conhecimento que faz muito parte dessa cultura — e tem muito conteúdo profundo para pesquisa na internet.

A conversa do grime também está cada vez mais próxima da cultura soundsystem, e esse é outro ponto que eu acredito fazer toda a diferença para o momento atual — parece que os artistas que melhor assimilaram o grime aqui no Brasil foram aqueles que se conectaram com as origens da cultura jamaicana e que entendem a música eletrônica enquanto música preta e periférica, e isso ajuda a garantir que essa história não se perca.

As coisas parecem estar andando no caminho certo, e 2026 vai ser um ano movimentado para o grime nacional. Eu estarei por aqui fazendo a minha parte, ansioso pelo que surgirá de novo. Se você gosta do movimento, faça a sua pesquisa e ajude a construir da maneira que puder.

Viva o grime nacional.

Edição do Exportação de lançamento do EP "Nota 10" do MASKOTTE no Quina, na Barra Funda. Foto por mim

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