10 capas de discos nacionais que marcaram 2025
Uma seleção de imagens que moldaram a música brasileira nesse ano
Aqui na ISMO, ao longo desse ano, voltamos o olhar para os artistas que operam nos bastidores das capas de discos — imagens que, muitas vezes, antecedem a escuta e moldam a forma como nos relacionamos com a música. Publicamos uma série de textos que reverenciam mestres responsáveis por definir a identidade visual da música brasileira, como Rogério Duarte, Elifas Andreato, Cafi e Cesar Villela, ao mesmo tempo em que investigamos nomes fundamentais para a estética do punk e do indie rock global, como o californiano Raymond Pettibon e o designer inglês Vaughan Oliver. Também atravessamos a cena metal, onde artistas como Fernando JFL, Marcelo Vasco, Eliran Kantor e Marcelo DOD transformaram capas em territórios de mitologia, agressão e imaginário coletivo.
Em um tempo em que as plataformas de streaming comprimem essas imagens em miniaturas e as telas de celular reduzem sua potência material, as capas de disco seguem resistindo como objetos de pensamento. São superfícies onde música, mensagem, identidade e desejo se encontram.
Por isso, para a nossa série de listas de destaques do ano, decidi dedicar um espaço exclusivo às capas de discos nacionais que mais me chamaram atenção em 2025 — não como um ranking definitivo ou tentando categorizar em ordem de preferência, mas como um exercício de atenção. Um convite a desacelerar o olhar, recuperar contexto e reconhecer o trabalho de quem constrói visualmente a experiência sonora antes mesmo do primeiro play acontecer.
Um Mar Pra Cada Um — Luedji Luna

A capa trabalha o mar como metáfora de camadas internas e forças invisíveis. À primeira vista, tudo parece calmo e fluido, mas a imagem sugere profundidade, movimento e vida operando fora do campo imediato do olhar. Desenvolvida sob direção criativa de Lucas Teixeira, Pedro Moura e da própria Luedji, com criação e design de Guile Farias em cima de fotografia do professor, pesquisador e fotógrafo Alvaro Migotto, a imagem confia mais no que opera em silêncio do que no que se revela de imediato. Não é paisagem, é estado emocional.
Nenhuma Estrela — Terno Rei

Assinada pelo designer português Braulio Amado, que já assinou capas para Mac Miller e Andre 3000, a arte de Nenhuma Estrela parte de um gesto simples e preciso: um jogo de ligue os pontos que, ao ser concluído, forma uma estrela deliberadamente incompleta. O erro não é falha, é conceito. A imagem trabalha ausência, expectativa e frustração como linguagem visual, criando um paralelo direto com o clima emocional do disco. Um desenho que recusa fechamento e transforma o inacabado em estado permanente.
Caro Vapor II – Qual a Forma de Pagamento? – Don L

A imagem funciona como um campo de forças em disputa, construída literalmente à mão. A identidade visual do disco nasce de um processo de pesquisa, recortes e scanner conduzido pelo artista visual Filipi Filippo, resultando em um universo de colagens que abraça e tensiona a narrativa do álbum. Imagens e texturas sobrepostas, com leve imperfeição intensional. As camadas acumulam signos, ironias e ruídos que falam de valor, troca e desgaste. Assim como o disco, a capa exige leitura e tempo, assumindo que toda imagem, como toda forma de pagamento, carrega um custo simbólico.
Carranca — Urias

A capa de Carranca é uma pintura afro-surrealista em óleo sobre tela criada por Isaac Sales que trabalha no encontro entre o clássico e o contemporâneo, o ancestral e o moderno, utilizando cores simbólicas para falar de diáspora africana, ancestralidade e espiritualidade. A capa age como guardiã simbólica dos temas do disco: liberdade, identidade, revolta e raízes africanas. Mais do que uma representação visual da obra, a capa protege e confronta.
Vol. 1 — Jovens Ateus

Assinada por André Djanikian, a capa de Vol. 1 transforma um objeto banal em dispositivo narrativo. Um clássico bolo de padaria decorado com o nome da banda funciona como metáfora direta do próprio lançamento do disco: cada single corresponde a uma fatia, revelada aos poucos até que o álbum se complete. Em “Mágoas”, o que se vê é justamente a ausência, a fatia que falta. Sob a aparência quase ingênua, o bolo carrega atritos visuais ocultos: pentagramas, cruzes invertidas e símbolos espalhados pela decoração criam tensão entre celebração e profanação, festa e desconforto. O canivete fincado atravessando suas camadas é a cereja do bolo dessa festa pós-punk oitentista que é o disco.
Handycam — Sophia Chablau & Felipe Vaqueiro

A capa opera como metáfora direta do gesto de filmar. Ao abrir o encarte do disco e segurá-lo com as mãos, o objeto se transforma simbolicamente em uma câmera, colocando o ouvinte na posição de quem observa, registra e enquadra o mundo. A ideia parte da direção de arte de Helena Ramos, que convidou João Zocchio para ilustrar o trabalho. A imagem assume aparência simples e quase doméstica, reforçando a noção de registro íntimo e provisório. Assim como o disco, a capa transforma o ouvinte em participante ativo do olhar e da memória construída.
Melodia & Barulho — Maui

A capa de Melodia & Barulho nasce de uma decisão consciente de fabricar uma imagem tão contemporânea quanto o disco. Maui parte da recriação fotográfica de uma obra do artista Arte Deft, conectando o álbum a um movimento de arte feito por gente de favela e à lógica do crialismo: mistura, colagem, excesso de estímulos, referências cruzadas, o agora comprimido em camadas. A imagem carrega comunidade e memória política. A capa, com direção de Herbert Cardoso, fotografia de Wander Scheeffër, direção de arte de Veneno Tropical e mais um grande elenco, cristaliza a ambiguidade central do disco: alegria e dureza ocupando o mesmo espaço, o tempo inteiro. Não ilustra o som. Reproduz a sensação de viver dentro dessas antíteses.
Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer — BK'

Fotografada por Bruna Sussekind, a imagem parte de uma fabulação ancestral para construir sua força simbólica. O conceito evoca a lenda de uma besta ligada à origem e à ancestralidade da humanidade, remetendo à formação de bandos nômades em constante deslocamento. A escolha da hiena, figura de grande importância cultural na história etíope, conecta instinto, sobrevivência e resistência. Essa narrativa se materializa em uma estética que mistura o rústico, o visceral e o imperfeito com códigos urbanos. A capa não busca conforto, mas densidade histórica e tensão permanente.
Assaltos & Batidas — FBC

Assinada por Keko, tatuador e ilustrador mineiro, a capa se constrói a partir de uma estética de alto contraste inspirada nos quadrinhos noir, com ecos evidentes de Sin City, Watchmen e Maus. A imagem captura o instante da conspiração — aquele momento suspenso em que um plano está sendo arquitetado. As referências atravessam a composição de forma densa e entrelaçada, indo de Carlos Marighella a As Veias Abertas da América Latina, passando pela América Invertida de Joaquín Torres García e por homenagens a Miles Davis, Racionais MCs e Facção Central. O resultado é uma capa que opera como mapa simbólico de referências cruzadas, pensamento crítico, tensão urbana e memória de resistência.
Rock Doido — Gaby Amarantos

Com direção criativa da própria Gaby e de Bruno Pimentel, fotografia de Cris Vidal e arte de Lucas Mariano, a capa de Rock Doido transforma identidade em manifesto. Os olhos grandes funcionam como convite e desafio: olhar para a Amazônia, para o Pará e para uma cultura historicamente subestimada. A estética abraça o exagero e as cores das festas de aparelhagem de Belém, fundindo referências locais com imaginários globais, entre eles a icônica capa de Dangerous, de Michael Jackson, assumida pela própria Gaby como grande influência. O resultado não é citação nostálgica, mas afirmação de vanguarda. Elementos da cultura paraense aparecem como centro, não como margem. É um “fogo de ouro” que celebra pertencimento, invenção e a potência cultural do Norte como força criadora de tendências.
Menções Honrosas:
Quanto mais eu como mais fome eu sinto - Djonga
Novo Mundo — Arnaldo Antunes
Onda — Rael
Budang — Magia
Canções do Velho Mundo — Teago Oliveira
Avenida Paulista, da Consolação ao Paraíso






Vistas em conjunto, todas essas capas revelam um ano menos interessado em identidades fixas e mais atento a estados e tensões. Elas recusam a imagem como vitrine e operam como experiência, não como definição. O retrato promocional clássico cede espaço à narrativas elaboradas, texturas, tensão e silêncio, em reação a um mundo saturado de imagens rápidas e descartáveis.