10 capas de discos internacionais que marcaram 2025
Uma seleção de imagens que moldaram a música global nesse ano
Depois do exercício de olhar para dentro e selecionar 10 capas de discos nacionais que chamaram a atenção em 2025 pelo conceito, pela direção criativa e pela força do design ou da fotografia, fez sentido repetir o gesto olhando para fora.
Não como comparação direta, nem como hierarquia, mas como ampliação de repertório. Um convite a observar como artistas de diferentes contextos seguem tratando a capa como território de linguagem, identidade e discurso. Em um cenário global marcado pela aceleração da imagem e pelo consumo fragmentado, essas capas se destacam justamente por desacelerar, propor leitura e assumir decisões visuais claras.
Assim como no recorte nacional, o critério aqui não é apenas impacto estético. É intenção. Capas que dialogam com o som, com o tempo em que foram feitas e com a história de quem as assina. Imagens que não ilustram discos, mas ajudam a construí-los.
Debí Tirar Más Fotos – Bad Bunny

A capa nasce de um conceito coletivo desenvolvido por Bad Bunny junto à sua equipe criativa, sem um único nome creditado publicamente. As cadeiras plásticas Monobloco, dispostas em um cenário rural, funcionam como símbolo imediato da vida cotidiana em Porto Rico, evocando festas de família, encontros de bairro e memórias compartilhadas pela diáspora e por quem vive na ilha.
O ambiente natural, com referências à cultura jíbara, reforça a ideia de raiz, pertencimento e nostalgia. A fotografia evita o espetáculo e aposta na força dos objetos comuns, transformando elementos simples em imagem afetiva de “lar”. Um gesto direto e carregado de identidade, que se tornou um dos ícones visuais do ano.
Instant Holograms On Metal Film – Stereolab

A capa foi criada por Vanina Schmitt, colaboradora histórica da banda e responsável por grande parte da identidade visual do Stereolab ao longo das décadas. Seu trabalho reafirma a relação profunda entre música e design no universo do grupo, tratando a capa como extensão conceitual do som.
Inspirada em processos analógicos e no modernismo europeu, a imagem aposta em abstração, tipografia e composição rigorosa. Mais do que nostalgia, há continuidade e coerência estética, reforçando o design como linguagem autônoma e pensamento visual em movimento.
Let God Sort Em Out – Clipse

A capa foi criada por KAWS e funciona como peça central do aguardado retorno do Clipse. Seu vocabulário visual, marcado por personagens icônicos e tensão emocional, posiciona o álbum no cruzamento entre hip hop, arte contemporânea e cultura pop global.
Mais do que ilustração, a imagem opera como declaração. Assim como a produção assinada por Pharrell Williams, a escolha de KAWS comunica evento, ambição e legado, reforçando o peso simbólico desse retorno antes mesmo do primeiro play.
Golliwog – Billy Woods

O design da capa foi criado por Ashes57, alinhado à postura crítica e frontal de Billy Woods. A imagem funciona como confronto imediato, antecipando o peso político e histórico do disco sem buscar mediação ou conforto visual.
A fotografia é de Alexander Richter e retrata uma boneca golliwog feita à mão por uma artista que assina como @jellyhasbean. A soma dessas camadas de autoria transforma a capa em extensão direta do discurso do artista, tensionando imaginário racial, história e cultura visual de forma deliberada.
Glory – Perfume Genius

A capa foi criada pelo duo Inez and Vinoodh, em colaboração direta com Mike Hadreas, que buscava capturar um estado de vulnerabilidade e suspensão. A imagem remete à pintura clássica, mas com o corpo fora de eixo, quase em colapso, explorando o “momento antes” da pose se desfazer.
Com produção que envolveu até um diretor de movimento, a fotografia equilibra encenação e fragilidade. O resultado é uma imagem que tensiona beleza, artificialidade e exposição emocional, funcionando como porta de entrada sensível para o universo do disco.
Essex Honey – Blood Orange

A fotografia da capa foi feita por Vinca Petersen, com direção de arte e design assinados por Dev Hynes em parceria com Katharina Korbjuhn. A imagem se insere no registro íntimo e diarístico que atravessa o trabalho visual de Blood Orange.
Ao explorar temas como luto, memória e infância em Essex, a capa aposta no silêncio e na delicadeza como linguagem. Mais do que retrato, é um gesto de lembrança e elaboração pessoal, onde a intimidade se torna força estética.
Tranquilizer – Oneohtrix Point Never

A capa parte da pintura “Blue Interval”, de Abner Hershberger, que serve como núcleo visual do projeto. A obra desloca o olhar para um território ambíguo, entre abstração e estranhamento, preparando o ouvinte para a experiência sensorial do disco.
A direção de arte e o design ficaram a cargo de Daniel Lopatin, ao lado de Elliott Elder e Julien Gobled, reforçando o controle conceitual do artista sobre todo o universo visual. Pintura, design e som operam como partes de um mesmo sistema expressivo.
Cabin in the Sky – De La Soul

A capa foi criada por Hebru Brantley, artista de Chicago conhecido por seu estilo vibrante e personagens inspirados em histórias em quadrinhos. Sua arte traz cor e imaginação para um álbum atravessado por história e legado.
Em vez de assumir tom memorialista, a imagem aposta em continuidade e futuro. A capa entende o legado do De La Soul como algo vivo, em movimento, reforçando a ideia de permanência sem nostalgia excessiva.
Moisturizer – Wet Leg

A fotografia é de Iris Luz, com direção de arte de Darcy Norgan e design por Jamie-James Medina, Matt de Jong e Undercard. Para o segundo álbum, a banda buscava uma abordagem visual mais marcante e encontrou no estranhamento um eixo criativo.
A imagem, resultado de uma sessão experimental fora de Londres, mescla humor e desconforto. Ao brincar com padrões de beleza, performance e olhar externo sobre corpos femininos, a capa funciona como comentário visual afiado e autoconsciente.
Alfredo 2 – Freddie Gibbs & The Alchemist

A arte da capa é assinada por Mike del Mundo, com direção criativa de Matthew Draeger, e expande o universo visual inaugurado no primeiro Alfredo. Se antes a iconografia dialogava com o imaginário mafioso italiano, aqui o conceito evolui para uma estética inspirada na cultura Yakuza e na paisagem urbana de Tóquio, deslocando o cenário sem abandonar a lógica narrativa.
O motivo da comida permanece como fio condutor, agora com o fettuccine substituído por um prato de ramen, gesto simples que sinaliza mudança de território, cultura e atmosfera. A capa funciona como tradução visual dessa transição: mantém coerência com o capítulo anterior, mas amplia o mundo da parceria, tratando identidade estética como narrativa em movimento, não repetição.
Menções Honrosas:
Balloonerism - Mac Miller
Sinister Grief — Panda Bear
Bleeds — Wednesday
Sable, Fable – Bon Iver
Don’t Tap the Glass – Tyler, The Creator
Cowards — Squid






Em um cenário saturado de imagens descartáveis, essas capas insistem na ideia de obra. Pedem leitura, contexto e tempo. Algumas confrontam, outras acolhem, mas todas reafirmam que a capa ainda é território de discurso.
Mesmo em um mundo de playlists e recortes, elas defendem a experiência completa. Do olhar ao play.