Zumví Arquivo Afro Fotográfico ganha exposição no IMS
Mais de 35 anos de registros fotográficos da população negra de Salvador, ganham panorâmica
Neste final de semana, 28 de março, chega ao Instituto Moreira Salles Paulista, a exposição Zumví Arquivo Afro Fotográfico, reunindo cerca de 400 imagens deste arquivo que, há 35 anos, é responsável por guardar os registros dos movimentos sociais, o cotidiano e as manifestações da população negra da Bahia. A exposição é um panorama amplo da trajetória do Zumví, que desde 1990 atua ativamente na intersecção entre a fotografia e a militância política.
Fundado por Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, o Zumví surgiu da necessidade e do perceber a falta de representatividade na fotografia, além da necessidade do povo negro da Bahia, o estado mais preto fora do continente africano, contar a sua própria história. Fui visitar a montagem da exposição e tive a oportunidade de ouvir falas de Lázaro, atual Diretor Geral do Zumví, do historiador José Carlos Ferreira, que cuida da direção institucional do arquivo, e de Hélio Menezes, curador da exposição.
O projeto vem sendo desenvolvido há mais ou menos dois anos, após extensas viagens da equipe curatorial a Salvador, e de um mergulho muito profundo no arquivo que, até então, não tinha sido explorado em sua totalidade. Estamos falando de mais de 50 mil imagens que, juntas, contam a história da diáspora africana na capital baiana. Entre os destaques, estão os registros dos Blocos Afro e Afoxés, como o Ilê Aiyê, fundado em 1974, da luta pelo território do Quilombo do Rio das Rãs, e as manifestações do Movimento Negro Unificado, além de momentos históricos, como a visita de Nelson Mandela à Bahia, em 1991.




Dos membros fundadores, Lázaro Roberto é, até hoje, o que mantém o arquivo ativo e, durante anos, foi responsável pela produção da maior parte das imagens, trabalho que iniciou mais de uma década antes da fundação do próprio Zumví, no final da década de 1970. O contato com a fotografia surgiu por meio do teatro, promovido pela igreja católica no contexto da ditadura militar. A instituição era adepta de uma visão progressista, alinhada à teologia da libertação, que no Brasil tinha sua expressão máxima na figura de Leonardo Boff. Lázaro conta que recebeu sua primeira câmera como pagamento pelos serviços prestados à igreja.
Sua visão, desde o início, se direcionou ao lado popular de Salvador, a Cidade Baixa, local onde as lavadeiras e estivadores, como seus pais, trabalhavam e viviam. O contexto de efervescência na cidade chamou a atenção do jovem que, com todo o dinheiro que recebia de seu trabalho, investia em filmes para registrar o que seu olhar observava. Lázaro conta que a fotografia o fez se descobrir negro e cidadão, e também o fez questionar a representatividade de seu trabalho.
Em sua primeira visita a Feira de São Joaquim, a mais antiga feira livre de Salvador, conhecida por abrigar inúmeros trabalhadores informais, as pessoas lhe perguntavam se ele tinha se tornado branco, já que o histórico da atuação na fotografia era de nomes como Pierre Verger e da família Cravo, mais especificamente o de Mario Cravo Neto. A fotografia o faz se entender parte da cidade e de um contexto social, e penso em como a arte e a vida se relacionam, lembrando da construção do personagem Buscapé, em Cidade de Deus.
Alguns anos depois, ao conseguir comprar uma lente zoom, enxergou novas possibilidades na fotografia. Se antes era necessário ser invasivo e chegar perto demais do objeto, Lázaro agora o traz para perto, sem interferir na cena. As manifestações urbanas ganham outros contornos, de uma naturalidade que só um observador atento conseguem captar. Passa também a fazer retratos, algo que a princípio não era bem recebido, mas que aos poucos, com seu nome ganhando notoriedade, se tornam desejáveis.

A beleza da população negra é uma das temáticas abordadas pelo trabalho de Lázaro, que durante anos acompanhou as mudanças estéticas, principalmente dos cabelos. Em suas fotografias dos anos 1980, documentou os equipamentos de alisamento, como o pente-quente, o que se altera nos anos seguintes, período em que passa a visitar os salões de beleza e barbearias da cidade. Com o tempo, foram se popularizando espaços especializados em cabelos crespos e cacheados, tranças e dreads, além dos cortes desenhados. Essa auto-estima que se constrói a partir da resistência e do enfrentamento é um dos destaques da exposição.
Outra temática que também aparece entre as mais de 50 mil imagens produzidas, é a dos bares de reggae, um ponto que interliga Brasil, Jamaica e África, através da música. Durante os anos, Lázaro visitou praticamente todos os bares de reggae de Salvador, se conectando com a cultura e com seus agentes, documentando as festas, os bailes, as vestimentas e a arquitetura desses espaços. Segundo Hélio, daria para fazer uma exposição inteira somente com esse recorte.
Em 1990, a necessidade de preservar a enorme quantidade de materiais produzidos, além de buscar se conectar com outros fotógrafos se torna um problema. Ao sentir a urgência, Lázaro se entende como arquivista e funda o Zumví, com o objetivo de reunir, organizar e salvar décadas de história. A coletividade é conceito fundamental no projeto, já que a doação do acervo de outros fotógrafos contribuiu para que novas óticas ganhassem visibilidade. José Carlos Ferreira conta que o arquivo de fotos nos ajuda não só a construir narrativas, como desconstruir as imagens criadas sobre uma "baianidade" imaginária, e por consequência, a ideia do que é ser brasileiro.


Existe um conceito muito interessante chamado “micro-história”, na qual as fontes saem de experiências cotidianas, às vezes banais, como cartas trocadas por familiares, fotografias de um grupo de igreja, ou panfletos de uma festa de bairro. A partir desses elementos menores, é possível entender como se davam as relações sociais de um certo tempo, como estruturas de poder se estabeleciam e faziam sua própria manutenção, ou como a política se apresentava para os cidadãos. Olhar para o material do Zumví, é entender todos esses contextos a partir de um retrato, uma foto dos trabalhadores na Feira de São Joaquim, ou dos estudantes uniformizados indo para a escola.
Em 35 anos de atuação, hoje o Zumví se divide em três principais pilares: a preservação, que se dá por meio do arquivamento e digitalização dos mais de 50 mil fotogramas pertencentes a pouco mais de 7 fotógrafos; a difusão, possível graças ao acesso a tecnologias como a internet, que permitiu a criação de um arquivo digital, mas que até o momento disponibiliza somente 10% de todo o material, mas também através de exposições e mostras; e a formação, de cursos e oficinas para estudantes negros de Salvador, que podem desenvolver um olhar atento através da fotografia.
José Carlos Ferreira reforça que existe uma dimensão política no Zumví, e que todas as ações são tomadas com a clareza de que se busca construir uma sociedade mais consciente de sua própria história. Logo, todas as pessoas que passam por alguma formação promovida pelo Arquivo, são estimuladas a contribuir com essa luta, registrar suas realidades e expor seus pontos de vista.




Ao ser perguntado se percebia suas fotos como o trabalho de um artista, Lázaro diz que ainda tinha dúvidas, mas para Hélio essa resposta está dada assim que se vê as fotografias. Tecnicamente são impecáveis, e demonstram uma sensibilidade estética que não são obrigatórias no fotojornalismo, por exemplo. Claro que o foco sempre é garantir que o objeto fotografado seja acessado pelas gerações futuras, mas isso é feito com uma beleza tão grande que chega a ser impossível dizer que aquilo não é arte.
E falando em tempo, o lema do arquivo é “fotografar hoje para o futuro”, e em alguma medida, esse futuro que ela vislumbrava há quase 50 anos, já chegou. Hoje, pessoas que por vezes não têm um retrato de seus famíliares em casa, conseguem acessar a própria história por meio do arquivo da Zumví. Nós, brasileiros, que tão facilmente esquecemos do nosso próprio passado, temos a oportunidade de compreender como o nosso presente se construiu.
Para Hélio, a rua é a grande protagonista desta exposição. Os Blocos Afro e de Afoxé aconteciam na rua, as manifestações dos Movimentos Negros também, e mesmo as declarações de fé do povo do Candomblé, que por anos teve seus rituais secretos violentamente expostos, nas fotos de Lázaro aparecem por meio das manifestações públicas, no padê para Exu na encruzilhada, um jeito respeitoso de mostrar que esse povo também está nas cidades.

A exposição chega em um momento muito propício, ocupando os andares em que até poucas semanas atrás, estavam as fotografias de Gordon Parks, outro fotógrafo negro que, com seu olhar afiado, registrou a realidade da comunidade negra nos Estados Unidos. Agora, temos a oportunidade de ver uma história muito parecida ser contada sob a ótica de um fotógrafo brasileiro, baiano, e que pôde estar muito perto de acontecimentos históricos, e outros nem tão históricos assim, mas nem por isso menos relevantes.
Serviço:
IMS Paulista - Avenida Paulista, 2424. São Paulo
Horário de funcionamento: terça a domingo, das 10h às 20h.
Visitação: de 28 de março a 23 de agosto
Entrada gratuita
7º e 8º andar