Yvie Oliveira: a mãezona do grime do Rio de Janeiro
A produtora cultural é uma das mentes por trás do Brasil Grime Show
Nascida em Nova Iguaçu, Yvie começou a sua relação com a produção cultural em Conservatória, cidade no interior do Rio de Janeiro conhecida como a Terra da Seresta, que serviu de referência com a sua cultura de produção musical e audiovisual independente.
A sua trajetória passa pela Bruk Broken Beats e pela Oficina das Minas até chegar no surgimento do Brasil Grime Show, programa que atualmente é composto por Renan Guerra, diniBoy e Diego Padilha, além da Yvie, e que se consolidou como um dos principais projetos de grime no Brasil, sendo crucial para a criação da cena que existe hoje.
Por trás dos vídeos com milhões de visualizações do BGS, existe todo um trabalho de resistência e luta. Foi tentando entender mais sobre esses processos que troquei essa ideia a seguir com a Yvie.
Antes do Brasil Grime Show, rolava a Bruk Broken Beats. Como começou essa relação e qual foi o caminho de lá até os dias de hoje?
Eu conheci a galera da Bruk por causa do EVEHIVE e do b o u t e fui me inteirando mais em eventos e comecei a trabalhar em parcerias com festas. Através do Dini, eu fui conhecendo a Bruk mais a fundo e comecei a trabalhar com a galera na parte de produção.
Na época, a gente tinha muito essa parada de reunião de produtores e artistas, então ficava a galera que produzia eventos, eu e a Marie Linhares, sentadas, trocando ideia de eventos — ela me ensinando muita coisa, porque já tava na pista há muito mais tempo, já sacava de edital. No outro canto ficava a galera que tava produzindo — Badsista, EVEHIVE, diniBoy, Ruxell, Lírio, b o u t, Pep, todo mundo reunido fazendo esse rodízio de mesa em mesa, era uma parada muito coletiva.

E aí eu peguei mais firme em evento, porque a gente começou a ter uma conexão muito forte com a Fosfobox, um espaço que desempenhou um papel muito forte pra gente aqui no Rio de Janeiro nessa questão da música eletrônica underground, porque além da gente frequentar, eles abriam um formato de negociação pra caber o nosso evento lá — então até na pior noite, a gente saía com lucro.
Era um coletivo que já tinha uma galera residente, mas era muito aberto, então, se você quisesse colar, era só acertar o dia certinho e a gente ficava nessa expectativa da pessoa chegar. Os meninos começaram pequenos, muito antes da minha chegada, mas depois foi se desenvolvendo — acho que a maioria da galera no underground chegou a colar em algum momento com a Bruk.
A primeira produção do diniBoy nos streamings tava na primeira coletânea da Bruk
Eu engrenei com essa parte de produção, tanto nas minhas criações, como também trabalhei em muito evento corporativo, produzindo feiras voltadas pra música, eventos mais focados na parte de equipamentos — fui me desenvolvendo.
O coletivo acabou se desfazendo, a galera foi saindo, o Dini seguiu a carreira dele como DJ e eu trabalhando em outras produções. A gente formou — eu, EVEHIVE, Glau Tavares, Bia Marques, Rebr3akz, KENYA20HZ e a Ingrid Nepomuceno, que tava na primeira edição — a Oficina das Minas, onde a gente dava aula de discotecagem e produção e fazia certificado pras meninas, tinha essa imersão.

Depois disso, veio o Brasil Grime Show. O Dini já tava com essa ideia há um tempo, mas acho que tava faltando o encorajamento certo. Eu tava meio sem vontade de fazer qualquer coisa underground, mas me pediram pra ir na primeira gravação. Quando eu cheguei, tava tudo completamente bagunçado e eu tenho um problema muito grande com a organização. A partir daí, eu aceitei ficar trabalhando com eles e a gente foi formatando aos poucos o BGS.
Mas em paralelo, eu sempre tive em outros trabalhos, outras produções — tanto terceirizando o meu trabalho de produção, quanto formatando gestões, organizações e criativo pra outros eventos que às vezes as pessoas não tinham tanto tempo pra desenvolver.
Nessa época, não rolava quase nada de grime no Brasil, e o BGS foi essencial para expandir o gênero para um público maior. Como foi esse começo?
Você já via isso acontecendo em São Paulo em diversas festas, tinha o Cesinha e outros produtores que faziam vários rolês que traziam isso — a SIDE, da Peroli, a Br3akz, da DJ Rebr3akz e a Wobble, que trouxe o Plastician e o Swindle. Já tinha o trabalho do Vandal, do Febem, só que eu acho que faltava, pra um público geral, isso de uma forma mais mastigada, e o Brasil Grime Show meio que entregou isso.
Como não existia uma disponibilidade muito grande de MC’s que tivessem esse estudo de grime focado, houve uma mistura, na curadoria, de trazer artistas do trap, do rap, hip-hop, boombap, do funk — artistas que eram relacionados ou que estavam se encaminhando pro drill, pela semelhança com o trap.
Em paralelo a isso, tiveram diversas questões que a gente só foi aprendendo na prática — a produção em si, quando a gente trabalha essa questão do artístico criativo, quando a gente vai pra parte burocrática —, só com a convivência, com o dia a dia ali.

Então você vê que os vídeos têm formatos de edição diferentes, o áudio foi melhorando com o tempo, porque foi acontecendo esse desenvolvimento. O Louquera e o Padilha trabalhavam na I Hate Flash, então eles já tinham uma prática muito grande com a fotografia, mas a gente tava indo pra um outro formato que era o de captação, então isso foi sendo adaptado.
O Renan tinha acabado de abrir o estúdio dele, a Casa do Meio, que foi a nossa residência até o início de 2024. Ele tava formatando, adquirindo equipamentos, o cenário era de um jeito e isso também foi alterando a forma como a gente produzia.
O primeiro episódio a gente levou muito tempo pra produzir, por causa de atraso, de conectar e não pegar o microfone e não ficar bom. A gente chegou lá por volta das onze da manhã pra começar a gravação e quando a gente foi gravar de fato, eram sete da noite. A gente não tinha essa noção.
Quando a gente foi gravar o segundo e terceiro episódio, demorou também, mas gravamos os dois no mesmo dia — aí a gente já entendeu como colocar um horário e quanto tempo demorava cada coisa. O Renan já fazia uma pré-produção no dia anterior, a gente começou a se adaptar melhor aos horários do trem pra conseguir chegar, e a gente conseguiu pegar a prática de botar três episódios no dia — e ainda assim saindo cedo, chegando meio-dia e conseguindo meter o pé às sete da noite.
A diária começou a render melhor nesse volume de produção e a gente também começou a entender os custos — o preço que eu pago pra fazer um episódio num dia é o mesmo que eu pago pra rodar três, quatro, então a gente começou a organizar essa parte também. Em 2018 foi muito teste, e o programa não foi bem recebido, ninguém queria fazer a parada porque era muito novo.
A gente tinha muita dificuldade de fazer a curadoria — a galera rejeitava mesmo, visualizava e ignorava, e aí era difícil. Foi uma galera que fazia uma pesquisa mais abrangente que começou a topar. E depois que veio o episódio do Febem e do Fleezus, a galera começou tipo: “quero ir nessa parada”. Aí a gente entrou pra segunda temporada, no ano seguinte, e a gente já tinha um volume de pessoas querendo, mas ainda não sendo levado tão a sério — o pessoal marcava com a gente e não ia, e a gente ficava no estúdio.
A parada foi fluindo, e começou a chegar na galera de fora — a gente marcava eles e eles começaram a reagir bem. Alguns produtores ficaram mordidos porque o vídeo, apesar de não bater uma visualização absurda, tava batendo 5.000 visualizações e o cara não tinha 100 plays, mas teve uma galera mais da antiga que super abraçou a gente. A parada foi ficando conhecida e começou a ter um reconhecimento maior na internet.
Fomos chamados pro primeiro festival que foi o BUD VIBES, a gente trabalhou ali nessa curadoria junto com eles, e aí nisso o Oblig entrou em contato e falou que ia vir pro Brasil. A gente não tinha tanta conexão pra fazer evento e um receio também de dar um tiro no pé, então a gente fez um evento menor aqui na Casa 33 em Botafogo pra 80 pessoas, e foi muito irado. Depois fizemos em São Paulo, em parceria com a Peroli e a SIDE, mas a polícia foi lá e tivemos que parar o evento porque a vizinhança reclamou.

Na sequência, o Bugnum1 veio, gravou com a gente, mas já era pandemia — a gente teve que cancelar evento, estagnar as atividades, mas seguimos trabalhando. A gente começou aquele trabalho que foi o Quarentena, que a gente separava o beat e mandava pra três MC’s — eles se gravavam no celular, mandavam, a gente editava o fundo e subia, até a gente conseguir voltar a gravar. Quando as coisas já estavam começando a circular normal, eu falei pra galera: “vamos voltar pro estúdio”.
A galera não tinha muito o que ver e ficou acompanhando a gente no YouTube, descobrindo. Quando entrou essa temporada, aumentou o volume de seguidores no canal e o engajamento acabou sendo maior quando a gente foi voltando aos poucos pra pista.
E tipo, não é dizer que nós somos os pioneiros — o que a gente queria era realmente facilitar o entendimento, porque a cena do trap tava produzindo as mesmas coisas, era a mesma parada rolando o tempo inteiro. Os mesmos eventos, vários DJs fodas que não estavam na pista porque tentavam fazer algo diferente. O grime já rolava aqui, mas aquele disco do Skepta acabou tendo um giro maior, a galera teve mais receptividade, e nessa brecha, veio o Brasil Grime Show e as coisas foram fluindo.

Esse processo todo resultou na criação de um movimento que serviu e serve de referência para uma geração enorme de jovens. Como é olhar para esse impacto e para as transformações que vieram junto com o Brasil Grime Show?
A gente deu muitas entrevistas pra TCC, e é muito doido, a galera toda hora procurava a gente. Recentemente a gente participou da pesquisa de uma mestranda — ela passou agora pro doutorado dela — que tinha feito o TCC falando do VND e depois no mestrado falou sobre a cena de grime, é muito irado isso.
Eu acho maneiro, porque quando a gente fala de música em relação ao estudo, ainda é uma coisa que acaba sendo distante. Essa questão de recurso pra estudar é foda — se você vê a galera na cena, é todo mundo muito autodidata — ou você gasta um dinheiro muito grande, que tu não tem, com uma parada completamente quadrada, ou você realmente não tem como estudar e vai aprendendo sozinho.
Essa falta de acesso fecha muito a forma como a gente vê, mas eu acho muito doido quando a música se encontra com a academia. Tem uma amiga minha, Helen, que fez a pesquisa dela toda falando sobre as batalhas de rima e fazendo essa conexão aqui do Rio de Janeiro, foram anos estudando, indo em todas as batalhas, entrevistando.
É muito gratificante ver que o seu trabalho é notado de diversas formas. Às vezes você não vai acessar algumas portas, porque as pessoas olham o que a gente faz — como eles dizem, "ritmos urbanos" — ainda com um grande preconceito, mas em outros pontos isso se encontra com o estudo e traz uma perspectiva maior pro futuro.
Você começa a ter dimensão do seu trabalho, como ele impacta as pessoas. Teve um mano que fez um trabalho sobre a gente, da geografia, e falou sobre essa questão da zona oeste do Rio de Janeiro. Foi muito foda, porque o Brasil Grime Show foi um dos maiores projetos que já aconteceu na zona oeste. Tem diversos outros movimentos, mas era uma parada muito doida pra galera ter que fazer a contramão quando chegava — tu não tava indo pra zona sul, tu tinha que voltar subindo e ir pra extremo zona este, Bangu, pra poder participar da parada, sabe?
E organizar festas de música underground, principalmente falando de grime, não é um trabalho fácil. Como você enxerga e trabalha essa relação com a cidade?
Você tem que pensar primeiramente em como que a galera consegue chegar de transporte público no seu evento — tem que ter essa via, porque aí eles conseguem consumir dentro do evento, e o Uber na volta é meio que rachando.
Durante um tempo, a gente não tinha tanta disponibilidade de Uber, era algo muito novo, então a gente tinha que fazer um quadro de horário que batesse com o metrô e o trem que fosse perto. Então a gente tinha como opção a Fosfobox, e as casas no centro — antes do Ganjah Lapa era La Paz, uma casa muito foda, era um dos melhores sons do Rio de Janeiro — e a gente conseguia fazer umas negociações legais lá. Mas a gente tentava sempre calcular algo que a galera não precisasse andar tanto pra chegar no ponto de ônibus ou no trem pra não correr risco de assalto.
E aí tem os eventos na rua, mas que fica complicada a monetização. Quando não há uma relação mais próxima, talvez o artista, sem te conhecer, vá cobrar um valor que não condiz com a realidade do seu caixa, por mais que você queira poder pagar exatamente o que cada artista pede por aquele trabalho. E isso acaba impedindo certas expansões, pois o evento na rua monetiza pelo bar, sendo que você também vai concorrer com a galera que é ambulante, e ao mesmo tempo, a estrutura da rua requer um milhão de outras coisas, então a gente sempre acaba recorrendo pra uma casa.
Hoje em dia, o Rio de Janeiro tá às moscas, a maioria das casas estão fechando. Casas que antes funcionavam pra música eletrônica, agora só focam em outros tipos de eventos que trazem um público que tenha mais poder aquisitivo pra consumir na casa, e as coisas foram apertando muito. É complicado, mas a gente vai dando nosso jeito. Eu penso muito sobre um dia conseguir abrir um espaço, porque dá pra girar, se você não for uma pessoa extremamente gananciosa e pensar da forma justa, sabe?
É complicado, mas hoje em dia eu tenho uma mente um pouco mais blindada, porque se você não se impõe, as pessoas te passam a perna, se impõem em cima de você, minam sua autoestima. Depois dos meus filhos, eu fiquei muito mais blindada em relação a isso, então eu meio que ignoro o que não cabe a mim. Eu fortaleço muito as conexões e tive muita ajuda pra chegar onde eu cheguei, mas eu fiz vários trampos. Fiz a curadoria, por três anos seguidos, do palco alternativo do STU e pude botar alguns artistas lá. Pra uma galera não é grande coisa, mas foram momentos que marcaram a carreira deles — mas às vezes é invisibilizado.
Eu me valorizo, eu sei da minha trajetória e eu sigo me esforçando e assinando um monte de projeto, e esse é o legado que eu deixo. Independente do nível de mídia ou da forma que as pessoas me trataram, olha que foda a quantidade de conexão que a gente tá fazendo — é a galera vindo pra cá, a gente produzindo. Eu acho que essa minha experiência é o que mais vale, e é o que eu incentivo outras garotas, tipo "estuda para caralho".

Sempre tem uma forma. Eu sou viciada em bolsa de estudo — tudo que eu posso fazer, eu dou um jeito de fazer, ocupo todo o meu tempo, sabe? Pego um curso, faço. Às vezes tô no intervalo de almoço, às vezes de noite com um pouco de insônia, às vezes durante o dia mesmo, horários que eu tenho livre, eu sento e estudo. Pro meu pessoal, além do profissional — eu acho que é muito sobre isso.
A melhor coisa que eu fiz da minha vida foi estudar pra caramba, me conectar, porque é a minha autoestima que molda a forma como eu me enxergo profissionalmente, o que eu posso fazer. E eu gosto muito de estar me conectando com mulheres muito poderosas, que não têm medo de estar com mulheres, porque eu consigo aprender e absorver — muita coisa aconteceu na minha vida porque mulheres mais velhas, que sabiam mais do que eu, falaram.
O grime é uma cultura que se desenvolve com um público majoritariamente composto por homens. Qual é a importância de levantar os projetos feitos por mulheres dentro desse gênero?
É muito doido, porque tem muito a questão da reação do público, e a gente tem que saber educar o público em relação a isso — mostrar que você não admite certos comportamentos — porque os homens não têm o hábito de ouvir mulheres.
Então, se você conta com um público majoritariamente masculino, que é o que acontece quando você tá nesse meio, eu acho que isso parte de um lugar educacional também, de tipo: "você tem que escutar, você tem que ouvir, você tem que expandir seus ouvidos, porque senão você não vai conhecer absolutamente nada de música."
E eu acho que isso é um papel muito nosso, sabe? Eu estive colaborando em outros projetos super legais, não só na parte da música, mas na parte de produção também — em 2019 eu fui campeã do primeiro hackathon da Sony Music voltado pra inserção de mulheres no mercado da música.
A gente criou uma plataforma de streaming conectada ao Spotify, que filtrava as músicas em algumas categorias — músicas que tiveram mulheres como compositoras, como intérpretes. A gente criou esse protótipo ali pra poder ter essa conexão maior, mas não foi pra frente, também porque não houve interesse da empresa na época, foi mais aquela realização ali. Nossa equipe era de três meninas e um menino, e foi uma experiência massa demais.
No corre da grana, a gente faz muita coisa simultaneamente. E a gente sabe que não vai ter patrocínio, então a gente tem que fazer nós mesmos, tirar do bolso, juntar um dinheirinho e fazer a parada rolar. A gente tem a parte do selo do Brasil Grime Show, só que os episódios não são autorais.
A gente tá dentro da regra do YouTube pra não ter os episódios derrubados, mas os beats não são nossos, e a maioria dos produtores acabam não sendo tão abertos a acordos, principalmente porque recebemos muitos dubplates — então não temos como fazer um acordo de registro da obra e fonograma. Mesmo explicando como funciona, a maioria das pessoas não entendem. Elas veem 100 mil visualizações num vídeo e entendem que isso significa 100 mil reais — a partir daí, quando você tenta explicar, muitos acabam partindo pro discurso de que você está mentindo.
Agora a gente consegue monetizar em outras formas, mas tem o custo de logística, eu pago pra usar aquela diária. Se o artista atrasa e eu já estou com o equipamento montado, já tá contando diária, então tudo isso entra — tem um custo absurdo e o programa não consegue devolver esse dinheiro.
Agora em 2026, a cena está cada vez mais conectada e os gringos estão de olho nas movimentações daqui. Quais são os projetos do Brasil Grime Show que estão por vir?
A gente tá com uma programação pra rolar esse ano, mais uma vez do nosso bolso, mas vai acontecer. Essa primeira movimentação vai ser aqui no Sudeste, onde a gente tá e consegue fazer um bate-volta mais rápido, então a gente já tem datas pra Rio, São Paulo e Belo Horizonte. No mês seguinte, a gente sobe com essa programação, talvez num formato menor pela disponibilidade de casas, pro Nordeste, e se conseguirmos, pro Norte também.
Como a gente não consegue levar todo mundo, a melhor forma vai ser dividir e estar em cada local, com os coletivos, tendo essa programação com os artistas locais, levando nossos artistas daqui e trazendo uma surpresa de fora do Brasil, que vai estar produzindo com a gente durante um período. A nossa ideia é que, além da programação musical, a gente consiga inserir os workshops da parte educacional.

Gerar um contato e também trazer esses artistas pra estarem produzindo em conjunto com produtores locais, puxar coletâneas, singles, a maior parte de material que a gente conseguir fazer e documentar tudo isso — realmente gerar uma conexão e materiais que vão além do entretenimento, mas que a galera consiga absorver um pouco da história do que tá acontecendo.
Eu acho que isso tá faltando. A gente teve um momento todo mundo muito junto, depois por terceiros infiltrados começaram a rolar confusões e as pessoas se dispersaram. Isso empobreceu demais a cena, você vê que fica uma parada muito quebrada. A gente se juntou pra tentar encerrar a confusão entre os nossos, pra poder fortalecer os coletivos de novo, se conectar com a nossa galera.

Nosso canal tem um alcance e volume de seguidores maior do que muitos canais tradicionais mais antigos de Londres. Alguns não foram tão receptivos, mas muitos dos produtores e MC's de lá nos procuraram, enviaram beats, nos chamaram pra projetos, o que enriqueceu as nossas conexões e portfólio de trabalho.
Mas existe uma diferença cultural muito forte entre nós e certas coisas que pra nós são anormais, tipo você ver um line-up completamente masculino, lá não é. É uma cena majoritariamente masculina, o que é uma pena.
Se você for puxar uma pesquisa, a quantidade de mulher lá é nichada pra caramba, são sempre as mesmas meninas. Tenho várias amigas MC's de lá que contam — algumas desistiram de cantar, outras voltaram agora, mas é deprimente a situação. E aqui, com toda a dificuldade que existe, tu olha pra cena e encontra uma diversidade, de certa forma é uma união.
Por mais deficiente que seja, a gente tem um ecossistema de produção de eventos que gira artistas underground, que realmente não são conhecidos — outros coletivos estão agitando a cena em diversas partes do Brasil. Os gringos percebem que aqui flui diferente, e eu espero que da mesma forma que nos inspiramos neles pra fazer o que fazemos, a diversidade que temos nos projetos dos coletivos que estão trabalhando aqui no Brasil os inspirem também a serem mais inclusivos.
Eu tenho um apego muito grande com o Brasil. As pessoas perguntam às vezes: "ai, vocês têm que ir lá pra fora", e cara, será que é tão importante realmente estarmos lá enquanto tem tantas coisas pra serem feitas por aqui? Fico muito feliz vendo todos os artistas que estão conseguindo fazer essa conexão, mas não me sinto frustrada por não estarmos nesse momento de tour internacional, porque tem muito trabalho a ser feito aqui no Brasil.
Esse é o nosso país, e é aqui que queremos crescer e expandir. Por mais que ainda não tenha acontecido essa tour, em todos esses anos estamos rodando o Brasil, conhecendo diversos estados e cidades que a gente nem imaginava que poderia pisar. Nos conectamos com várias mentes criativas de diversas partes do Brasil, e esse é o nosso principal foco — que a cena se enriqueça por aqui e que continuemos nos conectando com outros países, mas sem essa frustração de precisarmos ser reconhecidos lá fora pra sermos alguém relevante em solo nacional.
Antes de pensar em uma tour internacional, eu realmente estou preocupada em conseguir construir algo sustentável aqui no meu país — a gente tá aqui e vamos fazer a parada girar aqui.

Acompanhe o trabalho de Yvie e do Brasil Grime Show nas redes sociais e no Youtube.