VIANA PROD transforma a música eletrônica em linguagem

O DJ e produtor piauiense tem as suas faixas tocadas pelo mundo inteiro, seja no grime ou em outras cenas

VIANA PROD transforma a música eletrônica em linguagem

João Guilherme de Araújo Viana, mais conhecido no mundo da música eletrônica como VIANA PROD, é um dos produtores mais ativos e versáteis da cena do grime brasileiro. Diretamente de Teresina, Piauí, também atua como DJ, fotógrafo e designer gráfico, transitando por diversas camadas da arte, seja de maneira amadora ou profissional.

Foi durante a pandemia que VIANA instalou o FL Studio e começou a produzir, juntando as influências e aprendizados de gêneros como dubstep, drill, rock, jungle e o grime, que começava a se espalhar pelo nosso país através do Brasil Grime Show. Por meio do Discord e das redes sociais, foi se conectando com uma rede de produtores e entusiastas do gênero pelo país inteiro, passando por grupos como a Fazendinha Digital, o coletivo Plano TM, a página Grime Facts, colaborações com a Kenyon Sound, a residência na Climber FM, web-rádio de alpha rephix, e a Rádio 086, seu projeto de rádio autoral.

Não se limitando ao universo do grime, que foi a sua escola e segue sendo o seu ponto focal, hoje VIANA tem as suas músicas tocadas mundo afora, nos mais diversos contextos e cenas — seja em programas da Globo, grime sets em todos os estados do país ou clubes espalhados pelo mundo.

"O grime é muito abstrato — você pode fazer de várias formas, com vários timbres, com tudo", explica o produtor de 22 anos, que acaba de lançar, na última sexta-feira, Atmosphere Riddim 2, single que conta com a versão normal e a VIP de um dos instrumentais mais consistentes da nossa cena, até então, neste ano.

Quanto mais a lógica dos streamings cresce, cada vez mais se torna insustentável receber dinheiro com a música, principalmente falando de música eletrônica underground. Na cena do grime, uma das formas de tornar essa relação mais justa tem sido a venda de discografias em serviços de nuvem, que conta com músicas não lançadas, demos e conteúdos exclusivos.


Você está com o lance da venda da sua discografia, pelo Google Drive. Você acredita que esse é o jeito para as coisas funcionarem? Esse lance da discografia te permite criar uma relação maior com quem consome a sua arte, comparado com quem acompanha pelos streamings ou plataformas como o BandCamp?

Eu acho que eu sou muito democrático com as coisas que eu produzo. Eu nunca tive problema de deixar música de graça e sempre mandei as minhas músicas para as pessoas, porque se tinha uma coisa que eu queria era que minha música perpetuasse. Se você abrir minha discografia no BandCamp, no SoundCloud, muita música minha tá free download (quando a música é disponibilizada para baixar sem cobrança nenhuma).

O BandCamp é, indiscutivelmente, o que dá dinheiro pra gente, só que você tem que trabalhar lá como você trabalha em qualquer empresa. Quando eu comecei a postar minhas músicas no BandCamp, eu não sabia nem como ver quantas views elas tinham — eu vi que fazia sentido postar minhas músicas lá porque eu visava pra fora do Brasil.

Eu acho que acho que o pulo do gato pra mim foi a constância. Quanto mais eu estudava, mais eu lançava, e eu botava o material lançado nas tags de gêneros, porque os gringos pesquisam muito. As pessoas têm que ver isso realmente como você plantar uma folha e esperar essa folha virar uma árvore, pra você colher os frutos. Na maioria das músicas de graça, os gringos dão um dinheiro — eles têm muito dessa de te incentivar, de doar 50 centavos de dólar na música.

É a melhor forma de ganhar dinheiro na internet hoje, fora tentar ficar online. Acho que a questão é essa. Eu não boto muito a minha cara na pista, mas ao mesmo tempo, eu sou muito online em todos os lugares, eu acompanho um pouco de tudo — dou like, dou RT, curto, comento, gravo as vezes que eu tô tocando tal música e mando pra pessoa. E isso soma com várias questões.

Por eu ter essa forma muito democrática, muitas pessoas que eu quero que tenham minha música antecipadamente, elas têm de forma gratuita. Eu sei que aquela pessoa toca as minhas músicas, que ela faz uma questão, então eu mando de graça. E quando eu faço várias versões da mesma música — que é muito sobre o feeling que eu tô naquele momento — eu mando pra uma pessoa que eu quero que ouça. Faço outra versão, em outro momento, e mando pra outra pessoa. Às vezes as pessoas têm várias versões das minhas músicas e elas nem sabem qual é a ordem certa, porque só quem precisa saber sou eu.

Eu tenho a discografia já tem dois anos, e tem a questão que você pega o link vitalício. Eu paguei um plano no Google Drive, que eu sempre vou ter, pra que esse link sempre seja preservado. Lá tem literalmente tudo — são quatro anos de tracks, demos, sets, meus materiais de 2021 pra frente. A pessoa que tiver a minha discografia tem acesso a muita coisa, e eu constantemente jogo promoções.

As pessoas que compram geralmente já me conhecem, e querem ter uma coisa exclusiva, pra continuar tocando as minhas músicas. Eu acho isso muito foda. E a venda de discografias já me ajudou muitas vezes a pagar umas contas daqui de casa, muito mais que o BandCamp, porque o dinheiro cai em Pix, não tem taxa.

Eu consigo ler na pessoa se ela só tá querendo tirar proveito ou se ela realmente tá interessada — o povo gringo que às vezes nem me segue, nunca vi nenhum suporte e chega pedindo faixa do nada. Tem gente que toca as minhas músicas direto, mas não tem tanta condição de pagar o valor inteiro. Aí eu falo: "pô, bicho, se a tua ideia é somar, manda o que tu tiver aí. Tá de boa, pode ficar", tá ligado? Já passei a minha discografia de graça, também, para as pessoas que eu acredito que vão continuar perpetuando a minha música de certa forma.

Então é muito sobre você querer que a sua música perpetue. E que faça sentido para as pessoas que ouvirem. Eu já acho muito foda ter pessoas que querem isso, não precisa de muitos.

E falando sobre essa música, como você separa as suas produções, que variam tanto em gêneros e contextos, dentro da sua trajetória?

Primeiro de tudo, eu fiz dois EPs de grime, que eu acho bem sólidos. Akuma tem uma track de dubstep e o resto é tudo grime, e Caos é tudo grime. Mas no meio desse processo de produzir música eletrônica, eu fui descobrindo que eu gostava de pesquisar música e de aprender muita coisa. Querendo ou não, ser DJ me deu muita vontade de produzir coisas que eu não conhecia.

Viana Sounds é um pack onde eu junto coisas que eu gosto, que eu já fiz e tavam ali guardadas, de vários gêneros possíveis. Eu lancei UK garage, jersey club, drum n'bass, dubstep, e não preciso necessariamente lançar algo muito extenso. Desde que eu comecei a produzir, eu sempre tive a brisa de que eu não me importaria de lançar uma, duas, três, quatro músicas — eu gostei, eu lanço. Meus packs de refix, da mesma forma, e já tá no quinto volume.

O meu EP, O Segredo por Trás da Mola, foi todo o processo que eu tive pra entender o que eu queria fazer com a questão do pula pula. Eu sempre fiz pula pula, desde que começou essa brisa, eu já tava inserido. Eu já lancei muito material disso, mas eu acho que poderia ser integrado com outras coisas. E eu fui fazendo testes.

Capa de O SEGREDO POR TRÁS DA MOLA

O único álbum que eu lancei até hoje é de jungle, Mainha Eu Amo Jungle. Como aqui no Piauí, e especificamente aqui em Teresina, não tem ninguém com essa questão — além de mim, o Marcelo USB e o Pesadão, que também são novos, querendo ou não, na cena — eu sempre tentei produzir muito na estética do que eu ouvi. Eu queria produzir da mesma forma como eu gostava de ouvir.

Eu acho que é um álbum muito sólido, no sentido do que eu queria propor — um álbum de jungle do nordeste do Brasil, totalmente autoral. O nome é porque é como se eu estivesse falando com a minha mãe que eu amo esse gênero, que isso tem muito a minha cara.

Eu comecei a produzir por causa do grime, e sou o que sou hoje por causa do grime. Tudo que eu faço hoje, eu devo muito ao rolê do grime. Mas eu me descobri, mesmo, como um produtor, e gosto de produzir muita coisa que envolva música eletrônica. Mas eu também tenho um pé no chão, de que não é todo lugar que eu vou entrar, porque eu também não sou inteirado de tudo.

Eu tenho vontade de produzir, por exemplo, afrobeats, mas eu tenho que estudar mais pra entender o chão que eu tô pisando, o local que eu tô inserido. Porque querendo ou não, eu ainda sou um homem branco, de classe média, eu moro num bairro muito bem localizado aqui em Teresina. Então tem essa questão de você se ver perante a sociedade, e eu não entro em muitos locais porque eu tenho a questão do respeito.

E tem a questão do respaldo. Eu toco muitas coisas e tento conhecer um pouco de tudo quando eu vou produzir. Eu nunca produzo nada avulso. Se eu for produzir alguma coisa, é porque eu já ouvi algo sobre aquilo, tem alguma pesquisa, uma referência a respeito. E aí minha discografia só aumenta. Tem gente que gosta mais do meu rolê de grime, tem gente que gosta mais do meu rolê de dubstep, tem gente que gosta mais do jungle, tem gente que gosta mais do UK garage ou do jersey club.

Eu vou produzindo tudo que eu gosto e essas músicas vão se perpetuando pra quem quer que acate aquilo ali. E essas músicas já chegaram em vários locais. Elas vão se encaixando nos contextos de cada pessoa. Eu acho isso massa, que cada um identifica de certa forma a sonoridade que eu faço.

E na minha cabeça, é isso — eu não tenho necessariamente um processo criativo. Eu só escuto muita música e passo muito tempo na internet, ao mesmo tempo que passo muito tempo vivendo a vida. Os meus processos criativos saem de uma mesa de boteco. Às vezes eu tô cortando o cabelo, ou tô sentado com meus amigos e as ideias fluem. Eu vejo muitas pessoas falando sobre seus processos criativos — e bicho, às vezes eu tava almoçando e vem um negócio.

É sobre a vida mesmo, né?

Simplesmente porque vem das coisas que eu faço, das pessoas com quem eu ando, de quem eu boto dentro da minha casa e quem eu vejo como referência. Esses dias eu tava conversando com a Knid, e essa conversa mostrou pra mim que eu tenho muita bagagem — e que não necessariamente a minha bagagem é sobre estar inserido em algum lugar. É simplesmente sobre você estar vivendo.

Sobre você estar no mundo ouvindo coisas, conhecendo pessoas, estudando — e ter contato com as pessoas ajuda. Às vezes eu só tô devaneando, olhando pro nada, e a ideia vem, pela questão de você estar o tempo todo fazendo aquilo ali. As músicas já vêm de acordo com o que você vai fazendo. Eu tenho percebido, nessa mesma questão de ter ou não um processo criativo, que quanto mais eu consumo música, mais eu consigo produzir com o tão pouco que eu tenho.

VIANA e Rennó na ATRITA w/ BUNDA no Valentina Club em Fortaleza

Eu troquei de computador esse ano, então tem 4 anos que eu tô no rolê de grime com um computador bosta — eu já tinha perdido dois HDs, a bateria não sustentava sem o carregador, enfim. E assim, eu ministrei uma oficina em 2023, que era sobre a simplicidade de você produzir com pouco.

Eu não produzo com muito, eu não tenho muito. Eu pego o tempo livre que eu tenho e vou catando os drumkits, uso os plugins normais do FL, às vezes baixo um sintetizador pra fazer alguma coisa. Eu baixo muitos samples da internet, eu ripo muita coisa. O samplette.io tem vários bagulhos que a gente pode samplear. Eu tento produzir com o pouco que eu tenho — os meus projetos não tem muita automação, sou eu tentando fazer o máximo com pouco, porque se eu tentasse botar muita coisa dentro do projeto, o computador crashava.

Se você ver, por exemplo, um projeto do Enigma, ou do Agazero, eu sinto muito mais complexidade na forma como eles fazem as coisas. E eu vejo que eu tento simplificar, eu quero que soe bem com o que eu tenho. Mas eu já tive auxílio em mix e master. "Modo Mola" foi o Matesu que fez a master; "Robozão Riddim", foi o NMS, que também é outra pessoa importante no meu crescimento. Ele é daqui, conterrâneo, que tá morando em BH e é um dos melhores engenheiros de áudio que tem.

Então, sempre que dá, eu mando uma track pra ele pra ver o que ele acha, o que pode melhorar e tudo. Eu sempre tô disposto a ouvir o que as pessoas dizem. Você tem que ter peito pra ouvir quando a sua música não tá batendo. Da mesma forma que você pode ter peito pra dizer: "pô, essa música tá foda".

Você tá vivendo a vida, você tá disposto a trocar relações com as pessoas. Eu fiz muitas relações legais no meio da música por causa da internet, porque a maioria eu nunca nem vi na vida. Eu nunca vi essas pessoas e essas pessoas têm um carinho — e eu tenho um carinho por essas pessoas que só a música pode me proporcionar. Por isso que eu devo tanto ao rolê de grime, porque me deu uma nova vida.

Para finalizar, eu queria entender como que você faz para se relacionar com o pessoal da cena estando longe das principais mobilizações. A internet permite um contato constante, mas você sente que consegue acompanhar o que acontece no resto do país?

Tem a questão financeira da coisa, porque como eu falei, eu moro num bairro nobre aqui, mas não sou uma pessoa com essa condição. A família tem a condição de se bancar, nunca faltou nada pra mim, mas a gente não tem a condição de tirar um lazer nas mesmas proporções que essa galera com mais grana, de viajar toda hora. Eu sinto que eu tô fazendo a minha parte, mas eu tenho vontade de ter a vivência de lá. De conhecer os rolês, trocar ideia com a rapaziada. Mas a internet é um bagulho muito bom pra quem é de fora, de como você vê os relacionamentos das pessoas entre si.

Você consegue ver uma pessoa que tá de mancada na internet, e você sabe que se você for pra lá, você não vai sair com essa pessoa, tá ligado? Você consegue ver como funciona, você consegue acompanhar as festas, como funcionam as festas, as pessoas que tão nesses locais. Mas eu sinto que existe uma mobilização pra trazer mais pessoas de fora do país do que gente de dentro.

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@aura__uk tocando "BASS & MURRO" (VIANA PROD)

As minhas músicas tocam em vários estados do Brasil, mas dificilmente essas festas têm verba pra me levar para lá. E pra mim, é muito caro viabilizar uma ida, uma passagem de avião. Eu tento entender, porque não tem ninguém financiando nada. E aí, a única forma que eu tenho de me conectar com essas pessoas é pela internet. E na internet a gente vai acompanhando de tudo um pouco.

Eu fico fazendo o meu — não sou muito de dar pitaco na internet. Eu tô tentando criar o meu nome dentro da minha cidade, trabalhando o tempo todo. Eu não boto nem a minha cara na internet.

Eu não tenho a vivência que essas pessoas têm, de festa, de viver numa cidade caótica que é São Paulo, Rio de Janeiro, BH, Curitiba. Eu não tenho tanto pique pra essa rotina das festas. Às 6 horas da manhã eu já tô cansado, querendo ir pra minha casa, porque às 9, 10 horas, eu tô tendo que ir pro supermercado comprar coisa lá pra casa.

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Zoe Beats tocando a faixa "Lambeth Yardies Refix" (VIANA PROD)

São outras vivências, mas eu tenho vontade de conhecer. Muita vontade, mesmo, de estar num ambiente que as pessoas entendam minimamente o que eu faço — porque eu ainda tou construindo isso aqui em Teresina. Eu prefiro esperar. Continuo fazendo as minhas coisas, muito feliz de saber que a minha música toca em todos os lugares, que tem pessoas que querem me levar. Eu espero muito que eu consiga ir pra esses lugares, como eu já fui em Fortaleza, que é o local fora de Teresina que eu mais tenho conseguido frequentar nas festas. Eu tô distante, mas tô daqui.

A minha DM é aberta, o pessoal pode mandar mensagem pra mim — querendo falar sobre música, ou com dúvida de alguma coisa. Eu tento não deixar de responder ninguém, tento dar atenção pra todo mundo. Agora, pra mim a questão é eu me desenvolver aqui. Eu conseguir me erguer, ajudar os meus, e se eu conseguir crescer nesse bagulho, eu vou levar quem tá comigo. Desenvolver os meus comigo, porque só o que eu tenho hoje são pessoas rodeadas de arte.

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DJUL3S tocando a faixa "PROCESSOS RIDDIM" (VIANA PROD)


Acompanhe o trabalho de VIANA pelas redes sociais e ouças as suas produções no Spotify, SoundCloud, BandCamp e YouTube.


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