Somos todos americanos

Benito Antonio Martinez Ocasio, o Bad Bunny, fez o mundo amanhecer mais latino

Somos todos americanos

Quando Bad Bunny foi oficialmente anunciado como o artista responsável pelo show do intervalo do Super Bowl, em setembro do ano passado, a expectativa foi às alturas. O evento já vinha de uma sequência impressionante de shows, como o do Kendrick Lamar (2025), o retorno de Rihanna aos palcos depois de 7 anos (2023) e a homenagem à cultura hip-hop em 2022. Mas Benito tinha um sabor todo especial. Primeiro, por ser o primeiro artista latino a subir solo no maior palco do país, em um momento em que a presença de pessoas como ele incomoda uma parcela significativa dos norte-americanos. Segundo, porque parecia ser a definição de que aquele era o ano do artista porto-riquenho, que no começo de 2025 lançou seu mais recente álbum, Debí Tirar Más Fotos.

Dali pra frente foi uma escalada até o topo do entretenimento: clipes exaltando a América Latina, residência artística em Porto Rico com shows exclusivos para os locais, tour mundial que não passou pelos EUA, show no Tiny Desk, além de campanhas publicitárias para marcas como Calvin Klein e Jacquemus, além dos tênis assinados pela Adidas, parceria que começou lá em 2021.

A performance do Bad Bunny no Superbowl 60

A cereja do bolo chegou com o Grammy de Álbum do Ano, com o detalhe de ser o primeiro álbum todo cantado em espanhol a receber o prêmio em mais de 60 anos, o que é bizarro e já mostra um pouco do perfil da premiação que se vende como a grande cerimônia da indústria da música. No discurso, assim como uma boa parte dos demais vencedores, Benito reforçou sua posição contra o serviço de imigração e dos EUA e agradeceu à sua pátria-mãe.

Com todos esses acontecimentos, o ano não foi significativo somente para ele como indivíduo, mas para toda a comunidade que representa. Se já falamos por aqui, como ser brasileiro tem sido cada vez mais valorizado, o complexo de vira-lata latino-americano também tem se transformado em orgulho, e mais, há quem diga que todo mundo agora quer ser latino. Os códigos, estéticas, cores, vestimentas, comportamentos e a cultura, pipocam em diferentes mídias, e as escolhas de Benito contribuem para que fãs corram para aprender espanhol antes do show. 

Dito isso, a expectativa era gigante, e no último 8 de fevereiro, a maior audiência da TV norte americana atraiu os olhos de todo o continente para o Levi’s Stadium, que se transformou em ilha caribenha. “Como é bom ser latino” é a frase que abre o espetáculo e, para mim, só isso já seria um baita soco no estômago de quem há anos tenta desqualificar um povo que luta por melhores condições enquanto é boicotado por políticas imperialistas e golpes de estado financiados por capital exterior, geralmente em dólar. A resposta da violência veio com um sorriso.

O que rolou a seguir foram barracas de coco gelado, senhores com suas camisas de botão entreabertas jogando dominó em mesa de plástico, uma manicure fazendo unha de gel, carrinhos de comida de rua e até o clássico “compro e vendo ouro”, cenas cotidianas para nós, mesmo que nunca tenhamos pisado em Porto Rico ou qualquer outro país do continente. Esses elementos que caracterizam a economia informal, que para nós é o “jeitinho brasileiro”, agora é o “jeitinho latino”. Até a criança dormindo largada no meio da festa estava lá presente e me fez lembrar das inúmeras sonecas que tirei na infância.

Entre os convidados para assistir direto do gramado, estavam Cardi B, Karol G, Jessica Alba, Pedro Pascal e outros artistas de diferentes ascendências, mas todos com raízes imigrantes. E falando em imigrante, sobrou até pra Lady Gaga, que sempre se declarou italiana, deu uma palhinha no show, que também teve Rick Martin nos vocais de Lo Que Le Pasó a Hawaii

Para quem tava perdido, as letras apareciam no telão, em espanhol, claro, algo impensável há alguns anos, quando artistas de outros países precisavam se moldar, na língua e na estética, para alcançar novos públicos. Desde Shakira, se discute sobre quem seria o próximo artista a ocupar espaços tão relevantes, e Benito ousou apagar a fronteira e fazer a América se reconhecer latina.

A escolha dele não foi em vão ou inocente, já que estamos falando de uma comunidade com poder econômico e que é um ponto de interesse para investidores. A NFL está há algum tempo buscando expandir o esporte para outros países, promovendo jogos fora dos EUA, como os realizados no Brasil, e se conectar com essa massa é estratégico. Não dá mais pra desconsiderar o impacto econômico e cultural de um povo que está se tornando tendência global. 

Claro que nem todo mundo estava feliz, e mesmo antes da apresentação figuras públicas declararam serem contra a apresentação. Em pesquisa anônima feita com atletas da liga, 41% disse estar infeliz com a escolha do nome de Bad Bunny para o show do intervalo, e entre as motivações estavam desde o desinteresse em artistas não-americanos, à vontade de ver pessoas conectadas com a cultura do esporte. O curioso foi ver que, ao listarem os artistas que mais gostariam de assistir, o canadense Drake figurou em segundo lugar.

O movimento de direita Turning Point, fundado pelo ativista conservador Charlie Kirk, foi além e decidiu fazer o próprio show do intervalo. O All-American Halftime Show teve Kid Rock como principal atração e, apesar de parecer uma grande piada, teve uma baita adesão. No momento de publicação deste texto, o vídeo da apresentação de Bad Bunny está com 22.6 milhões de visualizações, enquanto o da Turning Point bate 19.7 milhões, mostrando que mais do que um conflito ideológico, estamos presenciando uma guerra cultural.

A resistência desses 41% de atletas da liga revela que o esporte ainda é um dos principais redutos do nacionalismo conservador contemporâneo. O futebol na Espanha é um exemplo muito próximo, e a capacidade de mobilizar nichos é um parâmetro para avalizar o sucesso nessa batalha por narrativas, travada nas trincheiras do algoritmo. 

No pós shows, o dito homem mais poderoso do mundo disse em sua rede social que o show foi um dos piores da história, “uma afronta à grandeza da América e não representa nossos padrões de sucesso, criatividade e excelência”. Por outro lado, o planeta acordou mais latino do que nunca, e claro que nos expressamos da melhor forma possível: por meio de memes. A enxurrada de vídeos no TikTok, tweets, e posts no Instagram feita por criadores de todas as partes da América, mostra que existe uma maneira de nos conectarmos, e de forma ativa, como protagonistas.

O Super Bowl nunca foi exatamente um palco político, servindo principalmente para entreter o público enquanto assistem propagandas e aguardam o retorno dos jogos. Os EUA são excelentes showmakers, e tocam a indústria do entretenimento como ninguém, mas ontem o tiro saiu pela culatra. Um dos maiores palcos do mundo mostrou a união de um povo que anda com medo de se manifestar, de sair nas ruas, de viajar e de se declarar orgulhoso. Claro, ainda não sabemos se haverá retaliação, e de que forma as estruturas de poder norte-americanas podem se manifestar ou impedir futuras manifestações. Mas de uma coisa podem ter certeza: que dia bom para ser latino-americano.


ISMO
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