O Roots do Sepultura mudou o jogo no metal

O último disco do Sepultura com Max Cavalera completa 30 anos e influenciou novos subgêneros do metal ao trazer novos grooves pra dentro da cena

O Roots do Sepultura mudou o jogo no metal

Em 1996, a cena do metal estava começando a ficar multifacetada. Na verdade era um momento de transição pro rock em geral, com o grunge em declínio e o metal tradicional buscando novos caminhos, permitindo que diversos gêneros se solidificassem e que obras que na época eram consideradas experimentais, hoje se tornem padrão para o que viria a seguir. Foi nessa safra que surgiu o sexto álbum de estúdio do Sepultura, o Roots, o último com Max Cavalera nos vocais. 

“O disco foi lançado na hora certa e no momento certo”, comenta Luiz Alcamin, designer, ilustrador, apresentador no Baile do Capiroto, entre outras várias alcunhas, mas que hoje é nosso parceiro pra falar sobre o Roots. “Algumas bandas, como o Metallica, estavam extrapolando o cenário do metal e se tornando bandas globais de rock. O Sepultura em 1996 era a maior banda de metal do mundo, dessa coisa nichada, talvez ao lado do Pantera, mas o Sepultura tinha apelo com um público maior, algo mais global, vindo do Brasil e tendo uma cultura diversificada”. 

O Sepultura foi o maior expoente latino da música pesada a fazer sucesso globalmente e isso trouxe uma atenção diferente para a banda. Diferente de outras que se enfiavam cada vez mais em seus subgêneros e deixavam seu som ainda mais nichado, o Sepultura trouxe novos elementos para seu som e o fez ainda mais diverso. 

A capa de Roots traz um índio brasileiro presente na antiga nota de mil cruzeiros

O Nu Metal e a influência inversamente proporcional no Roots 

Se a gente falar que o álbum de estréia de 1994 do Korn, o homônimo, é o disco que marca o início do Nu Metal, a gente pode falar também que foi uma sequência ao que o Max e o Igor Cavallera estavam fazendo com a sonoridade do Sepultura. Vale lembrar que em 1993, o álbum Chaos A.D. já trazia grooves diferentes e, em diversas vezes, foi citado pelas bandas de Nu Metal como uma inspiração nesse começo do gênero. 

“O Dana Wells, enteado do Max, sempre trazia esses sons novos que ouvia, tipo Deftones e Korn, e os caras curtiam o que estavam ouvindo. O Sepultura já estava fazendo essa ruputa com o thrash e death metal no Chaos A.D. e ficou mais fácil assimilar esse lance do nu metal, com as guitarras de timbres mais baixos e baterias mais groovadas”, comenta o Luiz. O Sepultura já fazia esse tipo de som e tinha esse background cultural, por serem brasileiros, do batuque, do samba, das rodas de percussão e isso ficou muito fácil de ser cooptado pela banda nos próximos sons que criariam. 

Para produção do Roots, o Sepultura chama então o Ross Robinson, produtor norte-americano que é considerado um dos padrinhos do Nu Metal, tendo produzido os primeiros discos do Korn e do Limp Bizkit. “Ter chamado o Ross para produzir esse disco foi a cereja do bolo, foi o que precisava ser feito”, comenta o Luiz. 

O Nu Metal viria preencher um vácuo da música pesada nos anos 90, conversando com um público jovem, com suas revoltas que não necessariamente eram religiosas ou em prol do satanás, em letras de protesto contra a sociedade e coisas do dia a dia. O Luiz relembra: “A galera que cresceu nos anos 80 e fez suas músicas, ainda estava muito apegada ao fim do mundo, às tretas da Guerra Fria, era um futuro incerto e caótico. Quando o Muro de Berlim caiu e o capitalismo se estabilizou como grande poder econômico global, foi quando os Estados Unidos prosperou, tendo a possibilidade de todo mundo ali, sendo trabalhador, ter uma vida boa - então a juventude do fim dos anos 90 nos EUA não tinha muito o que se revoltar e o Nu Metal pegou essa parte da introspecção, do bullying, do não ser aceito visualmente e a galera se identificou muito com isso”. 

Jonathan Davis (Korn) e Max Cavalera nos anos 90

Mas além das letras, o Sepultura influenciaria no som, uma vez que trazia percussões que antes não eram tão comuns assim no thrash e death metal. No Chaos A.D., a percussão de Refuse/Resist, com a adição do Olodum, fazia um som diferente, tribal, algo que o Nu Metal se inspiraria muito nos anos seguintes. Como Iggor Cavalera comenta em seu canal de Youtube, "foi uma mistura de tamborim e batidas de samba e essa foi uma das primeiras vezes que misturei música pesada com ritmos brasileiros".

Se o Chaos A.D. inspirou as bandas de Nu Metal a fazerem seus primeiros discos, estes por sua vez, inspiraram o Sepultura a continuar na saga das percussões e incorporar ainda mais esse tipo de som no Roots. 

Percussão e origens brasileiras 

Mas enquanto o Nu Metal estava cantando as dores internas, o Sepultura trouxe sua ancestralidade como plano principal e deixou claro que era preciso olhar pra dentro para buscar a inspiração. Desde a capa, às letras e até aos clipes, o Sepultura trouxe o Brasil inteiramente no Roots, fazendo desse disco um marco de referência e poder para o povo latino. 

O Sepultura trouxe o espírito da época e o transformou, levando aquilo que era norte-americano a um outro patamar, colocando influências de outros locais no som. No single mais marcante do álbum, o Roots Bloody Roots, a banda trazia percussões tribais e riffs em baixa afinação. No clipe, as influências eram ainda mais diversas, tendo capoeira, danças africanas, grupo de percussão da Bahia, santos barrocos - tudo gravado aqui no Brasil. 

Para o Roots, o Sepultura fez uma imersão na cultura brasileira, trazendo elementos diversos. Na percussão, Carlinhos Brown aparece como um dos nomes que gravaram, junto de membros do Korn e do próprio produtor Ross Robinson. Em Atittude, um berimbau começa a música e é tocado pelo Max Cavalera e Royce Gracie, lendário lutador de Jiu Jitsu Brasileiro protagoniza o clipe. 

Max Cavalera em encontro com a tribo Xavante, em 1995

As letras traziam questões brasileiras para o assunto. Ambush falava sobre Chico Mendes, Endangered Species sobre a devastação da floresta amazônica e Dictatorshit sobre a ditadura Militar. Em Ratamahatta, Max divide os vocais com Carlinhos Brown e a letra é uma chuva de referências brasileiras ao longo de seus um pouco mais de 3 minutos.

Em Itsári, o Sepultura foi até uma tribo xavante, com a ajuda da jornalista Angela Pappiani, e gravaram sua participação no disco. Esse é o encontro mais emblemático e mais significativo do disco e é algo lembrado e celebrado pelos fãs até hoje.

Documentário de Silvestre Campe sobre o rolê do Sepultura com uma tribo Xavante

A influência global do Roots 

Roots lançado em 1996, muito que bem, muito legal - Max Cavalera sai do Sepultura no mesmo ano. Mas mesmo com a saída dele, muitas bandas pegaram o vácuo que o Roots deixou e as gravadoras entenderam que era o momento do Nu Metal se solidificar ainda mais e investir nesse tipo de som que estava fazendo a cabeça dos jovens. 

“Pra mim, a banda que mais pegou essa raiz do Sepultura e levou em frente foi o Slipknot”, reflete o Luiz. “A banda pegou o que o Sepultura fez no Roots e colocou DJ, sampler, percussão – pra mim foi a que mais levou o espírito do disco em frente”. 

O Roots foi aclamado no mundo todo, influenciando bandas por onde fosse tocado. Fato é que as influências brasileiras e o fato de colocar sonoridades locais, trouxeram uma possibilidade de colocar sua própria influência no metal extremo, seja você originário de onde fosse. O Sepultura, com o Roots, mostrou que fazer metal era mais do que só copiar os gringos - era trazer sua identidade própria e contar suas próprias histórias. 


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