Ramilson Maia foi um dos primeiros a misturar eletrônica com brasilidades
O DJ e produtor baiano achou na mistura do Drum’n’Bass um lugar para fazer sucesso - e deu muito certo
Quando a música eletrônica no Brasil começou a misturar elementos da nossa própria cultura, como a Bossa Nova e a MPB, foi algo muito mágico. Em pouco tempo, DJs e produtores já estavam fazendo sucesso tocando hits que mesclavam as batidas rápidas de Drum’n’Bass com vocais cantados de novas músicas ou de clássicos da nossa sonoridade.
Dentre os nomes que mais se destacavam, Ramilson Maia foi um que chamou atenção para além de um só hit. Ele foi um dos primeiros a misturar “cuíca com eletrônico”, trouxe elementos do nosso som na música de balada e logo ganhou destaque na cena. Com o grupo Kaleidoscópio e fazendo remixes para vários cantores e cantoras dos anos 2000, Ramilson tem no seu bolso as clássicas Tem Que Valer, Busca da Vida, Você me Apareceu, entre muitos outros, com a colaboração de pessoas muito importantes para a cena, como o Xerxes, Mad Zoo, os irmãos Borato, Janaína Lima etc.
Dando sequência à nossa série de matérias e entrevistas sobre o Drum’n’Bass brasileiro aqui na ISMO, hoje a gente bate um papo com o Ramilson, fala sobre seu começo no gênero, sobre o projeto Kaleidoscópio e sobre as andanças enquanto fazedor de música pelo mundo afora.
No começo dos anos 90 você começou a discotecar e em 96 começou a produzir. Quando você conheceu o Drum’n’Bass?
O Drum’n’Bass entrou na minha vida como um desafio, sabe? Eu já fazia house, hard techno, tudo muito experimental. Eu nunca estudei música, foi tudo na base do autodidata, testando as coisas, como uma pintura, fazendo e evoluindo. Nessa época eu já conhecia o Xerxes, de um concurso de fazer música da Rock n Soul, já tinha uns 2, 3 anos que eu o conhecia. Nesse concurso ele fez uma música chamada Power to the People, era underground do underground, ele fez tudo picotado na gilete, num toca fitas de rolo, ele transcreveu tudo isso, uma doideira, mas ficou muito louca.
Enquanto isso, eu trabalhava na Galeria da 24 de maio e fazia umas coisas com o Alex Hunt, que foi o cara que me incentivou, pegou na minha mão e falou “vamos”. Eu pegava uns discos, ia no estúdio e começava a produzir umas músicas - que foi quando começou a minha história de produtor.
Resumindo, fiz 6 músicas com eles e vendi 3 para uma gravadora americana chamada Play it Loud, do Louis Benedetti, que era a pessoa que fornecia os discos internacionais para a loja onde eu trabalhava e para outras da Galeria. Ele curtiu as músicas, lançou por lá, me pagou e já era. Foi fácil? Na real demorou uns 6 meses para eu fazer essas músicas com o Alex e até afirmar que a música estava legal, tudo levou um tempo. A grande diferença do cara ter curtido minha música, foi que eu sempre pensava diferente, sempre colocava coisas do Brasil - comecei a colocar cuíca, berimbau, o que eu acho que foi a grande sacada pra galera dos Estados Unidos curtirem minha música e acabarem comprando.
Essa originalidade de estar com a música brasileira nesse caldeirão da música eletrônica sempre esteve em mim, sabe? O encontro com o Drum’n’Bass não foi um acaso, mas foi um desafio. Nessa época eu morava no centro de São Paulo e o Xerxes morava na Vila Alpina e eu combinava com ele de ir uma vez por semana lá para ver ele produzindo. Eu ficava a noite inteira lá, às vezes dias, depois voltava para trabalhar logo de manhã. Nessa época ele já estava com computador e samples e estava produzindo os Drum’n’Bass.
Foi amor à primeira vista, porque pra você colocar as músicas brasileiras no House, fica um negócio meio duro, não rola tanto. Já no Drum’n’Bass, é mais fluído, tanto que nossas músicas fizeram sucesso, Carolina Carol Bela, Sambassim, Só Tinha que ser com você, samples do Jorge Ben, Tom Jobim, tudo vem do samba-rock e da MPB.
O Xerxes estava fazendo a música The Secrets of the Floating Island, que tinha uma coisa da Bossa Nova, eu falei “é isso”. Eu querer fazer Drum’n’Bass foi a influência do Xerxes total! Aí ele ficava na minha bota falando “mano, compra os equipamentos”, e eu não tinha na época ainda. Aí nessas de produzir com ele e com o Alex, a gente foi convidado pela Trama pra fazer um disco, eu, Xerxes e o Mad Zoo, a convite do Bruno E. Com essa primeira grana da Trama, eu comprei um sampler.
Mas cara, eu não tinha muita informação, sabe? Hoje você pesquisa sobre fazer música de ponta cabeça e os caras ensinam! Eu comprei um sampler e mal sabia usar, o Mad Zoo me ajudou muito nessa época, ficávamos a noite inteira mexendo, estudando… Foi uma época muito prazerosa, de muito aprendizado e muito amor. A gente virava a noite fazendo música, era muito legal. Ah, e detalhe, às vezes você passava a noite toda fazendo música e aí salvava naquela merda daqueles disquetes, sabe? Aí ia botar no computador de outra pessoa e não ia, perdia tudo (risos).
Eu sempre ouço o nome do Xerxes e do Mad Zoo quando o assunto é Drum’n’Bass. O quanto eles foram importantes no gênero?
Cara, falando em poucas palavras, essas duas pessoas foram tudo na minha vida do que eu sei de música. Deus colocou dois gênios na minha vida, o Xerxes e o Mad Zoo, eles foram meus mentores, que falaram pra mim de computador, de sampler… Nem consigo colocar em palavras do quanto os caras fizeram por mim.

Qual a importância da Trama e da Sambaloco nessa alta do gênero?
A Sambaloco foi a casa do Drum’n’Bass no Brasil. O Alex Hunt deu o primeiro passo pra mim, o Xerxes e o Mad Zoo deram uma lapidada e a Trama e Sambaloco foram o lugar onde me senti acolhido artisticamente, onde fui reconhecido e onde me deu autonomia pra fazer o que eu quisesse. Eles deram uma grana pra gente e falaram pra gente, para cada um de nós, fazer um disco. Esse tipo de credibilidade e liberdade criativa foi foda, mas a gente sempre teve pé no chão, sabíamos que era grande mas tínhamos que trabalhar muito e valorizar aquilo.
Foi uma parada que deu muito certo de um dia pro outro. Num dia a gente estava fazendo os discos, no outro estava dando entrevista para rádio e TV. De 1999 para 2000, quando falaram que o mundo ia acabar (risos) eu toquei pra um milhão de pessoas em Copacabana em um evento da Trama, olha que loucura, eu tinha 26 anos! Foi muito foda, fizemos o Trama na Rua no Canal 21 fazendo festa na rua, tive oportunidade de tocar com o Tom Zé, Jair Rodrigues… É muita coisa!
Muita gente fez coisa grande nessa época, né? Mas por que, muitas vezes, as pessoas atrelam o gênero só ao Marky e ao Patife?
Não tem uma resposta certa, mas posso te falar algumas coisas que rolaram. O fato dos caras terem um manager na época foi algo que influenciou eles a aparecerem mais na mídia, sabe? É normal, é igual jogador de futebol, quem era melhor gerido, aparecia mais. Fora que tem também a personalidade de cada um, tem gente que é mais introvertido, outros mais soltos. O Xerxes e o Mad Zoo, que falamos mais cedo, eram pessoas mais fechadas, por exemplo.
Então aquele que é mais extrovertido, ou que é mais técnico, ou até mais bonito, esses caras vão se destacar. Quando o Patife foi lá pra fora e trouxe a atenção dos caras e vieram pra cá pra conhecer nossa cena, que era muito forte e ativa, eles também viram uma oportunidade de ganhar uma grana com eles. Os gringos adoram o Patife, não tem quem não goste dele! O Marky é muito técnico, então impressiona e todos querem ter perto.
O Patife é um cara bom, de coração bom, te conecta, te insere, um cara foda. O Marky tem muita técnica, é muito bom, muito skills. E tem uma outra parada também que influenciou bastante que é o nosso caráter de colonizado - na minha época, nada nacional prestava na cabeça da galera, de tênis a música, e até hoje a gente vive isso. Por exemplo, o mundo ama o funk e o brasileiro odeia. E quando eles estouraram lá fora, aqui ganharam mais conceito.
Mas inegavelmente os caras trouxeram uma mídia que eu e outras pessoas do movimento nunca trouxemos.
Como foi fazer o projeto Kaleidoscópio? Qual a importância dele na sua carreira?
Foi muito louco. Quando eu terminei meu contrato de Trama, peguei e fiz um disco de mixagens, O Drum’n’Bass Brazuca Vol.1 e saiu em várias matérias, o Camilo Rocha, Claudia Assef e Erika Palomino, essa galera me ajudou muito nesse sentido de mostrar meu som pra mais pessoas. Com isso, a Trama me chamou pra assinar de novo com eles, mas acabei não fechando, não queria ficar amarrado com alguma gravadora na época.
Aí fiz um trabalho pro Mercado Mundo Mix, eles tinham um label, fiz uma música e os caras me colocaram em contato com o Jorge Boratto, irmão do Gui, e quando a gente se conheceu, parecia que era amigo de muito tempo. No mesmo dia a gente quis fazer algo junto. Eu colei na casa dele e do Gui e eles me apresentaram o violão que foi sample da música Tem que Valer. No dia seguinte, a gente já fez a música!
Tem Que Valer teve duas versões de clipe
Nesse contato a gente fez o Kaleidoscópio, depois fizemos a gravadora Mega Music, que era eu, eles e o Kevin Phillips, que era nosso sócio. Depois de uns meses, a gente quis fazer vinis para dar na mão das pessoas irem tocar nos lugares - quando ficou pronto, eu pulverizei na mão dos DJs, era um disco com a música Tem Que Valer e ela tinha algumas versões.
Depois disso, a música deu muito certo. A gente foi fazer uma festa da Rádio Energia 97 no Parque São Jorge e eu chamei a Janaína pra cantar e quando chamaram a gente pra tocar, numa cabine no meio da quadra, a gente deu o play e a galera começou a gritar, começou a cantar junto, gente pra caramba… Ali eu entendi que a música tinha algo especial, sabe?
Depois, outra situação, eu fui na Disco, na Faria Lima em São Paulo, uma balada de boyzão, champagne de 20 mil (risos). Quem tocava era o Felipe Venâncio, meu amigo, e chamou a gente e a gente mandou o disco pra ele tocar lá - ele tocou 5x na noite falando “quero que se foda, a música é boa, eu vou tocar!” (risos). Nunca vou esquecer disso.
A gente começou a tocar muito depois disso, arrumamos um manager que era o mesmo cara que vendia o Charlie Brown Jr., e colocou a gente em várias paradas, rodamos o Brasil todo. Isso era 2002 e o ano seguinte, fomos pra Europa e vendemos para a gravadora chamada Irma Records e moramos lá 2 anos, conhecendo todo o Leste Europeu, tocamos em todo lugar, Itália, França, até Japão, Coreia do Sul… Foi uma universidade de cultura, conhecimento, tudo na raça, fazendo amizade nos lugares, foi muito mágico.


A Janaína Lima era a voz por trás do Kaleidoscópio
O Dnb teve uma ascensão muito gigante em curto espaço de tempo, mas ao mesmo tempo, foi indo embora dos holofotes de forma rápida também. Como foi pra vocês isso? Quando que você teve uma noção de que talvez não era mais o gênero mais em alta?
Acho que tem algumas coisas pra ponderar. Uma coisa é que o Brasil é muito imediatista e quem está na crista é só quem a mídia diz. Por exemplo, falamos do Marky e do Patife, foram os caras que tiveram a imagem mais trabalhada. Um segundo ponto, foi que o os próprios artistas, eu, Xerxes e outros, não alimentamos a cena como ela devia ser alimentada. Como isso? Por exemplo, quando o Lov.e, que era uma base geral pra gente do movimento, colocou o Marlboro tocando funk e tiraram o Marky, vi ali que tinha miado pra gente, que a gente tinha perdido nossa base.
Fora que a nossa própria galera mesmo tinha ficado de saco cheio de fazer música misturando violão e banquinho com o eletrônico. Quando o Xerxes não quis mais fazer, ele que era o construtor da parada, ali eu vi também que já era, deu um desânimo geral.
Não tinha muita mídia pra geral, não tinha gente pra trabalhar com todo mundo. Eu mesmo, só cheguei onde cheguei, porque a gente foi lá pra fora com o Kaleidoscópio e tocou em lugares que ninguém mais foi.



Emirados Árabes, Ásia e Leste Europeu - as muitas andanças do Ramilson
E depois que deu essa baixa, o que você decidiu fazer da sua carreira?
Teve que fazer o que dava pra fazer. Trampos de publicidade, fazer House, a cena geral da música eletrônica foi se modificando pra continuar existindo e continuar trampando com isso. Toda cena, independente de subgênero, deu uma caída boa. Se o Drum’n’Bass foi ao zero, o House, por exemplo, foi ao um.
E no que você está trampando hoje?
Eu sempre estive na rádio. Fiquei na 97 uns 9 anos, tinha um programa de sábado chamado Produção Nacional e depois fui pro domingo em um programa chamado Plug-In.
No final de 2025, um amigo me apresentou a rádio Guardiã da Notícia e chegando lá eu já conhecia a dona. Ela me ofereceu pra fazer e temos um programa de entrevista, chamando uma galera da música eletrônica pra trocar ideia.
Hoje também tenho um trabalho com mentoria em produção musical. A pessoa pode aprender comigo como produzir. Trabalho com qualquer estilo de música, passando meu conhecimento pra frente.
Por falar nisso, na produção, um dos últimos trampos que saíram foi a versão House de Agora é Minha Vez, para a Fernanda Porto. Esse single faz parte também dos selos que a gente está lançando com a DNBB.
Na música, hoje pra fazer sucesso tem que andar no mainstream e no nicho, está tudo muito globalizado. É legal sair da caixinha e por isso a música é muito foda, ela não te limita nada pra fazer as paradas. Por exemplo, com o Kaleidoscópio, a gente nunca foi taxado só de Drum’n’Bass, era algo mais, nunca só uma coisa. Quando você fica grande, não é só mais uma coisa, tipo Madonna, Metallica… Acho importante o nicho gostar de você, o nicho é o seu alicerce. Mas a música te possibilita tudo.