Rainha VL 2500: o tênis que aprendeu a dançar frevo
Como um tênis de vôlei virou a ferramenta de performance mais legítima do carnaval pernambucano (sem que a indústria percebesse)
Dando sequência a esta série especial aqui na ISMO, a gente mantém o recorte que nos trouxe até aqui: pensar a cultura sneaker a partir da festa mais brasileira de todas, o carnaval. Nos dois primeiros textos, atravessamos o bate-bola do subúrbio carioca e o maracatu rural de Pernambuco para observar como o tênis vira símbolo, ornamento e homenagem. Agora, com o frevo, o foco muda levemente: o sneaker não é adereço, é ferramenta. Aliás, o sneaker, não - o Rainha VL 2500.
Eu gosto de começar do começo
A Rainha nasceu em 1934, no bairro do Brás, em São Paulo, pelas mãos da família Saad, pioneira na vulcanização de solados no Brasil. A marca chegou primeiro às elites urbanas, com calçados impermeáveis e duráveis, e depois conquistou as massas com uma virada nos anos 1980. Foi quando a Alpargatas entrou no jogo, lançou tecnologias próprias como o Rainha System e transformou seus modelos em febre de academia, quadra e rua.


Rainha System
O VL 2500 surge nesse contexto. Criado no início dos anos 1980 como tênis para vôlei e futsal, era leve, flexível e resistente. Tinha cabedal de lona, sola vulcanizada com boa aderência e perfil baixo, tudo pensado para quadras, mas que acabou traçando alguns caminhos que não estavam no radar da marca.


Rainha VL 2500
Antes dele, o improviso
Até os anos 1990, o frevo era dançado com o que se tinha à mão: Keds, Conga, Bamba, às vezes até chinelos de borracha ou sapatilhas de pano. Nenhum deles foi projetado para a intensidade da rua. Rasgavam, escorregavam, queimavam o pé.
Mas, calma. Não é como se a Rainha estivesse olhando para essa oportunidade de mercado. O que veio a seguir foi espontâneo.
Das quadras às ladeiras
O que se sabia do VL 2500 até aqui era sua ficha técnica: leve, flexível, solado resistente, feito para quadra. Mas em algum momento esse tênis saiu do esporte, entrou nas ruas de Olinda e passou a calçar gente que gira, agacha, desliza e dança.
O VL 2500 chegou ao frevo sem alarde. Não foi lançado com campanha, nem nasceu de uma colab. Ganhou espaço pelo caminho mais silencioso: a sola. Entre o calor do asfalto, os paralelepípedos úmidos e os giros rápidos do corpo, o tênis da Rainha foi sendo escolhido, ano após ano, por quem precisava dançar sem escorregar.
Enquanto o mercado empilhava tecnologias para corrida ou lifestyle, o frevo demandava outra engenharia. O passista precisa de tração, mas também de leveza. De firmeza, mas também de maleabilidade. O VL 2500 nunca se propôs a servir para o frevo, mas suas características se mostraram perfeitas para ele.



Clara Virgolino com tênis customizado por Tiago Henrique (Foto: Daniel Domingos)
Estamos falando de uma ferramenta
Quando um objeto muda de uso, muda também de significado. O VL 2500 foi feito para o vôlei, mas passou a funcionar em outros ambientes, com outras demandas. E foi nessa adaptação que ele ganhou um novo lugar, porque alguém encontrou nele o que precisava.
No frevo, ele permitiu muito. Foi colocado à prova e se mostrou perfeito para aquele uso e suas particularidades. Passou em todos os "wear tests", sem campanha de marca para isso, até então.
Algo parecido aconteceu na Capoeira de Angola. Ali também o VL 2500 apareceu, escolhido por critérios muito parecidos com os que fizeram a silhueta servir tão bem ao frevo. Nessas práticas, a relação com o tênis não passa por desejo de consumo. Passa por necessidade de corpo. Talvez aqui se distanciem da cultura sneaker, sendo muito mais um equipamento do que um objeto cultural (apesar de servir também como um marcador e mostrar pertencimento).


Aula de capoeira na UFU (esq.) e o capoeirista Leandro Marron (dir.)
O mercado acorda (tarde)
Em 2024, a Rainha lançou uma edição especial do VL 2500 inspirada no frevo. Foi a primeira vez que a marca reconheceu publicamente um uso que existe há mais de trinta anos. A edição, assinada por Sancler Graffit, traz estampas coloridas e referências visuais ao carnaval pernambucano.
E aqui a lógica da indústria sneaker se mostrou, ainda que timidamente. A edição era limitada, com valor ligeiramente mais alto que as versões recorrentes do tênis. Homenagem, escassez e urgência. Quem acompanha a cultura sneaker e o mercado conhece bem essa fórmula.



Em 2024, a Rainha reconheceu o legado do VL 2500 no frevo com uma edição especial
Continuidade em movimento
O frevo é exigente. Pede precisão, leveza, resistência. Quem dança sabe que o corpo precisa de apoio firme e resposta rápida. E foi assim, pelo uso, que o VL 2500 começou a subir as ladeiras e se mostrou um excelente equipamento.
Durante muito tempo, foi só isso: equipamento. Estava nas lojas de bairro e nas ruas, durante o carnaval. Agora, aparece em campanha, ganha edição especial, tem sua história contada. Mas o que ainda sustenta sua presença nesse contexto é o caminho anterior. O uso, a escolha recorrente e a confiança construída.
O frevo não pede licença, e o VL 2500 também não pediu. Enquanto a indústria sneaker se perde em cronogramas de lançamentos globais e drops milimetricamente calculados, o passista pernambucano segue riscando o chão com a mesma lona de trinta anos atrás. No final das contas, o maior atestado de tecnologia de um tênis não está no laboratório, mas no paralelepípedo de Olinda às três da tarde. O Rainha não aprendeu a dançar frevo, ele foi feito pra isso, sem nem saber. E é lá, entre o suor e o látex gasto, que ele encontra sua forma mais honesta de existir.