Rafaela Pinah propõe um Brasil mais complexo em desfile da adidas

No retorno do RIOFW, o Megaride vira ponto de partida em desfile que cruza futebol, cultura periférica e uma leitura menos estreita do Brasil

Rafaela Pinah propõe um Brasil mais complexo em desfile da adidas

A volta do Rio Fashion Week ao calendário oficial da moda brasileira já seria motivo suficiente para a gente parar e olhar. Depois de uma década em silêncio, o evento retorna tentando fazer o que o Rio sabe de melhor: se reposicionar não apenas como um cartão-postal bonito, mas como uma plataforma real de pensamento e negócios. É nesse cenário que a adidas Originals escolhe entrar no line-up. E não entra só para lançar um tênis, embora o Megaride seja o centro material de tudo. O que está em jogo aqui é uma disputa de imagem: que Brasil a gente quer colocar na passarela?

Nos últimos anos, as grandes marcas entenderam (algumas pelo caminho mais difícil) que não dá mais para tratar a rua, a periferia ou o futebol como meros "temas" de campanha. O mercado aprendeu que esses códigos são, na verdade, linguagem, memória e pertencimento. Quando eles entram na moda, chegam carregados de uma história que a indústria não inventou.

É por isso que a escolha de Rafaela Pinah como diretora criativa desse desfile é o dado mais importante aqui. Essa decisão muda a natureza da apresentação. Sugere que a adidas quer mais do que reunir referências visuais que a gente já conhece; ela quer organizar uma leitura. E, ao que tudo indica, quer fazer isso sem reduzir o Brasil àquela coleção previsível de signos que a moda costuma acionar quando quer parecer "local".

Nem só nostalgia, nem só performance

Ainda faltam algumas semanas para o desfile, mas a marca já escalou o Megaride como protagonista. O enquadramento é aquele que a gente conhece: um ícone dos anos 2000 que atravessou as pistas de corrida e ganhou as ruas. Eu mesma já escrevi frases como "do esporte para as ruas" dezenas de vezes, sobre dezenas de modelos. É um vocabulário padrão, mas aqui tem um detalhe que merece atenção.

Ao recolocar esse modelo em circulação num desfile de moda, a adidas tenta reinscrevê-lo numa memória coletiva muito específica. No Brasil, esse tipo de tênis nunca foi "só" sobre performance. O vis-tech (essa tecnologia visível, agressiva) sempre foi uma forma de falar. Foi sinal de desejo, de distinção e de uma leitura de mundo muito própria dos territórios urbanos.

O Megaride retorna agora atravessado por um imaginário onde o sneaker funciona menos como acessório e mais como um marcador cultural. Futebol, rua, periferia, moda e camisa de time não aparecem como universos separados. Eles são partes de uma mesma paisagem, de um mesmo corpo em movimento.

Por aqui, essa história já ganhou um artigo só dela.

O que muda quando a Rafaela assume o comando

A essa altura, o exercício mais interessante não é apenas listar o que vai estar na passarela, mas entender quem está organizando essas peças. Com Rafaela Pinah (fundadora do Coolhunter Favela) na direção, a relação entre esses elementos ganha outra densidade.

Isso importa porque a rua não entra na passarela como uma textura neutra ou um "moodboard" estéril. Ela chega com história e com disputa. Quando a marca coloca a Rafaela nesse lugar, ela sinaliza que quer tratar esses códigos como uma linguagem que já existe antes da marca e que vai continuar existindo para além dela. É um reconhecimento de autoridade estética.

Um Brasil maior do que o repertório automático

Um ponto forte dessa construção está no que a gente vai ouvir no desfile. No evento de apresentação, Rafaela e seu parceiro de criação, Vitor, falaram sobre a trilha sonora. E aqui tem um sinal importante: em vez de irem direto para a resposta automática que a moda aciona quando quer soar brasileira (o funk), a trilha abre espaço para outros ritmos, como o carimbó.

A questão aqui não é bater palma porque a marca "foi além do óbvio". É perceber que, ao abrir o som para outras regiões e batidas, o desfile admite que o Brasil não cabe naquele pacote curto de referências que a cultura pop repete à exaustão. O país é muito mais complexo do que aquilo que a gente costuma exportar.

Essa escolha dá peso à fala da Rafaela sobre um olhar plural. No fundo, é uma tentativa de escapar de uma brasilidade pronta para consumo rápido. Num mercado que vive recorrendo aos mesmos sinais para dizer "Brasil", ampliar o repertório muda a forma como o país é ouvido, visto e, finalmente, transformado em imagem.

Entre a jersey culture e a moldura da passarela

A jersey culture ajuda a amarrar essa conversa. A camisa de time, hoje, faz muito mais do que remeter ao campo; ela circula como peça de estilo, como memória afetiva e afirmação de quem se é. Quando ela vai para a passarela, leva toda essa carga junto. É nessa tensão entre a rua e a moda que o desfile opera.

E vamos combinar uma coisa do ponto de vista mercadológico, sem ingenuidade: em ano de Copa do Mundo, o momento é perfeito para esse movimento.

Vale o lembrete: a moda não inventou nada disso. O que ela faz é reorganizar códigos que já circulam com força total nas calçadas. Nem o Megaride, nem a cultura de camisa começam no Pier Mauá. O desfile apenas reúne tudo isso numa moldura mais visível. E é aí que a curadoria da Rafaela se torna essencial: trata-se de como costurar esses retalhos sem perder de vista o fio da meada, que é a origem de cada um deles.

O Brasil que a marca tenta ouvir

No retorno do Rio Fashion Week, com o Megaride nos pés e a cultura das camisas no corpo, a adidas Originals parece apostar menos num Brasil "pronto" e mais numa imagem de país que aceita a contradição e a mistura como sua linguagem principal.

Isso não apaga a assimetria que sempre existe entre uma marca global e um repertório local, mas desloca a conversa para um terreno mais fértil. Quando a passarela abre espaço para um Brasil menos resumido, o desfile deixa de falar apenas de produto. Ele passa a expor uma disputa maior: quem tem o direito de transformar o país em imagem sem reduzi-lo a uma fórmula batida? No dia 17 de abril, a gente vai ver qual resposta a Rafaela Pinah preparou para essa pergunta.


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