Pedrovisk: luta, resistência e criação de comunidades

A DJ manauara é uma das novas forças do grime nacional e levanta a importância da representatividade no cenário eletrônico underground

Pedrovisk: luta, resistência e criação de comunidades
Foto: @phdemi

Pedrovisk é o nome artístico de Petra Castro, DJ natural de Manaus, no Amazonas, que se destaca como uma das figuras mais potentes da nova safra do grime nacional, representando a força feminina e a presença trans nessa cena fortemente dominada pelos homens.

Atualmente residente do Rio de Janeiro, Petra integrou no começo de sua carreira o Vandal Hostil — coletivo amazonense que movimenta a música eletrônica periférica e marginalizada — e sempre disseminou o grime e o ensino de mixagem pela região.

Recentemente, quando esteve aqui em São Paulo, os seus sets foram alguns dos melhores sets de grime que eu já pude presenciar. A sua passagem nesse último final de semana pelo CARNAGRIME, festa organizada pelos RAGGACLUBBERZ no Cr1a011, rendeu um set totalmente instrumental e focado nas produções nacionais.

Troquei uma ideia com a Petra no final do ano passado, depois do seu set na última edição do Exportação que rolou aqui em São Paulo, no Espaço Nobre, e falamos sobre a sua trajetória, motivações e aprendizados dentro da cena da música eletrônica e do grime.


Queria começar falando sobre o início da sua relação com a discotecagem e com a música eletrônica. Quais foram os primeiros passos?

O meu trampo como DJ começou uns anos atrás, quando eu participei de um curso lá em Manaus — era um curso pra ampliar corpos femininos na cena de música eletrônica amazonense. Eu passei nessa seleção e comecei a fazer aulas de mixagem lá. Foram uns quatro meses de aula de mixagem, e eu lembro que eu fiquei maluca — eu sempre gostei muito de música, sempre tive muitas amigas DJs, sempre fiz muita pista. Eu adoro dançar.

Eu tinha muitas amigas na cena e todo mundo falava: "por que você não é DJ?”, e eu falava: "cara, acho que o momento não é agora". Até que isso despertou em mim, e eu sabia que era uma coisa que se eu começasse, não ia querer mais parar.

Eu fazia faculdade de engenharia elétrica, e daí eu peguei e fui fazer esse curso. Eu fiquei maluca das ideias, e falei: "mano, é isso". A minha professora falou: "quem quiser a controladora emprestada — que era uma DDJ400 —, eu empresto", e logo na terceira aula, eu falei com ela, que falou: "pô, vou emprestar. Se quiser ficar com ela esse tempo aí, porque vou viajar pra Parintins, fica com ela". Eu fiquei tipo um mês, e eu treinava umas 10 horas por dia.

Eu fiquei maluca e queria comer tudo que existia sobre mixagem. Eu estudei muito — o curso foi de março até junho, e eu vim tocar a primeira vez só em setembro, porque eu tava no meu período de estudar e de consumir tudo que eu tenho sobre mixagem e cultura DJ.

Foto: @phdemi

Minha mãe foi super de boa em relação a isso, e eu fiquei esse período todo em casa, estudando bastante, mesmo. Eu morava em Manaus, que é uma cidade pequena em relação à música eletrônica, então o que tem lá, a galera toda sabe — não é como São Paulo que tem milhares de festas numa noite só. A única coisa que eu falo pra galera é que tem que estudar muito — estude muito, muito, faça isso ser sua vida. Escute música, porque pra mim o principal de tudo sempre vai ser escutar música, e eu ouvia muita música. 

Nesse período eu fui tocando e conheci um coletivo que tava crescendo na cidade, o Vandal Hostil, que é o maior coletivo da região norte — eles faziam festa pra, sei lá, 50 pessoas, e eu fiquei tipo: "tem alguma coisa aqui nessa galera que vai funcionar". E começou a crescer muito.

Eu gostava muito de tocar breakbeat na época, de tocar ghettotech, essas coisas, sabe? Eu sou uma menina trans que veio do Mutirão — uma das maiores comunidades que tem em Manaus — e minhas influências, tudo que eu gosto de escutar e tocar, são todas de rua, da cultura de rua.

A música eletrônica, em geral, é de rua, mas o ghettotech e o grime são culturas de gente que trabalha com o underground de fato — a galera do skate, do pixo, e eu sempre fui muito ligada à isso. Eu entrei pra esse coletivo, e a festa foi de 100 pessoas pra 1500, 2000 pessoas, e aí eu comecei a ver que as coisas ficaram sérias e falei: “bora ganhar dinheiro com isso aqui.”

A gente começou a fazer muita festa e as coisas começaram a crescer de fato. A gente começou a fazer essas ligações com a galera de fora — o Rafa já conhecia os meninos da SPEEDTEST, e aí eu também tive essa troca com o ANTCONSTANTINO, o Chediak, o Crosstalk, o Diogo.

O rolê foi crescendo, mas eu sempre ficava focada na minha carreira de DJ: “o que eu quero tocar, o que eu quero fazer”, sabe? Porque ser DJ não é só tocar — se fosse só colocar o pen drive era ótimo, a minha vida facilitaria muito. Eu fazia produção de eventos, produção executiva, eu tinha que criar fidelidade. Fazer festa pra galera que curte grime, dubstep, drum'n'bass — essa galera toda é moleque que anda de skate, que vive de cultura de rua — e eu sabia que eu tinha que criar uma fidelidade, porque criar uma comunidade é, também, tudo além da festa.

Fazer um som de graça, com os DJs que a galera paga pra ver, lá na pista de skate — você precisa criar uma fidelidade com a sua comunidade, porque ela te impulsiona, te coloca lá pra cima, escuta seu som. Eu vi um monte de moleque do skate falando: "tu é muito foda".

Eles tinham uma menina trans como diva na cidade, e isso é muito da hora, porque não é normal.

Eles investiram muito em mim, no meu som. Me impulsionavam, pagavam pra minha festa — uma galera não pagava ingresso, mas impulsavam pra outras pessoas que pagavam estarem ali, sabe?

Hoje você está morando no Rio de Janeiro, né? Como foi a decisão de sair da sua cidade e como você tem enxergado esses dois momentos? Você sente que conseguiu construir essa comunidade no Rio também?

Hoje em dia eu não faço mais parte do coletivo — eu tive que sair porque não tinha como conciliar, eu morando aqui e eles em Manaus. Eu tô no período da minha vida em que eu comecei a ver as coisas de uma forma diferente, comecei a prezar mais pela minha carreira. Eu aprendi muito com o coletivo — tudo que a gente fez, musicalmente, a minha carreira, o que eu toco, o que eu faço, conheci pessoas, conheci músicas novas.

Nesse período antes de vir pra cá, eu também dava aula de mixagem. Eu tinha uma escola de 20 alunos lá em Manaus. Era tipo 50% pago e 50% bolsistas, porque eu sou uma menina trans e é importante fazer essas coisas voltadas às pessoas trans e pessoas desfavorecidas financeiramente. Hoje em dia, a cena da cidade é dominada, só meus alunos tocam — um monte de bonequinha, um monte de trans dominando a cena eletrônica — e eu não tô mais lá, sabe? Eu queria deixar meus filhos, pessoas que conversassem com o que eu passo — toda essa relação de estudar bastante, fazer isso ser sua vida, mesmo.

Foto: @phdemi

Eu consegui sair de lá, e o Rio de Janeiro foi esse lugar de cura, de me reencontrar e de falar: "pronto, é aqui meu lugar, tudo faz sentido aqui pra mim." Tem essa troca com os meninos da Baixada, com o ANTCONSTANTINO, o Maui, dá pra ter essa troca com a galera que trabalha com isso, que tá fazendo, movimentando.

Eu preciso estar investindo mais na minha carreira, e não é o momento de voltar pra Manaus agora. Eu acabei de sair, e acho que em qualquer momento que eu voltar, a galera vai entender, me acolher e vibrar comigo. A galera continua vibrando comigo de longe, e tem outras pessoas fazendo as coisas, sabe? Tem outras meninas movimentando a cidade, rolê novo nascendo — isso me deixa tão feliz.

Eu tô muito bem agora porque eu tô fazendo de uma forma confortável pra mim, e não tava confortável da forma que eu tava fazendo, porque era muito trabalho, muita demanda, muita gente, muita energia gasta. E aí eu dei esse respiro agora, tentei entender mais eu mesma, a minha cabeça, acho que você tem que cuidar de você mesmo — porque à noite tudo isso desgasta muito. Você estar bem fisicamente, mentalmente, tudo melhora, e o Rio ajuda.

E quando começou a sua relação com o grime? Imagino que não tenha sido fácil se integrar nessa cena que infelizmente ainda é muito construída e consumida majoritariamente por homens.

Eu sempre fui muito ligada em saber o que a galera nova tá querendo ouvir, querendo vestir, querendo usar — isso tudo é muito importante — e o grime tava em atenção. Quando a gente anunciou o Antônio em Manaus, em 2024, foi a primeira presença de fato conhecida, de grime, na cidade — ele fez um set foda e todo mundo ficou louco, a galera gostou bastante do set.

Eu conheci o FREDO, que também é DJ, ele era "o grime" de Manaus, e ele foi uma pessoa que me ajudou muito a entrar de cabeça nisso. Ele gostava muito de grime, tocava muito grime, e aí eu falei: "bora fazer isso juntos" — e nisso o grime aparece na minha vida.

Eu faço grime de menina. Eu falo pro Antônio: "vocês me abraçam, tô incluída nesse universo de vocês, mas eu faço um grime de menina, de garota, coloco um vocal feminino, um negócio." Eu gosto muito de trocar ideia com a Eram também, eu admiro muito ela, de como ela se colocou nesse universo. Porque eu tenho total noção de que o universo do grime é dominado por homens héteros, e eu sou uma menina trans entrando nesse universo.

Eu tenho a minha rede de apoio que é o Antônio, o Enigma, o Sucateiro, os meninos do Terra à Vista — mas quando eu saio dessa rede de apoio, pra eu ver uma transfobia é rapidinho, sabe? Porque a gente sabe que nem todo mundo é educado em relação a isso. Eu sei que a música, no final de tudo, conta muito, mas sempre tem uns vermes metidos em qualquer lugar que você esteja.

Foto: @phdemi

E é uma loucura, porque tem poucas meninas fazendo o que a gente faz. Tem eu, a Eram, a Camiska, a Peroli, a Barona, a Kiddo, são poucas garotas. Eu vim de um curso que era pra ampliar corpos femininos no Amazonas, e a gente tá caminhando pra ampliar mais meninas no grime, na cena, porque é bom. A gente sabe que é a gente que tá ali.

Por mais que a gente tenha amigos meninos, às vezes a gente precisa de uma menina ali, fazendo uma curadoria, um evento. Eu acho que você ter um toque femininos nas coisas muda tudo — não vai ser totalmente feminino, mas vai ter um toque diferenciado. Quando você tá aberto a entender isso, o seu rolê fica único.

Mas a gente também tem que entender que esse eixo sudeste é totalmente diferente de todo o Brasil — eu entendo, porque eu vim de Manaus. No sudeste tem uma galera que já tá pra frente em questão de pensamento, sabe? Eu tenho consciência de que não tem muitos corpos trans fazendo grime em outros estados porque não tão nesse eixo. Não quer dizer que não pode ter, mas hoje, morando aqui, eu entendo que é totalmente diferente do resto do Brasil. Lá em Manaus eu fazia isso, mas eu tava ali na frente fazendo tudo, me colocando em atenção.

Se não tiver alguém fazendo, alguém metendo a cara, não vai ter, sabe? E é esse o conselho que eu dou pras meninas — mete a cara!

Ninguém vai pegar na tua mão, você tem que correr atrás. Eu fui atrás das minhas coisas, de fazer ligações, amizades verdadeiras. Fui atrás de estudar, de entender. As pessoas também têm que ir atrás, meter a cara. Ainda mais com macho, chega apitando mesmo, chega com o dedo e fala: "esse aqui é o meu lugar também."

E como você sente que isso aparece na pista? Esse resgate que tá acontecendo das origens da música eletrônica é muito importante para que a cena se construa de maneira verdadeira.

Eu toco pra ter pessoas na pista, pra ser uma pista diversificada. Eu não quero só macho na pista — eu quero trans, mina, todo mundo se divertindo. É muito importante você ter representatividade no line, aquela galera toda tocando pra você falar: "agora faz sentido onde eu tô, porque tem uma menina trans tocando, então tá de boa eu aqui dançando." Eu sempre falo que é tudo uma criação de comunidade.

A minha carreira toda é voltada pra isso — ter música eletrônica pra todas as pessoas. Pessoas que não tem grana, pessoas marginalizadas, pessoas que colam no teu rolê de busão, sabe? Isso tudo conta para mim. Você entender que tá metida nessa comunidade que tá em constante "aperto de mão", em constante "vou te ajudar", porque você não constrói nada sozinho. Entender que você precisa de amigos, de uma comunidade pra impulsionar.

Foto: @phdemi

Quando você estuda de fato a música eletrônica, você vai ver que veio de block parties, de pessoas negras, e a gente vê onde as coisas estão se movimentando agora e é muito triste. Mas a gente também entende que têm pessoas fazendo de forma verdadeira, com sentido — e eu busco sempre estar em rolês com sentido.

Se você tiver fazendo grime e não for um artista posicionado politicamente, você tá fazendo tudo errado. Você tem que entender onde você tá pisando, porque é cultura de rua, de pessoas marginalizadas. É muito importante você entender a história, como funciona, pra você saber o que fazer.

Música eletrônica envolve cultura de rua, moda, todas as coisas. Ainda mais eu sendo uma menina, eu também preciso ter uma performance — porque é muito fácil ser homem, chegar lá, tocar e ir embora. Menina não, menina tem maquiagem, tem que ter performance — ainda mais eu, metida no mundo do grime, que tenho que fazer mil vezes mais pra poder me destacar.

Eu gosto de misturar tudo, porque a graça da música eletrônica é isso. Se você é DJ de música eletrônica, você vai saber tocar qualquer coisa que seja harmoniosa no seu set, sabe? Vou tocar grime, breakbeat, garage, dubstep. Eu gosto de me divertir no meu set, e gosto de tocar me imaginando dançando na frente. DJ que não se diverte tocando não faz sentido.

Acho que precisa dessa troca, dessa criação de comunidade, mesmo, porque é importante, é aí que tá o diferencial. Eu acho que a galera do sudeste se perdeu nisso, e acho que tem que resgatar o sentido verdadeira da coisa. Mas é difícil, em questão de sociedade, ser uma mulher — e mulher trans, é muito difícil.

Na música eletrônica é muito difícil. No grime é muito difícil também, mas eu não vou desistir porque é difícil, não vou. A minha vida já é difícil por ser uma menina trans — se eu sair de casa, eu corro o risco de morrer a qualquer momento, então eu tenho que ter coragem a todo momento da minha vida.

Preciso ter coragem, bater de frente, ter o meu espaço, mostrar o meu trampo. A galera entender o meu trampo, me entender como artista, como DJ, como pessoa, aí é outros 500. É, realmente, estudar muito, trabalhar muito e procurar o seu espaço pra galera te entender.

Então, é possível. Tudo é possível pra gente, com muito trabalho, muita força de vontade e foco. Quando você faz um trabalho bem feito, é impossível dar errado. E é isso, muito trabalho.

Foto: @phdemi

Acompanhe o trabalho da Petra pelas redes sociais e não perca a chance de colar num set dela se tiver a oportunidade.


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