O Swoosh já não comanda a conversa sozinho

Enquanto Elliott Hill tenta reorganizar a Nike por dentro, o mercado sneaker vai deixando claro que a centralidade da marca já não funciona do mesmo jeito

O Swoosh já não comanda a conversa sozinho

Nos últimos meses, a Nike voltou às conversas por um motivo que, à primeira vista, parece bem objetivo: os números. A empresa vem lidando com pressão sobre margem, queda de desempenho no digital, fraqueza persistente na China e uma necessidade cada vez mais clara de reorganizar canais e distribuição. Elliott Hill, CEO, retornou ao Swoosh e assumiu o comando nesse contexto, com a tarefa de corrigir a rota depois de um ciclo em que a aposta em venda direta ao consumidor prometia mais controle e mais margem, mas também deixou fissuras importantes na operação e na relação da marca com o varejo.

Elliott Hill, CEO da Nike

Esse cenário fez a discussão sair do campo estritamente financeiro. Quando a maior marca esportiva do mundo entra num processo de ajuste, o mercado inteiro presta atenção. Investidores olham para as previsões da empresa e para o faturamento. O varejo observa a volta do atacado e a dificuldade do digital em sustentar sozinho a operação. A cultura sneaker lê o mesmo movimento por outra chave: o que significa, para uma marca como a Nike, continuar enorme e ainda assim parecer menos central do que já foi.

É aqui que a história começa a ficar mais interessante. Porque a questão não é só se a Nike está em crise. Isso, em alguma medida, os resultados já indicam. A questão é que tipo de crise é essa e o que ela revela sobre o momento do mercado. A empresa continua gigante, continua vendendo e continua sendo referência para muita gente. Continua, inclusive, numericamente dominante em volume e legado. Mas já não ocupa sozinha, com a mesma facilidade, o lugar de centro automático do desejo sneaker. E essa dispersão do desejo diz bastante sobre o momento atual.

O ajuste da Nike

Financeiramente, o quadro é relativamente claro: a Nike entrou num ciclo de correção depois de apostar demais no digital e na venda direta ao consumidor. O atacado volta a ganhar peso, o digital já não sustenta sozinho a operação e Elliott Hill tenta reorganizar a casa no meio dessa transição.

O ponto importante, aqui, é o que essa correção revela. A Nike não enfrenta só um problema de canal ou eficiência. Ela também lida com o desgaste de uma estratégia que a deixou mais fechada em si mesma e, em alguns mercados, menos conectada ao varejo e aos contextos que ajudavam a espalhar seu poder cultural.

A China ajuda a enxergar isso com mais nitidez. Ali a Nike encontra algo mais desafiador do que uma queda de vendas: marcas como Anta e Li-Ning disputando desejo a partir de dentro, com mais intimidade com o território, com o humor do consumidor e com a circulação local de sentido. Um mercado enorme que deixa claro o fato de que a Nike já não entra sozinha como referência natural em todo lugar.

O mercado local da China se mostra cada vez mais aquecido - e mais global

E o tamanho da China só amplia essa pressão. Quando uma marca global tem menos penetração num mercado desse porte, o faturamento é apenas uma das coisas que ela perde. Também se vão participação, visibilidade e capacidade de sustentar a própria ideia de liderança global. Nesse sentido, a fragilidade financeira encosta numa fragilidade maior: a dificuldade de continuar parecendo específica em lugares onde o genérico já não basta.

Uma centralidade menos automática

Durante muito tempo, acompanhar a Nike era uma forma de acompanhar a conversa inteira. A marca lançava um produto, puxava o mercado atrás, mobilizava revenda, organizava fila, comentário, desejo e repertório. Essa engrenagem não sumiu, mas perdeu parte da força que fazia dela um centro quase natural da cultura sneaker.

Aqui entra um ponto que me parece decisivo: alguns dos modelos mais importantes da Nike deixaram de funcionar como garantias espontâneas de distinção. Os Jordan Retro e os Dunk seguem fortes como nome, memória e escala. Só que arquivo demais, repetido demais, pode deixar de soar como herança e começar a soar como dependência. Esse é um detalhe importante, porque eu não acho que o problema esteja em revisitar o passado. O problema aparece quando a marca recorre tantas vezes ao mesmo passado que ele já não abre caminho para o novo.

Nos últimos anos, a Nike se apoiou muito bem na capacidade de transformar repertório histórico em consumo contínuo. Isso funcionou por bastante tempo. Depois começou a produzir a temida "saturação". O ruído aparece aí. A marca continua tentando vender inovação, mas boa parte do público já não lê repetição como novidade. Quando a prática insiste no arquivo e o discurso segue falando em ruptura, a mensagem perde força. E, veja bem: saturação não significa desaparecimento. Significa que o produto continua vendendo, continua circulando, continua ocupando espaço, mas já não concentra sozinho o imaginário. Quando vira paisagem, perde exclusividade e, com ela, parte do desejo. A partir daí, passa a dividir atenção com outras promessas de valor, outras estéticas e outras experiências de uso.

Novas formas de legitimidade

A adidas soube aproveitar esse momento ao reativar o próprio arquivo com mais leveza e leitura de contexto. Samba, Gazelle, SL72 e outras silhuetas voltaram no momento certo, em ambientes certos e com uma circulação que parecia viva. O ponto é que esse movimento também começa a dar sinais de acomodação. O ciclo mais explosivo do Samba já passou, e a própria adidas parece redistribuir a atenção entre outras silhuetas do arquivo. Ainda assim, há uma diferença importante entre relançar um modelo e reanimar seu significado. A adidas, nesse processo, conseguiu fazer essa segunda coisa com mais precisão do que muita concorrente.

Mas eu acho que a discussão fica melhor quando a história não para aí. A mudança no mercado aparece também quando marcas como New Balance e ASICS ganham terreno sem tentar copiar a lógica da Nike.

A New Balance vem fazendo um trabalho muito interessante porque seu crescimento não depende apenas de produto, de conforto ou de status. Depende também de um esforço de localização que, no Brasil, ainda está em construção, mas já aparece com alguma clareza. Vale olhar para esse movimento com atenção, porque a marca vem tentando construir presença de um jeito que pareça menos importado, menos genérico, menos baseado numa imagem global pronta. Já passamos brevemente por esse assunto aqui antes. Não é um processo que ela nomeia desse jeito, nem algo que eu trataria como caso consolidado, mas existe ali uma espécie de indigenização do repertório, visível na escolha de linguagem, parceiros, campanhas, leituras de território e formas de inserção que vão tornando a marca mais aderente ao nosso contexto.

Isso muda bastante a leitura. A New Balance não cresce só porque oferece um tênis confortável ou porque talvez tenha passado a ocupar um lugar de repertório mais apurado. Ela cresce também porque ensaia um pertencimento mais localizado. E isso, nesse mercado, vale muito. Vale porque aproxima. Vale porque dá ao consumidor a sensação de que a marca está aceitando ser traduzida pelo território.

A ASICS chega por outra porta, e talvez seja justamente isso que a torne tão relevante. Seu avanço passa por uma legitimidade técnica que o mercado voltou a valorizar com mais intensidade. Durante muito tempo, performance parecia um dado importante, mas não necessariamente sedutor fora da corrida. Isso mudou. Quando modelos da ASICS passam a circular com força no lifestyle, o que está em jogo é bem mais que uma tendência de moda, é a valorização de atributos que antes ficavam em segundo plano: tecnologia, estrutura, conforto real, história de uso.

Isso para citar apenas algumas das marcas mais lembradas no mercado brasileiro, porque quando damos um passo mais atrás, a lista é longa, com Hoka, On Running, Salomon e tantas outras marcas ganhando espaço e relevância cultural e dispersando a atenção do consumidor.

Acho pesado (e equivocado) taxar a Nike como uma marca que esteja "morrendo", mas tem gente fazendo isso na internet

Um mercado mais disperso

Talvez seja esse o ponto que mais me interessa em toda essa história. A crise da Nike ajuda a mostrar que o mercado sneaker já não responde tão bem à lógica de um centro organizador único. O desejo ficou mais espalhado. Em vez de seguir uma hierarquia muito nítida, ele se distribui por repertórios específicos, cenas diferentes, necessidades de uso, validações locais e até humores distintos de consumo.

Tem gente buscando arquivo. Tem gente buscando corrida. Tem gente buscando conforto, legitimidade técnica, discrição, nicho, pertencimento... E tem muita gente combinando tudo isso no mesmo guarda-roupa, sem qualquer compromisso com a velha disciplina de marca. Isso força a leitura de que hegemonia, hoje, não se mede apenas em market share. Mede-se também na capacidade de uma marca continuar parecendo inevitável em contextos muito diferentes ao mesmo tempo.

É aí que a Nike encontra seu desafio mais delicado. A marca ainda tem escala, história, distribuição, dinheiro e um nível de reconhecimento que poucas empresas no mundo possuem. Mas isso, por si só, já não garante a mesma autoridade cultural.

O que a Nike precisa recuperar

Eu não acho que faça sentido tratar esse momento como fim de império. Isso simplifica demais e, no limite, atrapalha a leitura. A Nike não está desaparecendo, nem deixando de ser uma força central do sportswear. O que parece estar acabando é a facilidade com que ela ocupava sozinha a posição de árbitra quase automática do gosto sneaker.

A adidas voltou a disputar esse terreno a partir do arquivo e da circulação pop, ainda que esse ciclo já dê alguns sinais de acomodação. A New Balance cresce porque combina conforto, repertório e um esforço de localização que começa a ganhar forma em mercados como o Brasil. A ASICS avança com a força de uma legitimidade técnica que encontrou ressonância fora do universo esportivo. Nenhuma dessas marcas precisa repetir exatamente o modelo da Nike para ganhar espaço. Elas crescem porque oferecem outras formas de relevância num mercado que ficou mais disperso, mais segmentado e menos obediente.

Se a Nike ainda importa não está em discussão. Importa, e muito. A pergunta é outra: num mercado em que o desejo já não se organiza ao redor de um único símbolo, o que a maior marca esportiva do mundo precisa reaprender para voltar a parecer necessária do jeito que já pareceu um dia?


ISMO
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