O luto que o algoritmo não deixa curar
A teoria do #ConformityGate após o fim de Stranger Things e o desejo de continuar onde a história já acabou
"Tem alguma coisa que não encaixa". A temporada final de Stranger Things terminou, os personagens se despediram, os arcos se fecharam (ou quase) e, mesmo assim, uma parte do público se recusa a sair de Hawkins. O Reddit ferveu com supostas pistas de que a história apresentada era falsa. No TikTok, criadores destrincharam simbolismos, placas de saída e números cabalísticos. Surgiu então o #ConformityGate: a ideia de que o final mostrado era uma ilusão criada pelo vilão Vecna, e que um suposto episódio secreto revelaria a verdadeira conclusão.
Eu queria isso também.
Mas talvez essa não seja a questão mais importante. Essas teorias, que se repetem em outras séries, não estão exatamente em busca da verdade escondida de um roteiro. Elas são uma forma de lidar com a dor do fim, um mecanismo coletivo de negação, racionalização, adiamento. Em outras palavras, um ritual de luto adaptado à era do streaming.
O que foi o Conformity Gate (sem julgamento)
A teoria ganhou corpo após o lançamento da temporada final de Stranger Things, quando um grupo de fãs começou a identificar supostos sinais de que algo estava "errado". As pistas iam desde a disposição de livros na estante até a cor das becas de graduação. Um interruptor que mudava de cor, placas de saída em cenas emocionais, expressões faciais sutis dos personagens, falas, olhares para a câmera... Tudo era interpretado como prova de que aquele não era o verdadeiro final. E que, em uma data futura, a Netflix revelaria a "verdade".

#ConformityGate explodiu nas redes com uma intensidade que, por si só, já diz muito. O que estava em jogo não era a dificuldade de aceitar que uma história tão longa, vivida quase como uma relação real, chegou ao fim.
Teorias como ritual de luto digital
A reação a finais marcantes nem sempre é racional. Quando uma série acaba, o impacto emocional pode se parecer com um rompimento e é exatamente isso que estudiosos chamam de “luto parassocial”: o sentimento de perda real diante do fim de uma relação construída apenas pela mídia.
No caso do Conformity Gate, o que se viu foi a fase da negação em pleno funcionamento. Fãs buscando nos detalhes uma "prova" de que ainda há mais por vir. E as redes funcionam como um espaço de validação coletiva, onde esse luto pode ser compartilhado, processado, adiado.
Esse fenômeno se repete com frequência e vai além da dor de perder personagens ou tramas. É sobre a dificuldade de lidar com a ausência, com a falta, com o buraco deixado pelo fim de algo que preenchia tanto.

Vivemos numa cultura que odeia o fim
O pensador britânico Mark Fisher chamou de “realismo capitalista” a dificuldade que a gente tem de imaginar alternativas ao que já existe. Isso se aplica também à cultura pop. Somos tão treinados a esperar continuações, reboots, universos expandidos (Marvel que o diga!) que a ideia de fim definitivo se torna incômoda e, então, tudo é estendido até perder a forma. A negação entra no jogo e as teorias acabam servindo para segurar o fim no ar e manter a história viva na mente, mesmo sem novos episódios.
A Netflix depende desse cenário e, como não é boba, opera nele. Sua lógica de negócio exige engajamento constante. Precisa que o assinante nunca desligue, continue consumindo e engajando, criando um conflito direto entre o nosso luto e o lucro. A dificuldade de aceitar o fim é incentivada, alimentada e monetizada.
O papel dos algoritmos no luto coletivo
As plataformas digitais não são neutras nesse processo. Os algoritmos reforçam padrões emocionais (muito mais do só que entregar conteúdo) então, quando há frustração, tristeza ou negação, o sistema oferece mais do mesmo.
Isso vai se retroalimentando e transformando sentimentos individuais em correntes coletivas. O algoritmo reconhece o apego, reforça a dúvida, distribui vídeos e análises que validam a recusa. A bolha se fecha e a teoria vira certeza.
Assim, essas plataformas moldam suas experiências de luto e apego, e o que era para ser despedida, vira repetição infinita.

Teorias como reapossamento simbólico
Além de negação, há resistência. Trago agora um escritor estadunidense, Henry Jenkins, que diz que fãs vão além de consumidores, passando a criadores de sentido. Ao negar o final oficial, eles reconfiguram a história e assumem a autoria do desfecho que gostariam de ver.
As teorias, nesse sentido, são gestos criativos, produzindo universos paralelos, versões alternativas construídas pelos fãs (os chamados "headcanons"), narrativas compartilhadas. Parece delírio, mas é agência cultural. Se envolver emocionalmente também é querer ter voz no destino daquilo que se ama.
Quando a teoria tenta resolver o incômodo da falta
Teorias ganham força não porque o roteiro é ruim (fica aberto aí à sua opinião), mas porque o fim parece insuficiente para tanta carga simbólica. A questão é técnica e também afetiva. Quando a entrega final não dá conta da expectativa emocional, o público tenta completar o que faltou. Vimos isso muitas vezes antes: Lost, Game of Thrones, WandaVision.
No caso de Stranger Things, em vez de um fim ambíguo, complexo ou doloroso, recebemos algo "certinho demais". E o que vem depois é uma tentativa coletiva de complexificar o que foi simplificado, preenchendo a falta deixada pelo fim com novas narrativas.

A Netflix sabe que você está de luto
As plataformas se adaptaram a esse novo tipo de frustração. A Netflix, em especial, aprendeu a administrar encerramentos com doses bem calculadas de silêncio, nostalgia e redirecionamento.
Durante a onda do Conformity Gate, a empresa manteve o silêncio até que veículos parceiros desmentissem a teoria. Enquanto isso, promovia maratonas, liberava vídeos de bastidores, e anunciava novos produtos no exato dia em que o tal episódio secreto seria revelado. Isso é manejo de afeto!
O fim, neste caso, é um processo emocional que precisa ser conduzido. A plataforma oferece alternativas, continua alimentando o apego com entrevistas, memes, anúncios de spin-offs. Tudo para ajudar a travessia, mas sem romper o vínculo por completo (já que esse vínculo é dinheiro).
E você, já conseguiu sair do porão?
Teorias como o Conformity Gate são tentativas de elaborar a perda. De manter o elo com algo que já foi. Mas também são um reflexo de como nossa cultura lida mal com a ausência. Com o fim. Com a falta. Um baita caso para a psicanálise se debruçar! E talvez o desafio esteja justamente em acolher o vazio que se abre quando uma história termina.
O episódio secreto não vai chegar. A série acabou. E agora? O que fazemos com o que ficou? Ou, dito de outro jeito: você já conseguiu sair do porão dos Wheeler?
