O Drum’n’Bass brasileiro nos anos 2000 foi uma loucura

Como uma mistura entre MPB e ritmos eletrônicos criou um dos subgêneros que mais tocaram nas baladas do fim dos anos 90 e começo do século XXI

O Drum’n’Bass brasileiro nos anos 2000 foi uma loucura
Goldie, Marky Mark, Ray Keith e Patife em Londres (foto: ukf.com)

No final dos anos 90, o eletrônico dominava os rolês do mundo todo. Eurodance, House Music, Jungle e vários outros subgêneros eram cultuados e dançados por uma geração analógica que estava à beira da digitalização e o eletrônico olhava pro futuro sonora e visualmente. 

No Brasil, a mistura entre Música Popular Brasileira e ritmos eletrônicos dava origem ao Brazilian Drum’n’Bass, a nossa versão da coisa, que também podia ser lido como Drum’n’ Bossa ou Sambass. Inspirado pelo Jungle britânico, os brasileiros entenderam rapidinho o que tinha que ser feito e, convenhamos, as músicas populares do Brasa eram perfeitas para terem uma batida de bateria e baixo em cima. Ah, e detalhe: tudo tocado em vinil.

Dj Marky, Dj Patife, XRS, Dj Andy e outros nomes da cena de São Paulo rapidamente ganharam o mundo, tocando na Europa, EUA e Japão e disseminando um ritmo que nasceu aqui. No fim dos anos 90, São Paulo foi páreo a Londres, Nova Iorque e afins no quesito cena, tendo casas próprias e rádios segmentadas, entrando no roteiro de qualquer um que gostasse de música eletrônica. Toco, Overnight, Arena Music Hall, Zoom, Sunset Club, Pop Corn, Contramão eram picos do começo dos anos 90 que disseminavam a cultura dance music nas periferias, enquanto Sra. Kravitz, Nation, Massivo e Allure eram locais mais elitizados. Outro ponto de encontro era a B Side Music, do DJ Koloral, no centro de São Paulo, que a galera comprava discos e trocava ideia.

Marky e XRS Land (foto: acervo DJ Marky/matéria Music Non Stop)

O Sound Factory, na Penha, para Ramilson Maia no documentário “Introduzindo o Drum N Bass no Brasil”, foi a casa pioneira do Drum n Bass brasileiro. “De lá saiu o DJ Marky e para a grande massa, para a periferia, o Sound Factory foi a casa mais importante dos anos 90 para o gênero”, ele conta. 

Outro pico que a galera considera importantíssimo na expansão do Drum'n'Bass e para a junção entre periferia e elite foi a Lov.e, trazendo um ritmo periférico para a Zona Sul de São Paulo - Marky, Patife, Koloral e outros DJs eram residentes, com noites próprias de Drum'n'Bass. A casa durou de 1998 a 2008 e sua última noite teve um elenco de peso: 25 DJs históricos, como Mau Mau, Renato Lopes, Magal, Camilo Rocha, Andy, Marky Mark, Patife, entre outros. Para Camilo Rocha, em matéria da Folha de S.Paulo sobre o fechamento da Lov.e, "a noite de SP não seria a mesma sem o Lov.e. Foi um clube que apostou em vários aspectos da música eletrônica e que conseguiu trazer estilos e tendências para um público mais amplo, sem nunca deixar de fomentar a música mais underground"

Nesse mesmo documentário, o Patife solta uma aspas muito interessante: “Essa coisa da música eletrônica não é da nossa cultura. É uma coisa que a gente começa copiando e depois fazemos do nosso jeito. O Drum N Bass, uma cultura inglesa, a gente colocou um pouco do jazz brasileiro, do samba, do samba-rock”. 

Foto que nem precisa de legenda, mas que une dois gêneros fundamentais no Drum'n'Bass feito aqui (foto: instagram @deejaypatife)

Mas mesmo com vários clássicos e DJs importantes até então, o começo do Brazilian Drum N Bass parece ter sido com uma música do Max de Castro, Pra Você Lembrar, que muita gente viria chamar de Carnaval. Conversando com Bruno E., da Sambaloco, selo da Trama que foi muito importante para lançar artistas brasileiros do gênero, ele conta que o Max de Castro adorou o Patife e essa junção fez nascer essa e outras músicas populares brasileiras remixadas no ritmo do Drum’n’Bass: “Eles foram o material humano que a gente precisava para a coisa ficar mais pop”, ele relembra. “Essa música tem um sample do Chico Buarque e foi um sucesso”.  

O Drum'n'Bass logo seria tocado para além de São Paulo e outros estados começariam a criar sua cena. No Rio de Janeiro, por exemplo, tinha o coletivo Bossacucanova, do DJ Marcelinho da Lua, Marcio Menescal e Alex Moreira.

Turma boa! (foto: matéria Music Non Stop)

Free Jazz 1997

Em outubro de 1997, os Metalheadz, banda do icônico DJ de Jungle, o Goldie, passava pelo Brasil e tocava no festival Free Jazz, festival inspirado em rolês que aconteciam fora do país e cuja ideia foi trazida pelas irmãs Sylvia e Monique Gardenberg e pela lenda Milton Nascimento. 

Para muitos, a passagem de Goldie com Adam F, Doc Scott, entre outros da Metalheadz, foi o começo da pluralização do gênero - um DJ de fora em um palco celebrado, trazendo mais curiosos para conhecer o que estava sendo tocado. 

Trama e Sambaloco 

Em 1998, Patife e Adrian Harley colavam para Londres para conseguir autorização de uso do nome Movement, que era uma festa da Bulldozer, de Londres, mas que eles queriam usar o mesmo nome numa noite de Drum N Bass de quinta feira no Arena. Com uma fita VHS, os caras conseguiram mostrar o rolê brasileiro para um cara da Movement chamado Edo e claro que fecharam contrato do uso do nome. Isso não só permitiu que os caras colassem com o mesmo nome, mas também foi a porta de entrada para os DJs brasileiros serem conhecidos pelos ingleses e começarem a explorar mais universos além da periferia de São Paulo. 

Cartaz de uma festa da Movement de Londres, com Marky e Patife de convidados em 2000

A conexão entre esses DJs que estavam fazendo a cena do Drum’n’Bass brasileiro com a gravadora Trama foi através da Movement. Aqui entra o Bruno E., o Dudão, e a Sambaloco, a divisão de música eletrônica da Trama, que viria ser o local de lançamentos e distribuição dos maiores clássicos do Drum N Bass brasileiros da época. XRS Land, Drumagick, MadZoo e vários outros nomes importantes da cena estavam colando com a Sambaloco e produzindo com eles.

Dentre os lançamentos da Sambaloco, os mais famosos são as coletâneas Espiritual Drum N Bass, Sambaloco Drum N Bass - Brazilian Classics e os álbuns do DJ Patife, DJ Patife Presents the Sounds of Drum'n'Bass de 1999 e Na Estrada, de 2006. A gravadora ainda lançou coisa do DJ Marky, XRS, Ram Science, Fernanda Porto, Ramilson Maia, entre outros. Até João Marcelo Bôscoli, presidente da Trama, se envolveu nesse rolê eletrônico em uma música ou outra - Acredite Ou Não é um clássico assinado por ele. 

Sambassim e Só Tinha de Ser Com Você foram músicas da Fernanda Porto que estouraram

Bruno E. foi responsável por ser esse caçador de talentos da música eletrônica e trazer pra dentro do guarda-chuva da Trama. Seu trabalho foi fundamental para a disseminação do gênero, que até chegou em jogos de videogame, como os Fifa Street da vida - o que foi, para muitos, a primeira vez que ouviu a vertente brasileira dessa música eletrônica. O segundo jogo do Fifa Street, de 2006, tinha uma porrada de artista brasileiro na trilha: XRS, Fernanda Porto, Caio Bernardes, DJ Marky, DJ Patife, Airto Moreira, Trio Mocotó, Curumin… Muitos deles que faziam esse Drum'n'Bass brasileiro e tinham conexão com a Trama.

No final dos anos 90 e começo dos anos 2000, a Sambaloco concentrava artistas que eram potência não só na música eletrônica, mas na música negra brasileira também.  Era uma continuação do som negro que acontecia nas quebradas de São Paulo, principalmente, dando voz a uma geração que buscava diversão e conforto em beats eletrônicos, não necessariamente somente no rap ou na soul music, mas em algo que mesclava isso tudo também. 

DJ Marky e Patife foram os nomes mais expoentes dessa geração do Drum'n'Bass brasileiro (foto: acervo DJ Patife)

Para entrevista ao portal CliqueMusic, em 2001, Bruno comenta: “Minha briga é fazer um selo que mostre a face popular da música eletrônica. Muita gente acha que tudo nasceu na zona sul, nos bairros chiques, mas a periferia sempre soube mais - conhecia mais sobre música, era mais exigente com os DJs”. 

A alta do gênero se deu até o final da primeira década dos anos 2000, quando voltou a ser algo mais nichado e outros gêneros musicais começavam a tocar mais nas quebradas e nas festas. Mas isso não impediu de que, quando em alta, a parada extrapolasse o mainstream, tendo matérias nos jornais, um especial no Fantástico e tendo sua própria prateleira de discos nas lojas ao redor do mundo.

A Sambaloco nasce em 1997, incentivada por XRS e MadZoo, fazendo com que o Bruno, produtor que já trampava com o rap, caísse de cabeça no Drum N Bass. O resto é história e aqui na ISMO a gente vai continuar contando esses episódios emblemáticos do DNB Brasileiro, do Sambass, do Drum N Bossa, ou como você quiser chamar. 

Drum in Braz, de Bobby Nogueira, contava um pouco dessa história


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