O Brasil faz guitarras muito legais

Existe um polo local de produção de instrumentos musicais que fogem do padrão estético e sonoro

O Brasil faz guitarras muito legais

O sonho de uma parcela bem significativa da galera que toca guitarra gira em torno de um instrumento produzido, geralmente, por alguma marca estadunidense e de um modelo clássico. Aqui estou falando de silhuetas que ultrapassaram o limite da música e viraram símbolos da cultura pop: Les Paul, Stratocaster, SG, Flying V e Explorer são nomes que até quem não toca conhece. No Brasil, o caminho desse sonho costuma seguir uma cartilha meio padrão: começa com alguma marca de entrada, às vezes asiática ou nacional, evolui para um luthier que vai replicar algum desses modelos gringos e só então, se o bolso permitir, finalmente compra o tão sonhado instrumento. A real é que guitarras aos poucos viraram commodities, um eletrônico qualquer feito em linha de montagem.

Por outro lado, estou falando de um objeto com uso artístico intrínseco e que por isso, tem na figura de alguns luthiers uma vanguarda que subverte a lógica industrializada de montagem. Marcas como a Kuumba.wa, a Sina Guitars e a Mankato, não querem ver seu trabalho reduzido a montar peças numa ordem específica e copiar shapes conhecidos. Dá para dizer que estão na busca de uma identidade visual e sonora bem brasileiras.

Tive a oportunidade de trocar uma ideia com o Seithy, luthier e criador da Kuumba.wa, um projeto essencialmente solo, no qual ele desenha e constrói tudo, contando com o apoio de sua companheira para tocar as comunicações, mídias sociais e partes burocráticas. Na conversa, ele me contou como a marca nasceu da vontade de ocupar um espaço ainda não muito explorado, que fugia do convencional ensinado pelos professores do curso de luteria que fez na UFPR.

Para entender a marca, vale dar uma olhada na história do nosso país e da relação com o instrumento. Seithy comenta que a escassez de materiais e o acesso restrito a ferramentas, geraram uma diferenciação na forma como criamos os instrumentos por aqui. O brasileiro sempre deu um jeitinho de fazer as coisas, mesmo com poucos recursos. Lembro do trabalho genial do Cláudio César Dias Baptista, irmão do Sérgio Dias, do Arnaldo Baptista e “Professor Pardal” d’Os Mutantes. Entre testes e maluquices tecnológicas, ele se tornou o mago do som para uma das bandas mais influentes do rock brasileiro. Dos seus maiores feitos, a Régulus, a amaldiçoada melhor guitarra do mundo, é uma gambiarra inspirada no corpo dos violinos Stradivarius, com interior folheado a ouro, efeitos embutidos e uma história que por si só daria uma pauta aqui na ISMO.

Seithy me devolve como uma influência crucial de sua formação, que foi o Sr. Romeu, da Bagher. Ele relembra uma frase meio dura, mas transformadora, dita por Romeu sobre os construtores modernos. Segundo ele, “vocês se autodenominam luthiers, né, mas hoje em dia vocês são só montadores. Porque compram todas as peças prontas…” Essa cutucada alugou um espaço cativo na cabeça do jovem e continua ressoando na Kuumba.wa, o fazendo entender que um criador de verdade precisa imprimir uma assinatura estética e de timbre nos instrumentos.

Esse tema, aliás, rendeu bem. Assim como Marcelo D2 está(va) à procura da batida perfeita, a busca pela assinatura sonora própria é o que separa essas novas marcas do lugar comum. Seithy não considera utilizar captação de terceiros, por exemplo. A captação precisa ser a assinatura dos instrumentos da sua marca. E para chegar no resultado planejado, estamos falando de testes e experimentações, como colocar discos piezo nas guitarras para deixá-las mais sensíveis, e permitir batuques e ruídos que também possibilitam ao usuário do instrumento propor novos usos e sons. 

Visualmente, a marca bebe de fontes que passam longe dos catálogos norte-americanos. O olhar vai para os mestres construtores de rabecas, por exemplo, coisa bem nossa. As artes visuais também são bem importantes e as cores sólidas, junto das formas arredondadas, têm fortes inspirações nas obras de Tomie Ohtake. Já o trabalho geométrico e mais facetado, se inspira nos kirigamis feitos por sua mãe, que é artesã, e nas esculturas da série Bichos, da Lygia Clark.

Contrabaixo feito por Cláudio César Dias Baptista

Assim como artistas de vanguarda enfrentam resistência, quebrar certos modelos tradicionais e paradigmas têm suas dificuldades. O mercado brasileiro ainda é bem conservador. Seithy brinca que suas criações frequentemente vão parar em páginas de humor como a Guitarras Feia. Enquanto o público internacional enxerga as guitarras da Kuumba.wa como peças de arte, parte do público nacional, moldado por esse formato mais tradicional, torce o nariz.

Por sorte, a marca não está sozinha nessa trincheira. Esse mercado tem florescido, com dificuldades, claro, mas produzindo frutos que estão ajudando a mudar a cena. Também em Curitiba, a Universidade Federal do Paraná formou a primeira luthier do país especializada em instrumentos elétricos, a Rosie Lemos, mente por trás da Mankato. Assim como a Kuumba.wa, a Mankato se recusa a fabricar cópias. Os baixos e guitarras artesanais se inspiram em estéticas vintage, mas brincam com tamanhos e cortes mais modernos e são feitos um a um. O resultado é um instrumento que você não vai ver na parede ou prateleira de qualquer loja da Teodoro Sampaio, e se lá estiver, vai chamar a atenção, pro bem e pro mal, a depender do seu gosto.

Ainda no sul do país, a gente encontra o trabalho de Matheus Mayer, com a Sina Guitars. Focada no trampo de guitarras custom, a Sina projeta as próprias silhuetas e trabalha com madeiras brasileiras, como o Cedro Rosa, o Tauari e o Pau-Ferro. Sem papo de “uma versão melhorada da Stratocaster”, aqui o foco é em um instrumento com cara e som próprios.

Uma coisa que percebo nesses profissionais, é que eles compartilham uma filosofia muito similar, na qual a guitarra elétrica deve ser tratada como uma tela em branco para a expressão artística, e não como um projeto de engenharia já resolvido, pronto e parado no tempo.

Se estamos falando de guitarras diferentonas, os músicos que as tocam também não são convencionais. O público dessas marcas difere do perfil de pessoa que só quer tirar um som no final de semana, ou fazer uma graça na festa com os amigos, até por uma questão de acesso e preço, claro. O foco está na vanguarda da música contemporânea.

Seithy me contou que um momento de virada para a Kuumba.wa, foi a venda de um dos seus primeiros instrumentos para o Kiko Dinucci, gênio da música e que faz parte do trio Metá Metá. Saber que Dinucci gravou uma música da lendária e saudosa Elza Soares, com uma guitarra de sua marca, foi uma validação definitiva para o projeto e a confirmação de que o caminho escolhido era o certo. O que ele busca é dialogar com artistas inventivos, que procuram timbres específicos, até ruídos diferentes e caminhos menos convencionais.

De certa forma, o luthier faz parte do processo criativo dos artistas, constrói relações e co-cria com quem faz o som. Mas parece ser um trabalho complexo mudar a percepção de valor do público e se inserir no mercado. Na conversa, Seithy pontuou que a marca está beirando os sete anos e só muito recentemente as pessoas entenderam que poderiam consumir o que ela produz. É um trabalho pesado de comunicar o valor, a pesquisa e os resultados alcançados. Fora que existe conflito com uma bolha mais purista da profissão, que acredita existir um único jeito de fazer guitarras.

Estas marcas citadas aqui: a Kuumba.wa, a Mankato e a Sina, são só alguns dos nomes que estão ajudando a mudar a luteria brasileira para um caminho mais disruptivo, provando que a evolução do instrumento ainda não acabou. Nós temos madeiras muito boas, uma musicalidade de dar inveja em gringo e uma geração de construtores que cansou do nosso complexo de vira-lata e botou os braços pra jogo. 

Investir em um instrumento autoral brasileiro, é apoiar a economia local e fortalecer uma entrega que corresponde ao que o artista está procurando. É até uma forma de expandir vocabulário musical. Em época de festivais internacionais a gente cansa de ver os caras falando que a música brasileira é uma das melhores do mundo, e se isso é verdade, o que eu concordo, ela merece instrumentos que falem o mesmo idioma, se possível o mesmo sotaque, e que também sejam tão bonitos, complexos e diferentes quanto a nossa própria cultura.


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