Mundo Kão e a arqueologia do efêmero
O processo criativo, o luto e a arte de Brunno Balco
As tensões entre criação e criatura são temas comuns em narrativas de diferentes formatos, e têm grande apelo popular. É só ver as dezenas de versões que existem de Frankenstein, por exemplo. Mas e quando o artista precisa matar a sua criação mais bem-sucedida para salvar a própria cabeça? Foi um pouco esse o caminho que Brunno Balco tomou com a Acerca, projeto que tocou por 10 anos, e encerrou em 2023. De lá pra cá outros caminhos foram surgindo, de forma independente e comissionados, até que em dezembro de 2025 ele lançou o livro — ou contralivro, como prefere chamar — Mundo Kão, em que decide, através do olhar para o cotidiano, capturar o efêmero e ser capturado por ele.
No dia em que nos falamos, Brunno estava no Sesc 24 de Maio, local da exposição HIP-HOP 80’sp, a qual disse já ter visitado umas oito vezes. Boa parte do acervo da exposição, aliás, é d’OSGEMEOS, que tiveram a oportunidade de, durante os anos de carreira, guardarem fragmentos dessa cultura, coisa que Brunno admite que também faria, ou melhor faz.
"Eu alugo um container onde guardo as minhas coisas. E eu tenho muita coisa, é um espaço de 4m³, guardo grande parte da minha coleção lá, porque eu tenho coleção de diversas coisas".

Além de acumulador confesso, é um observador metódico, e um criador quase compulsivo. Na conversa de pouco mais de uma hora, falamos sobre seu processo criativo, o fim da Acerca, e claro, do livro, que de certa forma funcionou como despedida do antigo Brunno, uma virada no disco e um novo ponto de partida. Terminar o projeto de dez anos não foi nada fácil, ainda mais quando se perde o controle de algo que era muito pessoal. “Eu matei a Acerca porque ela estava me matando”. Soa pesado, mas me fez pensar sobre como o sucesso não necessariamente vem acompanhado da felicidade, e crescer não significa alcançar os objetivos que nos fizeram começar.
Em seu caso, quando pergunto o que o motivou a criar a Acerca, me responde:
“No início a minha fome era de querer ser reconhecido, porque eu vinha de um recorte completamente diferente do que eu vivo hoje. Eu não era ninguém, no sentido de que a pesquisa que eu tinha era irrelevante. Eu acho que tinha uma vontade de mostrar pro mundo o que eu faço.
E aí quando chego hoje, eu saco que eu já mostrei pro mundo o que eu faço, já conheci muita gente e agora eu tenho esse outro viés que é de desenvolver conceitualmente o meu trabalho de pesquisa, porque acho que ali estava desenvolvendo o corpo. Eu conto que foi necessário que eu criasse um veículo para andar, como a própria estrada em que esse veículo andava. E aí chega em 2023 e esse veículo quebra. Eu falo: 'Mano, eu cansei de arrumar esse veículo. Eu preciso pegar o que que tem ali dentro, o que vai caber dentro da minha mochila e seguir em frente a pé.'
E eu sinto que nesse momento que eu tô caminhando a pé, eu tô desenvolvendo uma outra parada. Nesse caminhar a pé eu posso pegar essas embalagens que estão no chão, ou eu posso fotografar a rua que antes eu não conseguia fotografar direito porque eu estava preocupado em arrumar o motor do carro, tá ligado?”




Acerca (2013 - 2023)
Se a Acerca foi o hardware, Mundo Kão é o software, a cabeça desse corpo que agora caminha de forma mais consciente. Lançado formalmente como capítulo de uma história em construção, o contralivro nasceu não de um desejo comercial, mas de uma necessidade de elaboração.
Brunno me descreve seu processo criativo como "completamente subjetivo e intuitivo", sem receitas prontas, mas com um framework rigoroso. Enquanto produzia o Mundo Kão, ele se viu preso em uma espécie de limbo, comparando a sensação a uma cena do filme Beetlejuice (1988), onde se espera em uma salinha para saber se o destino é o céu ou o inferno. Ele estava vendo sua versão antiga apodrecer e precisava "sublimar" esse luto através da arte.
Pergunto sobre como é esse processo criativo de alguém que parece sempre estar em constante estado de observação:
"Eu posso dizer que o processo é totalmente intuitivo, e tem a ver com essas respostas que são respostas ambíguas. Eu faço o que eu preciso. Eu acho que eu não me questiono tanto sobre muitas coisas do meu processo."
Nesse período, sem contratos fixos como designer, continuou a trabalhar como freelancer, tirando de grandes marcas para financiar sua manualidade. Balco se refugiou em bibliotecas e sebos em busca de referências que conversassem com seu inconsciente. Foi em um desses garimpos que encontrou o livro O Cão Em Nossa Casa (Théo Gygas - Editora Descubra), cuja quarta capa trazia a imagem de uma carrocinha com a frase "Mundo Cão Já Era". Dali, ele puxou o fio do termo "Mundo Kão", chegando o filme italiano Mondo Cane (1962), que inaugurou um novo gênero de documentários que tinham objetivo de chocar.
"É um filme de imagens do cotidiano mas que são brutais. Começa o filme com um cachorro sendo levado para um um canil onde ele vai ser morto. Tem cenas horríveis, tem uma mistura de bestialidade e beleza, de brutalidade e poesia, e a gente não sabe se aquilo é cruel, se é bizarro ou se é poético."

Uma das definições mais legais que Brunno traz para sua obra atual é a de "contralivro". O termo é tipo um sample de um poema de Augusto de Campos, encontrado por ele no próprio Sesc. Para Balco, chamar seu trabalho de contralivro é uma forma de negar a cadeia de produção tradicional. A própria Acerca nasceu para ser uma "contraeditora", publicando trabalhos independentes sem seguir o fluxo que se espera do mercado editorial. Com Mundo Kão, investiu a grana do próprio bolso para imprimir apenas 100 unidades, um meio que o impede de competir com a Amazon, mas que garante sua liberdade criativa.
Tal movimento está, inclusive, muito alinhado com suas raízes na cultura punk e no DIY, referências que o incentivaram no meio de publicações independentes no início da carreira, mas que ainda são bem presentes em seus processos e fazeres artísticos atualmente.
Visualmente, o livro é uma colagem contínua. Balco utiliza o que chama de "estética de sequestrador", onde palavras e imagens são sequestradas de seus contextos originais para formar uma nova narrativa. Ele não queria nada moderno ou perfeito, e buscou em livros antigos fontes irregulares que parecessem feitas à mão, dando uma aura meio gótica, obscura e dura.
Enquanto conversávamos, Balco abriu o mapa mental que produziu no Miro, durante a criação do contralivro, e observando e o ouvindo, percebi que as referências que compõem o Mundo Cão são um mosaico de sua própria vida: são as fotografias viscerais de Brassaï e Miguel Rio Branco, as provocações de Daido Moriyama, a influência de Mano Brown e Racionais MC's, especificamente a capa de Sobrevivendo no Inferno (1997), a inesperada conexão com a cantora Enya ou com a carta de Pokémon do Gengar, simbolizando algo valioso e pesado ao mesmo tempo.




Acho que posso dizer que hoje, o coração do trabalho do Brunno, é a fotografia de rua, mas não a fotografia convencional. Ele busca fósseis urbano, fotografando remendos de asfalto, padronagens de pisos diferentes que tentam esconder buracos e a "fugacidade eterna" do cotidiano.
Para ele, o Mundo Kão é um "atlas de cicatrizes". Ao mostrar essas feridas da cidade, busca criar uma "rede de sensibilização", e chega a se emocionar quando alguém diz que, após conhecer seu trabalho, passou a "não desver" certas coisas na rua. "Isso é pensar no presente", me explicou, comparando o ato de notar um milho desenhado em uma embalagem de pipoca, por exemplo, a um processo meditativo contínuo que nos tira do automático.
"Eu tenho uma caixa postal que eu não recebo só carta. Recentemente recebi um livro de poesia de um rapaz super novinho, de uma cidade que eu não vou me recordar, mas era um lugar muito pequeno. Como que esse cara conheceu meu trabalho? Eu faço questão de dar uma atenção para esse tipo de pessoa, porque eu tive a atenção de pessoas que eu admirava muito, como o Sesper, que fazia zines. Ele era tipo um deus para mim, porque ele era mais velho, já era do rolê e trocava cartas comigo. Então eu aprendi muito que na troca postal a gente tem esse ponto de contato com essas pessoas, mesmo que elas não estejam atuando diretamente na feitura, no processo do que você tá fazendo, elas estão atuando de um outro lado.
Para mim, o valor que existe na troca e que sempre existiu na Acerca também, é que era colaborativo, mas era colaborativo de um lugar de 'vamos fazer o pessoal que te conhece conhecer Acerca, e quem conhece Acerca te conhecer'. Era uma troca que tinha um capital cultural e um capital viral. Se eu te passar esse vírus, você vai passar pra frente e você vai multiplicar. Eu acho que isso se mantém".


Durante nossa conversa, ficou claro que Brunno não vê o lucro financeiro como o objetivo final de sua arte. "Eu não fiz esse livro para ganhar dinheiro. Eu fiz esse livro para perder dinheiro e ganhar uma coisa que o dinheiro não compra". O que ele busca é o valor simbólico, a troca genuína. É a valorização da mídia alternativa, do contato direto.
Mundo Kão é, como ele mesmo definiu, o "velório do Brunno". É o momento em que ele aceita ser um "biruta" em sua arte e decide "bancar o desejo", sem pressa para chegar ao topo, preferindo “crescer para os lados", criando uma base sólida e autêntica que não possa ser derrubada por qualquer vento ou instabilidade.
Ao final do nosso papo, Brunno Balco não parecia um cara que encerrou a carreira de dez anos, mas alguém que encontrou o novo par de óculos para enxergar o mundo. Ele continua sendo o moleque punk de Guarulhos que fazia zines, ao mesmo tempo em que entende que a sua verdadeira obra é a própria capacidade de transformar o descartável em perene.