Meio Feel traz a onda do mellow grime para o Brasil com VELUDO
O álbum de remixes do produtor paranaense conta com versões de letras já consagradas de artistas do país inteiro
VELUDO é o novo projeto de Meio Feel, lançado na última sexta-feira, 20/02, que chega com 7 remixes de faixas da cena do grime nacional. A inspiração do disco vem do mellow grime, subgênero que propõe uma abordagem mais suave e melódica, recheada de samples.
O mellow grime parece ter surgido em 2015 na gringa, com a faixa Baddest Boy de KwolleM, que pegou como ponto de partida um vocal cru do Skepta para construir uma música completamente diferente. Desde então, produtores como wilfred, oakland, BexBlu, WIZE, Frank Medley, Ryder, 808mystic e afrossurealist tem roubado a cena com edits de freestyles antigos, que ganham novas profundidades em cima de loops de funk, soul e jazz.
Do ano passado para cá, a coisa foi ficando mais forte, consolidando a vertente como uma das grandes apostas da nova geração dos artistas de grime. Lá fora, ao resgatar freestyles antigos de MC's no começo de suas carreiras, esses produtores acabam ativando uma nostalgia, reverenciando quem construiu a cultura desde o começo.
No Brasil, pudemos observar algumas movimentações para esse lado mais suave do grime, com produtores começando a construir faixas que se distanciam daquela sonoridade mais crua e agressiva que costuma ser associada com o gênero. Quem puxa esse bonde por aqui é o Meio Feel.
No final do ano passado, os caminhos para o disco foram abertos com essa versão abrasileirada de "scars", do Frank Medley, com as barras das MC's Lioness & Queenie
O produtor natural da zona norte de Londrina, no Paraná, sempre se destacou por tensionar os limites do grime instrumental, com uma identidade única e que se encontra nessa mistura entre o suave e o agressivo. Na sua produção, samples da nossa música popular sempre se misturaram com os graves e timbres intensos da música eletrônica — seja em Versão Brasileira, seu projeto de refixes (remixes que se constroem apenas recortando e rearranjando a música original), em Cerol, seu primeiro álbum instrumental ou em A Gota Cava a Pedra, seu projeto de boombap (que falamos por aqui).
"O meu sonho é fazer um instrumental que consegue ser calmo e intenso ao mesmo tempo — acho que os que chegam mais próximo disso é 'Relaxe' e 'Champloo'. Um bagulho que você consegue escutar em casa numa boa, no fone, trabalhando, mas que você também consegue escutar num rolê. Nem muito calmo e nem muito explosivo." — Meio Feel
É então que chegamos à VELUDO, disco composto por releituras de músicas já lançadas de artistas da cena do grime e do rap nacional. As barras de Bruno Kroz, Bertho, Tremsete, Piores, LAI$ROSA, Bardek e MASKOTTE ganharam novas camadas de interpretação em versões que mudam completamente a forma como elas são percebidas.
A faixa com o MASKOTTE é um bom exemplo disso. Na sua versão original, com produção de ANTCONSTANTINO, o beat agressivo incorpora elementos do volt mix e cria uma atmosfera dançante. No remix, o instrumental mais suave e melancólico dá abertura para outro entendimento, que escancara a lírica:
"Eu sempre escutei ela nessa energia, nesse alto astral, de certa forma. É uma track explosiva pra caralho, e fazer ela dessa forma foi uma surpresa pra mim, porque do jeito que ela tá, me lembra os rap dos anos 2000, dos anos 90, de quando eu era moleque. Facção Central, Realidade Cruel, um bagulho pesado, que fala o que tá acontecendo ali, mas às vezes você ia escutar o instrumental e era absurdo, uns corais de fundo".

Essa abordagem é cativante por evidenciar o potencial de reciclagem e colaboração do grime, que sendo ainda um gênero muito novo, principalmente aqui no Brasil, está em um processo de constante mutação e experimentação. "É um trabalho grande, envolvendo bastante gente, porque é pra enaltecer o bagulho, pra mostrar que tem vertentes também. É pra mostrar, pra quem é desse movimento, que dá pra se desprender de fazer só aquele grime muito rasgado — dá pra fazer outras linhas", conta Meio Feel.
"Dá pra gente fazer um mellow grime, um grime com influência de dubstep, outro com influência de funk, tá ligado? Dá pra fazer tudo isso, mano. Misturar as caixinhas, pegar os bagulhos e ver no que dá."
O time de MC's é diverso, composto por artistas de diversas regiões do país, passando por Salvador, Recife, Maringá, São Paulo e Rio de Janeiro. Esse é mais um projeto que reforça a conexão crescente dos coletivos de grime do país inteiro, que estão encurtando as distâncias entre os estados e construindo coletivamente a identidade do gênero aqui no nosso país.




VELUDO tá nas ruas
O projeto surgiu de maneira descontraída, e com o passar do tempo, foi ganhando a sua forma definitiva. A faixa com o Kroz foi a primeira a ser feita, e surgiu de um instrumental que estava parado e que só precisava do vocal certo. "Eu fiz o instrumental, tava gostoso, tava legal, mas não tava impactante. Eu testei a acapella e fui bater o olho em outras tracks que eu não via utilidade. Tinha mais umas duas, três que eu achei que dava pra usar e aí eu fiquei pilhado", explica Meio Feel, que costuma testar alguns vocais nos instrumentais para ver se estão funcionando.
VELUDO é uma celebração do grime feito no Brasil, um indicativo bastante significativo do momento produtivo que a cena vive, e já está disponível nas plataformas digitais.
Fazer todo esse movimento estando aqui em Londrina, ver várias cenas acontecendo, é divertido, também. Eu fico feliz, porque querendo ou não, eu comecei a fazer o bagulho só pra ver os meus instrumentais sendo tocados pelos DJs e pros MCs cantarem, e hoje eu vejo vários instrumentais sendo tocados em várias festas e lugares. Querendo ou não, o meu objetivo tá sendo cumprido, isso tá acontecendo. E é isso, continuar trabalhando, meter marcha e soltar muito projeto esse ano. — Meio Feel

Ouça VELUDO, já disponível nas plataformas digitais, e acompanhe o trabalho de Meio Feel nas redes sociais e no BandCamp.