Uma amizade que rendeu Grammy
Luis "Panch" Perez é um dos grandes responsáveis pelo sucesso visual que Tyler, the Creator construiu na última década
Sabe aquela história de apoiar o corre dos seus amigos e sempre puxar junto quem estava com você desde o começo? No caso do Tyler, the Creator, levar isso a sério não rendeu apenas trabalhos icônicos, como também um Grammy. Na última edição da maior premiação da indústria da música, Tyler levou pra casa o gramofonezinho de Melhor Capa de Disco com Chromokopia, projeto desenvolvido com seu parceiro de décadas: Luis “Panch” Perez
Se você olhar a ficha técnica de projetos dirigidos por Tyler nos últimos anos, provavelmente vai encontrar o nome de Luis algumas vezes, geralmente assinando a direção de fotografia. Juntos, criaram os diferentes universos imagéticos da carreira solo de um dos rappers mais inovadores da geração.

Nascido na ilha caribenha de St. Croix, Luis emigrou cedo para os EUA, onde aos poucos foi se inserindo no mercado criativo. Ao se estabelecer em Los Angeles, cruzou caminhos com um jovem rapper que estava se destacando dentro do coletivo Odd Future, e o resto é história. O primeiro trampo juntos, Yonkers (2011), já pode ser considerado um clássico, e quem viveu o período sabe o quão impactante foi o videoclipe. Rimas ácidas atacando outros músicos, beat sujo e flow imitando rappers de Nova Iorque, a costa oposta, mas o destaque mesmo ficou pela narrativa visual, filmada por Luis.
Os tons de cinza, a barata gigante, os desfoques, a silhueta e, enfim, o enforcamento, chocam até hoje, mas impressionam pela estética. Um trabalho simples de ser executado, mas que já mostrava o futuro da parceria entre os criativos e ajudou a garantir o prêmio de Artista Revelação no VMA daquele ano. A partir daí a dupla seguiu junta, com Luis sendo responsável pela direção de fotografia de dezenas de videoclipes e campanhas.
A partir daí, a dupla começa a colaborar freneticamente, e dezenas de clipes, campanhas e outros projetos são assinados por Luis. Vale ressaltar que ali pelo mesmo período, ele foi responsável por outro clipe marcante: Dontcha (2013), dos também oriundos do Odd Future, The Internet. Algumas escolhas até lembram um pouco o trabalho feito anos antes em Yonkers, e o período serve como prévia para o amadurecimento estético que viria a surgir na sequência.

Em 2017, Tyler muda o disco e também de persona, abandonando o alter ego esquisito, revoltado e polêmico para abraçar as cores da fase Flower Boy (2017), e seu unviverso lúdico e surrealista. Aqui a fotografia de Perez é essencial para traduzir as fantasias que brincam com a realidades de personagens inventados. A escolha das cores vivas explode no videoclipe de See You Again, com a Kali Uchis, e definitivamente é uma evolução técnica em relação aos trabalhos anteriores. Se antes os trabalhos conseguiam ser resolvidos com uma câmera na mão, agora toda uma equipe é orquestrada pela visão de Luis.
O ano também marca a entrada de Tyler como diretor criativo na Converse, que já estava com o pé no universo da moda através da GOLF Le FLEUR, e puxa junto toda a estética desenvolvida nos álbuns. Nesse período lançam juntos uma série de One Star’s coloridos e com visuais similares às do álbum de 2017.
Uma referência muito perceptível é o cinema de diferentes eras. Na fase IGOR (2019), por exemplo, Tyler escolhe falar de temas mais densos e Panch transforma isso em visuais muito inspirados nos códigos do cinema moderno, principalmente os clássicos de Hitchcock das décadas de 1950 e 1960. O zoom que brinca com a ideia de uma câmera sempre presente, perspectivas que mostram diferentes proporções dentro de um mesmo espaço fechado, e a criação de uma tensão por meio do que entra ou não em frame. O clipe de A Boy is a Gun talvez seja o melhor exemplo da fase.
A parceria de sucesso se mantém em Call Me If You Get Lost (2021), agora em cores menos saturadas, tons pastéis e esquetes divertidas. Aqui o cinema não é só referência, é a base de toda a narrativa do álbum. Os videoclipes continuam, claro, mas a história de Tyler Baudelaire, novo alter ego do rapper precisa de mais do que só as músicas para ser contada. Pequenos vídeos dão suporte para o universo do álbum e o período é um dos mais intensos da parceira entre Tyler e Panch.
Como de costume, a relação entre GOLF le FLEUR e Converse se mantém acesa e a marca embarca junto na estética do álbum. Tênis em rosa, azul e amarelo claro pipocam entre os comerciais também fotografados por Luis. Tudo parece muito surreal, mas sempre tem uma história para ser contada em cada filmete. É material que não acaba mais e tudo é muito bem documentado.



Agora, o ápice dessa jornada com certeza é Chromakopia (2024). A evolução técnica se mantém, mas as correlações desenvolvidas álbum após álbum são escanteadas, como forma de mostrar que versatilidade não falta para a dupla. As cores somem e dão lugar para o cinza e o preto, evocando visuais também cinematográficos, agora das décadas de 1930 e 1940. É aquela coisa meio noir, preto e branco, misteriosa e teatral. Hitchcock volta como referência, mas Panch tá de olho em outra fase do diretor.
Outra mudança é que, como já falei no começo, Luis assinou não só os clipes como a própria capa do disco. Um Tyler de máscara, com a mão suspensa de forma dramática te deixa no mínimo curioso pelo gesto. O olhar é de dúvida? Preocupado? Intimidador? Todas as respostas parecem corretas. A preocupação com nitidez também parece diferente em relação aos trabalhos anteriores, que tinham uma pegada mais “lo-fi”, cheia de grãos.
Em entrevista, Perez diz que a ideia não foi só traduzir visualmente a sonoridade ou os temas abordados no álbum, mas fazer dele algo mais interessante. Para isso foi necessário mergulhar em referências, mas se permitir criar. No final das contas, ele e Tyler são pessoas que se estimulam criativamente, e após mais de uma década trabalhando juntos se entendem de forma orgânica.
“Estamos numa sintonia criativa incrível. Parece que somos duas crianças se divertindo, sabe? Como artista, você nem sempre tem a oportunidade de participar de coisas divertidas e que enriquecem sua criatividade.” - Luis Perez
Entre um disco e outro, Luis obviamente seguiu trabalhando e assinou projetos bem conhecidos do público, como os clipes de Good Days da SZA e La Fama, de Rosalia e The Weeknd, além de campanhas para Off White e Jordan, por exemplo. Mas é inegável que a parceria dele com Tyler é onde a liberdade criativa do diretor de fotografia brilha.
Apesar de ficar por trás das câmeras, Panch é um dos grandes responsáveis pelo sucesso de Tyler, e se hoje o vemos como um artista completo, é porque o cara sabe se rodear de pessoas tão talentosas quanto ele. A lição que fica disso tudo é: cole junto de quem te inspira, e se essa pessoa for sua amiga, melhor ainda. Quem sabe disso não sai um disco, um filme, um videoclipe, ou até um Grammy.




