Guitarra de Carnaval

Como a guitarra baiana virou símbolo de virtuosismo e ganhou destaque no Carnaval e em outros ritmos Brasil afora

Guitarra de Carnaval
Luiz Caldas e Armandinho Macedo (Foto: Fred Pontes / instagram @armandinhododoeosmar)

Década de 40 e 50 na Bahia. Nas grandes bandas de Carnaval, a galera das cordas usava violões para performar suas melodias nas músicas. Mas esse rolê de grandes espaços, trios elétricos e a necessidade de amplificar seu som para uma multidão de gente estava trazendo problemas de microfonia para os violonistas. 

A solução veio de Dodô e Osmar, a Dupla Elétrica, a mesma que também é atribuída a invenção dos trios elétricos. Adolfo Antônio Nascimento e Osmar Álvares Macedo pensaram num instrumento que misturava bandolim e cavaquinho, afinado na afinação padrão de um violino ou bandolim (sol-ré-lá-mi) e que podia ser plugado numa caixa amplificadora sem ressoar como os violões faziam. A primeira guitarra baiana se chamou pau elétrico. 

O pau elétrico em suas primeiras versões

O instrumento logo cairia na graça dos músicos e dos foliões, se tornando símbolo de irreverência e identidade do Carnaval baiano, trazendo melodias ao som de guitarras, misturando mais tarde o overdrive e o delay e solando em músicas de axé e de outros ritmos carnavalescos. Logo o pau elétrico passaria a chamar cavaco de trio, sendo incorporado nos trios elétricos - que por sinal tem esse nome porque Dodô e Osmar adicionaram Temístocles Aragão, o Temi, e passariam de dupla elétrica, para trio.

A transformação do formato em guitarra baiana se deu na década de 1970 com Armandinho Macêdo, discípulo do Jacob do Bandolim, quando quis colocar a guitarra de Jimi Hendrix, Beatles e afins, junto dos ritmos brasileiros. Com Moraes Moreira e o A Cor do Som, a guitarra se fez ainda mais presente nas composições brasileiras e logo ele transformaria aquele instrumento em um formato menor, dando início às primeiras guitarras baianas que conhecemos. Isso era 1978 e o instrumento já ganhava ares de uma guitarra tradicional em seu visual, além de uma corda a mais, agora tendo 5.

Um jovem Armandinho Macedo e sua guitarra baiana

A guitarra idealizada por Armandinho e trazida à vida pelo luthier Elifas Santana, incorporando elementos de outros instrumentos, é uma criação genuinamente brasileira, atendendo necessidades de ritmos locais e sendo utilizada por vários gêneros, como o forró, o xaxado, o axé e até no rock. É um instrumento completo, podendo fazer melodias, harmonias, acompanhamentos e afins. 

As primeiras imagens de uma guitarra baiana em 1978

Outro nome importantíssimo na guitarra baiana é o de Luis Caldas, que genuinamente trouxe o instrumento para o Axé Music - ou melhor, criou o gênero com a ajuda do som da guitarra baiana. Nos anos 80, o mix de vozes e guitarras fazia o instrumento se popularizar e ganhar trios do Brasil todo.

Luiz Caldas e sua guitarra

Mas apesar da guitarra baiana ser importante instrumento de melodia em diversos ritmos brasileiros, no fim dos anos 80 em diante, a guitarra baiana foi perdendo espaço no trio elétrico, enquanto o acréscimo de vozes foi ficando cada vez mais frequente. O que antes eram músicas com espaços bem definidos de instrumentais e vozes, agora começavam a explorar letras cativantes, com refrões repetidos a cada bloco, deixando o vocal à frente de tudo e os instrumentos de melodia como bases para as letras. 

O espaço da guitarra baiana hoje

Apesar dos hits do Carnaval necessitarem fortemente dos vocais e das letras ainda, a guitarra baiana vem ganhando espaço novamente há um bom tempo. Em 2013, a guitarra baiana se tornou tema de Carnaval na Bahia,

A evolução da guitarra baiana

Grupos instrumentais de Carnaval, aliados à alta do interesse ao instrumental em lugares que não só consumiam o Carnaval em si, possibilitaram um espaço enorme para que o instrumento ganhasse os holofotes com novos nomes - um desses, fortes entusiastas da guitarra baiana é o BaianaSystem. 

Beto observando o mestre Armandinho (foto: Cartaxo)

Beto Barreto, guitarrista do BaianaSystem é um dos principais nomes levando o instrumento à frente no século XXI. A banda é responsável por um revival importante da guitarra baiana, mesclando rock, choro e poderosos elementos do axé em trios elétricos e apresentações diversas. 

Hoje músicos diversos levam o legado da guitarra baiana pra além dos palcos. Na internet, se destacam Patty Kiss, BaianaSystem, Bia Villa-Chan, Júlio Caldas, Jubileu Filho, Marcos Stress, entre outros. Os modelos da guitarra baiana também variam, podendo ter tremolos diversos, captadores humbuckers, dois braços, 4, 5 ou 6 cordas e tudo o que a imaginação da pessoa que toca permitir.

Bia Villa-Chan e seu modelo de guitarra baiana, a BaianaLady, pela MethallGuitars

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