Fernanda Porto e Sambassim são sinônimos de Drum’n’Bass Brasileiro

Sambassim completa 25 anos em 2026 e ganha versão inédita - mas claro que nosso papo não ficou só no hit da Fernanda

Fernanda Porto e Sambassim são sinônimos de Drum’n’Bass Brasileiro
(foto: acervo Fernanda Porto)

O ano era 2001 e uma música não parava de tocar nas rádios do Brasil e do Reino Unido. A voz de Fernanda Porto e a produção do DJ Patife com o XRS Land faziam uma música do Drum’n’Bass Brasileiro se tornar um hino.

Sambassim se tornou sinônimo do gênero, ampliando suas capacidades para outros artistas e DJs fazerem suas versões e remixes. A música atravessou fronteiras geográficas, passou no teste do tempo e em 2026 ganha versões nunca antes ouvidas, mas que foram base para que o DJ Patife remixasse o som da Fernanda Porto e fizesse o Sambassim como conhecemos e ouvimos nas rádios. 

Mas a carreira da Fernanda Porto foi além, tendo outros hits emblemáticos, brincando com músicas autorais e de outros artistas em diversos estilos, cantando, tocando e interpretando com muita maestria. Ver a Fernanda se apresentar no começo de 2026 foi prova viva de que ela continua sendo uma artista completa. 

Continuando a nossa série sobre o Drum’n’Bass Brasileiro aqui na ISMO, batemos um papo com a Fernanda, falamos sobre os 25 anos da Sambassim, sobre sua relação com o Drum’n’Bass, sobre sua carreira e sobre seu momento atual na música. 


Oi Fernanda, tudo bem? Vamos do começo: quando você conheceu o Drum’n’Bass?

A data exata eu não lembro… Eu conheci o XRS, o Xerxes de Oliveira, em uma Expo Music. Fui procurar um software que na época não tinha no Brasil ainda, o Logic Q Audio e o Xerxes ficou impressionado que eu conhecia o software, mas eu conhecia porque comprava as revistas de DJ gringas da época. Antes eu usava um que chamava Notator, porque fazia trilhas para cinema e precisava de coisas que tinham sincronismo com o vídeo. Ele achou muito legal eu saber de tudo isso e a gente ficou conversando ali. 

A gente quis conhecer o trabalho um do outro e ele foi no meu estúdio mostrar as coisas dele. Aí ele me mostrou o que estava fazendo e era um estilo que ele tinha descoberto em Londres e na hora eu já amei aquilo - e era o Drum’n’Bass. Aí comecei a pesquisar mais a fundo - fui na Galeria 24 de Maio, em São Paulo, buscar os poucos discos que eu sabia que tinham no Brasil sobre o assunto, e era muito caro, mas o nível de paixão foi tamanha que não importava o preço. 

Eu já buscava uma sonoridade diferente. Já tinham acontecido outras fases da minha carreira em que gravadoras me procuraram mas eu não queria porque gostava de eletrônica diferente, de trip hop, da Bjork, do Liminha como produtor, gostava dos Titãs… Eu gostava de MPB mas não exatamente era a minha maior influência - essa coisa da influência não acontece porque a gente quer, a gente é influenciado organicamente, porque aquilo nos chama atenção. Eu gostava de pop nacional, eu cantava música autoral, mas já fazia shows com banda e sequenciadores. 

A partir do Drum’n’Bass, da batida, do break beat, da síncope rítmica, aí entendi porque gostei daquilo e acabei voltando para a Bossa Nova e pro Samba. O frescor do Drum’n’Bass me fez voltar pra estilos que eu comecei tocando, quando era adolescente, e que tenho que reconhecer hoje, eram minha influência artística mais verdadeira, mas que eu negava porque não queria fazer um MPB tradicional. 

A Fernanda nos anos 2000 (foto: acervo Fernanda Porto)

Eu sou uma pessoa que teve algumas dificuldades antes, fui expulsa de casa, passei fome, fiquei morando em casas de amigos… Então ir para Londres pesquisar um ritmo, é porque foi uma paixão verdadeira. Fiquei 6 meses lá, morando na casa de um amigo, indo em toda balada que tocava Drum’n’Bass, precisava entender aquilo. Fui parar na balada do Goldie, a Blue Note, que tinham 3 andares de Drum’n’Bass, foi uma explosão na mente. Lá eu mostrei meu CD Demo para um conhecido com quem eu já fazia trilhas antes, e nesse CD tinham duas músicas já com Drum’n’Bass, A Eletricidade, que está no meu primeiro disco, e Pensamento, que está no segundo. 

Ele ouviu esse disco e mandou para uns conhecidos, até chegar no Norman Cook, da SKINT Records. Na época eu pensei “xiii, vou eu parar nos alternativos” (risos), mas só quando cheguei no Brasil eu me liguei que era o Fat Boy Slim o dono da gravadora! Ele ouviu e gostou das únicas músicas que tinham Drum’n’Bass. Nunca rolou um contrato nem nada, mas se ele gostou, pensei que era algo que eu precisava continuar fazendo. 

Aí voltei para o Brasil e continuei fazendo minha demo, mas eu meio que escondia, porque o meu desafio era fazer canções com Drum’n’Bass e achava que esses meus amigos da eletrônica iam achar que era “canção demais” e pouco eletrônico. Um das músicas da demo perguntava se eu podia misturar o samba com o Drum’n’Bass e era uma dúvida legítima!

Eu era amiga de vários DJs que frequentavam a casa do Xerxes. Ali conheci o Drumagick, o Ramilson, mas não o Patife. Com ele, foi diferente, fui em um show dele no Sesc Consolação e entreguei um CD Demo meu, que fiz tudo sozinha, com algumas músicas que já eram Drum’n’Bass. Ele levou uns meses pra ouvir e depois me ligou falando que tinha adorado umas músicas, principalmente a Sambassim e queria remixar. Eu falei “claro”, e entreguei as tracks todas abertas pro Patife. 

Ele fez, mostrou para a V Recordings e depois a música viria a se tornar a principal faixa no Brasil EP, de 2001. Depois disso, todas as gravadoras me procuraram. 

O clipe de Sambassim, com o Patife arrepiando na dança - um clássico

Mais uma vez, nas conversas de Drum’n’Bass, o nome do Xerxes aparece como importante no Drum’n’Bass brasileiro. Qual o papel dele na sua caminhada? 

O Xerxes é fundamental! Ele é um gênio. Ele me apresentou o Drum’n’Bass, me ajudou a produzir, ensinou outros produtores também. Ele que fez o remix do “Sambassim” junto do Patife, que foi meio que o “diretor de cinema” do lado. 

Ele é muito importante, ajudou muito gente, é um gênio do gênero. 

Vocês usaram muitas músicas de outros artistas da MPB, como o Só tinha de ser com você, do Tom Jobim, além é claro de músicas autorais que vocês criaram. Mas como era usar músicas clássicas da MPB, como era essa repercussão dentro mesmo do meio musical? Os donos das músicas ficavam chateados ou curtiam?

Vou te contar a história dessa música primeiro. A novela “Um anjo caiu do céu” queria uma versão da Só tinha que ser com você de clube, porque tinha uma festa na novela. Perguntaram quem poderia fazer e me chamaram, porque eu estava fazendo o Drum’n’Bass. A gente gravou de novo, a autoria do Jobim e do Newton Mendonça, mas eu acho que a gente nunca foi criticado porque tinha qualidade, sabe? Eu estudei Tom Jobim a vida toda e essa música eu gravei como cantora, mas sabia tocar no violão ela inteira… 

O fonograma original que estourou foi gravado pelo Ulisses Rocha, um violonista maravilhoso, pelo Dudu Marotti, um grande produtor, então foi algo muito bem feito, cuidado, sabe? Ninguém errou.

Nessa fase, até um detalhe assustador, eu não tenho nenhuma crítica (risos). Depois, mais pra frente, fiz o Roda Viva e o Chico Buarque até participou. Não teve essa história deles ficarem chateados, acho que música boa ela pode se reinventar. Gosto dessa experiência que a vida me trouxe de jogar coisas sofisticadas, como essas músicas da MPB e jogar no Drum’n’Bass e a música ir para outro lugar, para outros públicos. 

Roda Viva teve participação de Chico Buarque - em sua própria música

Onde estava sua carreira no fim dos anos 90 quando você conheceu o Drum’n’Bass? 

Eu vivia de trilha, então às vezes não tinha tempo de fazer shows. Você é chamada pra fazer trilha, você tem que atender! Eu tinha músicas minhas que fazia com banda, mas nunca tinha gravado, minhas primeiras gravações foram com o Drum’n’Bass! 

Eu até tinha um público, era respeitada, jornalistas me davam alguma review aqui e ali, mas era muito menor do que foi depois. O primeiro fonograma da minha vída foi o Sambassim e só depois veio meu disco. 

E qual o papel da Trama e da Sambaloco na sua carreira? 

Acho que como foi uma gravadora que tinha um interesse muito grande pelo eletrônico, escolhi a Trama por isso, por uma questão de estilo. Fui procurada por outras gravadoras, mas quis ir para lá porque era o lugar onde estavam as pessoas do eletrônico brasileiro. 

Mas é interessante lembrar que a história do Sambassim veio antes da Trama, embora existisse o Sambaloco. A Inglaterra que lançou os caras antes e o estouro foi mundial. Em termos de criatividade, eu transferi o que tinha feito no meu estúdio pra Trama e o meu primeiro CD é igual à demo que eu tentei apresentar ao mercado anteriormente. 

Isso tudo foi nesse ápice do gênero, no começo dos anos 2000? 

Sim, 2001, 2002. Quando lancei meu disco, outubro de 2002, eu viajava pelo Brasil todo e a galera já conhecia minhas músicas. Eu chegava lá e as pessoas já sabiam cantar. Quando lançou, vendeu 80 mil cópias em uma semana! 

Nesse disco, eu gravei todos os intrumentos, produzi as músicas, a primeira mulher brasileira a produzir o próprio álbum. Vender mais de 100 mil cópias em um disco que fiz sozinha, foi um marco, sabe?

Tem até uma história engraçada de um fã que comprou um CD player roubado e tinha um CD meu dentro e ele virou fã assim (risos). 

O primeiro disco da Fernanda levava seu nome

Mas existia uma expectativa que todas as suas músicas fossem ligadas ao Drum’n’Bass nessa época? 

O desejo de fazer tudo com Drum’n’Bass veio antes de fazer sucesso, meu primeiro CD já existia antes e era exatamente assim. Eu só revisei as músicas, não fiz por causa de uma alta do gênero nem nada disso. 

Quando foi o momento que você percebeu que o gênero era gigantesco? 

Quando eu fui nas baladas, na Lov.e e na Broadway, as pessoas cantando… As minhas idas pra balada e a galera queria que eu cantasse, chegava lá e tinha 2 mil pessoas. E também o fato de outras músicas terem estourado, como Baque Virado, Tudo de Bom e Amor Errado. Chegava nos lugares e as pessoas cantavam inteiras.

Quando fui pra Londres, que fomos convidados para lançar o Sambassim por lá, só tinha gringo cantando. Mas fiz questão de lançar no Brasil antes - lancei pela Trama em 2002 e por lá em 2003. Lá fiz uma turnê com o Mad Zoo e senti que a paixão pelo meu som veio primeiro pelos Europeus. 

Alguém na Inglaterra falou assim em uma matéria “O Drum’n’Bass é como o futebol: o inglês inventou e o brasileiro que sabe jogar”, mas aí eu falo exatamente dos DJs, que sabiam tocar muito. 

Nesse rolê a Fernanda e o Patife lançaram o Sambassim na balada Cargo, na Inglaterra, em março de 2001

Vamos falar do Sambassim? Esse ano completou 25 anos e a gente pode conhecer a primeira versão que você entregou pro Patife, lá em 2001. Me conta um pouco sobre a música. 

Acho que o Sambassim deu certo por ser uma harmonia de Bossa Nova que tem um acorde só que muda de vários tons e isso conversa com os DJs, porque quando você sampleia tem isso de passear por um acorde só. Mas por que os DJs abraçaram essa música? Não tem muita explicação (risos). 

Quando eu levei essa música pro Patife, ele curtiu muito e quis remixar e é claro que eu deixei. Foi uma aposta muito assertiva minha com ele, ele comigo e das pessoas que acreditaram nessa música. Como disse anteriormente, fez sucesso primeiro na Europa, depois aterrisamos ela por aqui e lançamos pela Trama em 2002. Mas os primeiros registros são de 2001 e hoje foram lançados através da DNBB, que é onde tenho meu selo hoje, o Tropical Lab Records. 

O Sambassim nasce de um desejo de misturar o samba com eletrônico. Depois nas mãos do Patife e do XRS Land que a música se tornou o que se tornou. A música estava sendo ouvida bastante na Inglaterra e saiu em mais de 40 coletâneas no mundo todo, incluindo Japão, Estados Unidos, América Latina...

Esse lançamento do Sambassim 2000 é um marco pra mim porque foi exatamente esse fonograma final que eu entreguei pro Patife, no Sesc, lá em 2001. As novidades agora em 2026 são lançar o Sambassim com o Patife no meu selo, o Tropical Lab Records, e essa versão do Sambassim 2000, que não é conhecida. Muita gente acha que eu era só cantora, mas na verdade essa já era uma produção minha de samba com drum'n'bass e essa é uma oportunidade de corrigir isso, de lembrar as pessoas que também fui e sou produtora, além de cantar. É importante pra mim que as pessoas me lembrem também como produtora de música eletrônica.

O recém-lançado Sambassim 2000, a primeira versão da música

Hoje a música ainda vive muito forte em outras pessoas. Já tem 5 remixes novos, além do Bruno Martini, que fez uma versão em 2023. Fora uma coisa muito louca que rolou que foi o Kim Taehyung, do BTS, aparecer cantando Sambassim em uma live, do nada. Isso mostra que a música é viva e que pode ser escutada e reinterpretada até hoje por muitas pessoas, chegando em públicos que talvez nem me conhecessem.

Isso mostra a força de um hino do gênero, uma música que se tornou um clássico, né? Mas mesmo com essa força do seu som e de outros, o Drum’n’Bass teve um período curto de alta, poucos anos. Como foi pra vocês quando foi ficando menos popular? 

Eu não consigo fazer algo que não estava afim. Quando eu fiz um disco inteiro de Drum’n’Bass, foi uma verdade na minha vida, mas fiquei estigmatizada como alguém atrelada ao gênero. No segundo disco, eu não trouxe tudo em Drum’n’Bass, lembro até que ficou uma mistura de comparativos entre um disco e outro. 

Nesse segundo disco, chamei o Living Colour pra gravar comigo, gravei com banda, era algo com outros experimentos. Depois disso comecei a ser chamada como intérprete e gravei muita coisa diferente. O Drum’n’Bass passou a ser um dos estilos que eu gostava e fazia, sabe? A minha carreira se distanciou naturalmente da cena, então eu não vivi tanto essa baixa do gênero, até por ter me cansado um pouco de ter ficado num lugar só. 

Eu não queria participar de uma facção de um gênero musical (risos). No começo do século a galera até trocava de roupa no ônibus pra não apanhar, as tretas em São Paulo de gêneros musicais eram muito reais. Aí entendi que não queria bandeira nenhuma, sabe? Eu prefiro que a música me leve aos lugares, não ser uma defensora eterna de um gênero só. 

E hoje, como está sua carreira agora? 

Eu gosto de tudo o que é novo. Lancei um disco recente chamado Contemporâne@ cantando autores recentes. Muita gente fala que a MPB acabou ou algo do tipo, mas eu não acho e nesse disco quis exaltar autores mais novos. O DJ Zé Pedro me deu essa sugestão e gravei no meu estúdio, piano e voz. 

Gosto de novidades, adoro ouvir músicas novas, é como a vida é interessante. Estou sempre procurando coisas novas. Recentemente foquei nas mulheres, nas compositoras, e quando você vê, tem muita coisa legal.

O álbum de 2022 da Fernanda Porto

Junto da DNBB tiveram alguns remixes de sons meus recentemente, como o Roda Viva e Tudo de Bom. E, é claro, o Sambassim 2000, que é a primeira versão da música, que nunca tinha visto a luz do dia (risos). 

Fernanda Porto e DJ Patife no palco em 2026. ÉPICO!

O remix de 25 anos da Sambassim - todos lançamentos recentes foram feitos pela DNBB


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