Do tecido ao pixel

A fusão entre games e moda é um caminho sem volta

Do tecido ao pixel
Fortnite x Balenciaga

Bora combinar que há alguns anos, dificilmente veríamos paralelos entre moda e videogames, esferas culturais completamente diferentes, sendo uma associada à um pensamento quase sociológico, um mercado secular e de materialidade têxtil, enquanto o outro é de total entretenimento e dominado massivamente por jovens. Até que, um enxergou no outro novas possibilidades e, o que começou como marketing evoluiu para uma simbiose de proporções malucas, onde grifes de luxo se inspiram nas estéticas digitais, investem na criação de ecossistemas e redefinem o significado de “se vestir”.

É possível dizer que atualmente a sociedade digitaliza a própria identidade e o metaverso – quem lembra quando a palavra explodiu? – deixa de ser uma promessa, para assumir o papel de campo de auto expressão. O mundo gamer, até começou como brincadeira de criança, mas hoje gira cifras maiores que hollywood e a indústria da música. Logo, fica difícil ignorar este universo.

Snoop Dogg em Call of Duty Modern Warfare 2

Apesar de virar termo do dia a dia pelos Gen-Z, é importante dar um passo pra trás e entender o conceito de skin no universo dos games. Originalmente, skins eram uma simples alteração visual, seja em cor ou remodelagem, de um personagem ou item de jogo digital, uma forma de personalização, geralmente paga. Em jogos multiplayer populares como League of Legends, ou de Tiro em Primeira-Pessoa (FPS), tipo Counter Strike, as skins foram se tornando ferramentas de status, e quando estamos falando de jogos competitivos, mesmo algo que não tem função prática em nível de performance, esse apelo visual ganha outros contornos. 

Com a popularização de jogos gratuitos, as desenvolvedoras foram criando novas formas de monetizar, criando um sistema que hoje chamamos de microtransações, modelo que fez da skin o principal motor economico de franquias bem famosas como Fortnite e PUBG. O jogador paga um por item digital que, por mais que não tenha nenhuma vantagem de uso, oferece algo bem mais valioso pra quem é da comunidade: identidade e exclusividade.

Com o tempo, o que era só uma alteração de cor, ou formato, passou a ter um valor técnico e estético muito elaborados, e hoje vários desenvolvedores de jogos aplicam princípios de design, moda, luz, teoria das cores e até storytelling visual para criar um traje. O movimento me lembra um pouco o que rolou com a arte de rua, que saiu do underground para as galerias de arte contemporânea, mostrando que não importa o suporte, o valor está na ideia e na execução.

O ponto de virada de verdade rolou quando grandes maisons de luxo perceberam valor nesse rolê nerd e entenderam que tinham capilaridade cultural pra chegar junto como ativos digitais. Talvez o marco inicial dessa fase tenha sido a colaboração da Louis Vuitton com a Riot Games, criadora do League of Legends, na época, o jogo online com maior números de usuários ativos no mundo. 

Sob a direção criativa e artística de Nicolas Ghesquière, a marca francesa desenhou o estojo de viagem do troféu do mundial de LoL, colocando manualidade e artesania real no mundo de um jogo digital. E se uma roupa assinada por Nicolas custava algumas centenas de euros, os jogadores tiveram a oportunidade de comprar skins da LV por alguns reais.  Na época, o movimento foi genial, movimentando milhões para as duas empresas e conectando dois mundos, até então distantes.

No ano seguinte, em meio a pandemia, as marcas precisaram se reinventar para apresentar seus novos designs para o mundo, e sob o comando de Demna Gvsalia, a Balenciaga criou Afterworld: The Age of Tomorrow, um jogo que serviu de base para a coleção de outono. O universo futurístico e distópico funcionou como passarela e uniu a estética dos jogos digitais com o legado centenário da marca.  A porta foi aberta e os dois mundos se reconectaram em 2021, quando o Fortnite anunciou que skins feitas pela Balenciaga estariam disponíveis para compra. Puro luxo digital.

Essas colaborações demonstram um reconhecimento bem importante: a moda não é apenas sobre tecidos. Se o que a define é a expressão de uma identidade visual em contextos sociais, logo, o meio digital com seus avatares e metaversos pode ser o laboratório de experimentação.

E a loja da Gucci no Roblox?

No plano virtual, restrições de matéria, durabilidade e até gravidade deixam de existir. Um designer não precisa se preocupar com o peso do tecido, a sustentação, modelagem ou mesmo custos de produção em escala, para colocar sua ideia pra jogo. Isso permite que a criatividade explore novos volumes, texturas, cores e efeitos impraticáveis no mundo real. 

Quer um vestido de luz pulsante? Feito. Armadura líquida? Claro, faço agora. Pixels substituem rolos de tecido e maquinário para criar peças-conceito. A plataforma DressX aproveitou essa possibilidade para vender produtos que são vestidas em fotos ou avatares, alimentando um desejo de posse visual que só existe dentro daquele universo. Obviamente que os códigos do luxo, como a escassez, também são adaptados para a nova realidade.

Por outro lado, a democratização do design de skins e o fácil acesso a ferramentas de modelagem 3D, trouxeram novos artes para a indústria, que agora funciona quase como um DIY. Hoje, qualquer pessoa pode criar e monetizar suas próprias coleções de roupa virtual. No Roblox, por exemplo, tá cheio de gente construindo economias digitais. Crianças tocando marcas! 

A questão da sustentabilidade ainda está em discussão, já que a IA se tornou ferramenta quase obrigatória dentro desses espaços, e os estudos sobre consumo de água para cada prompt ainda estão em desenvolvimento. Mas vamos combinar, a industria da moda nunca foi das mais preocupadas com ESG, e no digital o caminho que parecia ser diferente, tem se mostrado só uma adaptação da realidade nesse sentido. 

Fato é que a convergência entre games e moda já é um fenômeno irreversível. É uma nova fonte de receita para marcas e uma virada da própria cultura visual. Converse e Vans publicam seus lançamentos sempre que uma atualização é feita no Fortnite, e se conectam com uma comunidade que talvez não se importasse tanto com o que calçar no rolê. Os games há anos trabalham com personalização e upgrades, e agora representam pra moda novos ativos: velocidade, acessibilidade e comunicação em massa.

Converse no Fortnite

ISMO
Cultura em movimento

Assine nossa newsletter e receba
as últimas notícias em 1ª mão!

Assine agora