Diferente como antes: o retorno inquieto do Cidadão Instigado
Após 11 anos, banda liderada por Fernando Catatau lança novo álbum que conecta passado e presente com experimentação, ruído e novas colaborações
“Diferente como antes” não soa como contradição dentro do universo do Cidadão Instigado — soa como método. Onze anos depois de Fortaleza (2015), a banda retorna com um novo álbum homônimo que reafirma justamente aquilo que sempre a moveu: a recusa em se repetir, mesmo quando revisita seus próprios caminhos. Liderado por Fernando Catatau, o grupo reaparece mantendo sua identidade, mas expandindo suas possibilidades.
Gestado a partir de 2020, durante o isolamento social, o disco nasce das experimentações de Catatau com o sampler Roland MV-8800. A partir dessas sessões, surgem as batidas e texturas que estruturam o álbum, construído sobre o encontro entre guitarras, eletrônica lo-fi e ruídos digitais. Com 13 faixas inéditas, o trabalho foi desenvolvido ao longo de quatro anos, sob direção musical de Catatau em parceria com Dustan Gallas, consolidando um processo que mistura intuição, pesquisa sonora e lapidação paciente. O álbum Cidadão Instigado chega ao mercado em edição do Selo Risco em parceria com a Nublu Records.

As participações entram como extensões naturais desse universo. Juçara Marçal divide com Catatau a criação e gravação de “Sangue no chão” e “O grande vazio”, adicionando densidade emocional ao disco. Em “Sobrevivendo”, Mateus Fazeno Rock aparece como parceiro e convidado, conectando o trabalho a uma nova geração que também tensiona os limites entre música, ruído e discurso.
Outros encontros ampliam ainda mais a paleta do álbum. Ava Rocha participa em “Tremendo”, enquanto Jadsa atravessa diferentes momentos do disco, com vocais em “Daqui desse lugar” e contribuições em “Nuvem movimento” e “Pressão”. Já “Medo do invisível”, parceria com Kiko Dinucci, reforça o diálogo com uma cena que vem expandindo os contornos da canção brasileira contemporânea.

Há também um gesto de retorno às origens em “Tudo vai ser diferente”, faixa que reúne Catatau com o núcleo criativo original da banda — Clayton Martin, Dustan Gallas, Regis Damasceno e Rian Batista — criando um elo direto entre passado e presente dentro do próprio disco.
Mais do que um retorno, o lançamento reafirma o lugar do Cidadão Instigado como um ponto fora da curva na música brasileira. Em um cenário frequentemente guiado por fórmulas, o grupo insiste na invenção como linguagem, e faz disso não apenas uma estética, mas um posicionamento contínuo.