Da lama ao Air Max: há 17 carnavais, o maracatu virou tênis

Dois projetos que transformaram fantasia em sneaker e manifesto cultural

Da lama ao Air Max: há 17 carnavais, o maracatu virou tênis

Hoje seguimos com o especial de carnaval aqui na ISMO seguindo o mesmo recorte que abriu essa série: pensar a cultura sneaker a partir da festa mais brasileira de todas, o carnaval. Se no primeiro texto partimos do bate-bola para discutir uma estética que já era parte da cultura sneaker sem às vezes nem mesmo se reconhecer como tal, agora a direção é oposta. Neste artigo, é o sneaker que se curva diante de uma cultura popular centenária e vira linguagem, homenagem e sustentação.

Onde pisa o caboclo de lança

O maracatu de baque solto é um dos carnavais mais antigos e menos compreendidos do Brasil. Nascido entre os cortadores de cana da Zona da Mata Norte de Pernambuco, ele carrega nas batidas, nas cores e nos corpos a história de um povo que transformou trabalho duro em rito, e religiosidade popular em estética. Diferente do maracatu nação, que desfila com cortejo real e influências afro-católicas, o baque solto é do mato, do campo, da lama. Sua origem está ligada aos canaviais, à umbanda e ao catolicismo popular, às mesclas que definem o sincretismo brasileiro.

O personagem central dessa manifestação é o caboclo de lança: figura mística que carrega nos ombros mais de trinta quilos de fantasia e responsabilidade. A gola bordada com miçangas e espelhos reflete luz e afasta o mal. Os chocalhos anunciam sua chegada. A lança, instrumento de defesa e coreografia, delimita seu espaço. O cravo na boca, os óculos escuros, o silêncio: tudo nele é linguagem. O caboclo não fala, mas tudo o que veste comunica.

O caboclo de lança, expressão do maracatu rural

Durante os quatro dias de carnaval, eles atravessam cidades pequenas com a força de um cortejo que não pede permissão. O maracatu de baque solto ocupa ladeiras, ruas de barro, praças de igrejas e carrega, junto com o peso da fantasia, a memória de um Brasil camponês que raramente vira vitrine.

Mangue e tradição: um terreno fértil para o novo

Nos anos 1990, outra força cultural brotou da lama da Zona da Mata: o movimento manguebeat. Nascido da inquietação de artistas como Chico Science, Fred 04, Otto e Siba, o manguebeat propunha uma síntese ousada entre tradição e modernidade. Misturava ritmos populares como maracatu, coco e ciranda com rock, hip hop e eletrônica. Era ao mesmo tempo raiz e futuro.

Chico Science, um dos maiores nomes do manguebeat

Para além de estilo musical, o manguebeat foi um movimento estético, político e simbólico. Uma linguagem visual, sonora e comportamental que reivindicava lugar para um Brasil profundo, diverso e não estereotipado, fazendo do contraste entre a lama do mangue e as tecnologias urbanas uma metáfora viva. O manguebeat é o encontro entre o tradicional e o futurista.

Quando um tênis vira tradução

Foi desse lugar e dessas imagens que saiu um dos tênis mais emblemáticos da cultura sneaker brasileira. Em 2009, para comemorar os dois anos do SneakersBR, Ricardo Nunes decidiu criar algo que fosse dele. Pernambucano, queria falar de cultura local. Junto ao designer Fabricio da Costa Machado, traduziu o caboclo de lança em um Nike Air Max 1.

Ricardo Nunes e Fabricio da Costa Machado desenvolveram o Nike Air Max 1 "Lanceiro"

Mas transformar um personagem ritual em um produto de moda não foi simples. O desafio era grande: evitar que a fantasia virasse fantasia no sentido frívolo, escapar dos clichês tropicais, construir um tênis que fosse interpretação, não caricatura. Segundo entrevistas posteriores, tanto Ricardo quanto Fabricio estavam cientes da responsabilidade. Buscaram respeitar as camadas simbólicas da figura e traduzir a potência do maracatu de baque solto sem diluí-la em estampa.

Um manifesto em forma de cabedal e solado

O cabedal do Air Max 1 "Lanceiro" combinava camurça, couro e mesh, numa reverência à versão clássica do Air Max de 1987. As cores remetiam à bandeira de Pernambuco, com predominância de azul e branco. O grafismo pontilhado do colarinho simulava os bordados manuais das golas dos caboclos. A etiqueta holográfica da língua exibia a silhueta de um lanceiro com peruca metálica, óculos escuros e o cravo na boca.

A entressola trazia salpicados que remetiam à lama dos mangues. O solado translúcido trazia mais marcas de lama e um caranguejo feito de miçangas coloridas. A cápsula de ar amarela simbolizava o sol. Já o painel traseiro carregava, em material refletivo, uma frase de Chico Science: “um passo à frente e você já não está mais no mesmo lugar”.

O modelo foi pensado com materiais sustentáveis, como o EPM (Environment Preferred Material), reforçando um discurso ecológico alinhado à preservação do mangue. Um tênis que calçava e afirmava, que homenageava e se posicionava.

O lançamento aconteceu na loja Homegrown, no Rio de Janeiro. Não demorou para o modelo se tornar cobiçado por sneakerheads e colecionadores. Apareceu em revistas japonesas, em sites internacionais especializados, e ganhou cotações altíssimas em plataformas de resale, chegando a ser vendido por mais de seis mil reais.

O que o mundo viu

A recepção internacional ao Air Max "Lanceiro" surpreendeu. Os portais especializados destacaram a originalidade da proposta, mas também se mostraram curiosos com a estética incomum. O tênis era colorido, carregado, diferente do que se costumava ver em colaborações da Nike. Para muitos colecionadores e jornalistas, era a primeira vez ouvindo falar em maracatu rural ou em caboclo de lança. E isso não é pouco.

O que chegou lá fora foi um recorte visual potente, mas também um convite à descoberta. A colaboração provocou interesse em um Brasil que não passa pelas praias e nem pelo clichê do futebol. Era o Brasil da mata, da cor, do ritual e de um outro jeito de brincar carnaval.

As mulheres que entraram na roda

Mais de uma década depois, essa história ganharia um novo capítulo. Em 2021, em plena pandemia, o SneakersBR e a Converse lançaram duas versões do Chuck 70 "Lanceira". Dessa vez, o foco era outro: dar visibilidade e apoio às mulheres que, ao longo dos anos, romperam a tradição que as mantinha fora do maracatu de baque solto.

Durante muito tempo, o universo dos caboclos foi exclusivamente masculino. A fantasia era pesada demais, diziam. A religião não permitia. Não era lugar de mulher. Mas Eliane Rodrigues e outras integrantes do grupo Coração Nazareno, em Nazaré da Mata, foram mudando isso com perseverança, coragem e organização comunitária. Atravessaram o preconceito, costuraram suas próprias golas, formaram novas brincantes. Fizeram história.

O que se sustenta com costura e colaboração

A colaboração com a Converse não foi apenas estética. Durante a pandemia, ela viabilizou oficinas de costura, apoiou a sede da AMUNAM (Associação das Mulheres de Nazaré da Mata), financiou produção de fantasias e manteve em atividade uma cultura que, naquele momento, estava ameaçada pelo isolamento. Foi mais do que homenagear: foi sustentar.

A moda, nesse caso, serviu como ponte. O tênis registrou uma história e ajudou a mantê-la viva. Colocou nas vitrines um carnaval que, às vezes, nem aparece nos editais.

O projeto do Converse Chuck 70 "Lanceira" contou com uma camada importante de responsabilidade social

O tênis como plataforma, o carnaval como linguagem

A cultura sneaker brasileira é cheia de expressões que não passam pelos holofotes. Em muitos espaços, o tênis é linguagem. É afirmação estética, além de status. É arquivo vivo de referências que nem sempre chegam com nome, mas chegam com força.

Quando um Air Max carrega lama e miçanga, ele carrega também memória e disputa simbólica. Quando um Chuck 70 homenageia uma lanceira, ele está ajudando a manter de pé uma tradição que quase não teve tempo de ser reconhecida. E quando a gente fala de cultura sneaker e carnaval por aqui, não é sobre o que vai no pé do folião no bloco, mas como um impacta no outro - dentro do Brasil e para fora dele.


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