CRIOLO, AMARO E DINO

Disco colaborativo amplia o encontro para além da soma de estilos

CRIOLO, AMARO E DINO

Lançado hoje, CRIOLO, AMARO E DINO nasce do encontro entre três artistas de trajetórias sólidas, reconhecimento amplo e, sobretudo, uma disposição real para a escuta e para o risco. Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago partem de universos distintos, rap, jazz, música afro-atlântica, mas recusam a lógica da soma de estilos. O disco não busca fusão nem síntese fácil. Ele se constrói a partir do deslocamento, da troca e da criação de um território comum.

Ao longo do álbum, tudo funciona como conversa. O piano cria espaço e respiração, as vozes transitam entre palavra, canto e presença quase espiritual, e os silêncios têm peso estrutural. Não há protagonismo fixo nem disputa por atenção. Cada elemento entra e sai com precisão, respeitando o tempo da música e o tempo do outro. É um trabalho guiado pela contenção, pela escuta e pela confiança mútua.

Criolo, Dino e Amaro, elegantes na música e nas vestimentas

Os temas atravessam identidade, memória, ancestralidade, fé e pertencimento sem recorrer ao discurso direto ou à obviedade. Essas camadas aparecem diluídas na forma, nos timbres e nas escolhas harmônicas e rítmicas. O disco fala muito sem precisar afirmar, sugerindo mais do que explicando, deixando espaço para que o ouvinte complete a experiência.

Existe também uma dimensão geográfica e simbólica central. O álbum constrói pontes entre Brasil, África e diáspora não como conceito ilustrativo, mas como vivência sonora. Ritmos, acentos e melodias se encontram de maneira orgânica, criando uma linguagem própria que escapa de rótulos, expectativas de gênero e leituras simplificadoras.

A arte da capa é assinada por Vik Muniz, o que reforça a grandiosidade do encontro. Não como adorno ou chancela de prestígio, mas como mais uma convergência de trajetórias consistentes, guiadas por rigor, sensibilidade e experimentação. A escolha de Vik Muniz amplia o projeto para além da música e posiciona o disco como um acontecimento cultural.

Em dezembro de 2025, tive a oportunidade de ver e ouvir o repertório do disco ao vivo na festa de dois anos do Matiz, em um palco montado embaixo do Viaduto do Chá, em São Paulo. A química entre os três é potente, evidente e rara. Dada a agenda individual de cada artista, apresentações desse disco tendem a ser exceção. Então, se surgir a oportunidade de vê-los ao vivo, vale ir sem pensar duas vezes.

CRIOLO, AMARO E DINO é um disco que pede tempo, presença e escuta atenta, e que recompensa quem se dispõe a viver a experiência por inteiro.


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