Cinemas de rua vão salvar o cinema

Quando seu tempo é disputado por todo mundo, a saída pode estar numa sala escura

Cinemas de rua vão salvar o cinema

Cinema e Brasil voltaram a ocupar a mesma frase e estão na boca do povo, e agora com um certo orgulho. Recentemente um amigo compartilhou comigo a história de sua família, que foi em peso assistir “O Agente Secreto”, ocupando quase uma fileira inteira de cadeiras, com pessoas entre 11 e 63 anos, empolgadas para ver o último grande sucesso nacional. Fiquei surpreso porque ver a sala escura ocupada por grupos tão grandes e diversos parecia um hábito em extinção.

O timing também foi curioso. Na mesma semana desse relato, o Nubank anunciou que irá reabrir o Cine Copan, espaço que funcionou no térreo do icônico edifício no centro de São Paulo, entre 1970 e 1986. A sessão de inauguração, aliás, foi 007: A serviço secreto de sua majestade. Coincidência meio poética e até simbólica. O investimento milionário da fintech promete resgatar a memória desse espaço que durante anos serviu de equipamento cultural na cidade, antes de se tornar templo da Igreja Renascer, destino comum aos cinemas de rua, retratados no documentário Retratos Fantasmas.

Essa história de apagamento se repetiu muito nas últimas décadas, e o Cine Copan é só um exemplo do que aconteceu aos companheiros de calçada, substituídos pelos cinemas de shopping, num movimento impulsionado por fatores como a popularização do home video (VHS, DVDs e Blu-rays), as televisões aberta e por assinatura, especulação imobiliária, e a própria expansão das metrópoles. Com o tempo, as poucas salas de rua se tornaram resistência de um modo específico de consumir arte. Mas, ironicamente, se a primeira onda tecnológica quase as extinguiu, a atual revolução dos streamings parece transformar esses espaços físicos na garantia de futuro da sétima arte.

O cinema é, por definição, um lugar de convivência. Ao entrar na sala, os espectadores assinam um contrato coletivo de imersão, participando ativamente daquele momento. Aliás, o espaço físico dos cinemas de rua, da calçada ao foyer, contribui diretamente para isso, como áreas de convivência, trocas e conversas, fazendo das sessões algo vivo e que contribui para o desenvolvimento do próprio filme, até porque, se considerarmos que o cinema é uma arte, a leitura feita por quem assiste também é parte da obra em si.

Com a migração dos cinemas para os shoppings, o ato de assistir a um filme se tornou subproduto desses templos do consumo, impactando as formas de produção e compreensão. Isso fez com que não só o caráter coletivo se perdesse, como valores individualistas ganhassem força, fatores que afastaram as pessoas das salas de cinema.

O anexo do Espaço Petrobras de Cinema e do Café Fellini foram espaços de disputa por especulação imobiliária

Atualmente, com os streamings isso se tornou ainda mais comum, já que a comodidade de assistir em casa, podendo pausar, comentar, mexer no celular, fazem da sala de casa um ambiente mais atrativo do que a sala de escura. Fora a intervenção direta de produtoras como a Netflix, se propondo a criar filmes para serem consumidos como segunda tela, sabendo que o público perdeu a capacidade de foco sem estímulos extras. Temos uma geração que assiste obras na velocidade 2x, dividindo a atenção com o almoço e o feed das redes sociais.

A mesma Netflix, que está em disputa pela compra da Warner Bros., não parece se preocupar com o futuro das salas de cinema. Por uma questão de otimização de gastos, distribuir direto no serviço de streaming é muito mais vantajoso do que o método tradicional de lançamento. E se uma empresa centenária como a Warner, dona de um catálogo cheio de propriedades intelectuais, permite esse tipo de acordo, o que impede que outras grandes produtoras não o façam?

Não à toa, durante a premiação do Globo de Ouro deste ano, ao receber o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante, Stellan Skarsgård pediu para que as pessoas fossem assistir ao filme Valor Sentimental, nos cinemas, porque é para lá que eles foram pensados.

O cinema é o lugar onde as luzes se apagam e você acaba compartilhando a mesma sensação com outras pessoas. Isso é mágico. Cinema deve ser visto no cinema.
Trocar uma tela desse tamanho pela sua TV de 50' é loucura

Aliás, esse é outro ponto importante, já que as salas de shopping focam em filmes de grandes dimensões e orçamentos, reservando pouquíssimas ou nenhuma sala para filmes nacionais, independentes e de fora do eixo hollywoodiano. Hoje, o mundo produz mais de 7000 filmes anualmente, sendo que uma pequena parcela consegue chegar aos cinemas, e menos ainda furam a bolha internacional, e são exibidos em salas mais populares. Cinemas de rua são fundamentais para a difusão de novas histórias e novas formas de se fazer cinema.

Outro fator que definitivamente afasta o público dos cinemas, é o alto valor das sessões. Enquanto algumas distribuidoras investem em salas VIP com cadeiras luxuosas, serviço de bar, e experiência 4D, as salas mais comuns cobram valores altos para o modelo padrão de exibição. Para aqueles que não dispensam uma pipoquinha, qualquer ida ao cinema pode facilmente ultrapassar os três dígitos, fazendo do programa algo pouco acessível.

É inegável que o nosso tempo se tornou valioso e a disputa por ele é travada entre gigantes da tecnologia e do entretenimento, sendo quase impossível fugir desse ciclo. Ler um livro, ou ver um filme? Passar duas horas no TikTok ou no Instagram? Jogar videogame ou andar de bicicleta? Ninguém tem a resposta, mas quando o custo entra em jogo, a escolha começa a ficar mais clara.

SALA VIP é das coisas mais bizarras ja criadas

Se um ingresso de cinema custa R$40,00 e te garante 2h30 de entretenimento, e a assinatura de um streaming mensal custa o mesmo valor, para acessar uma biblioteca infinita de conteúdo, a escolha é quase óbvia. Mesmo que talvez, dentro desse período, você não assista nenhum filme, afinal, tem outras opções gratuitas literalmente na palma da sua mão.

Essa lógica criou dois perfis principais que se relacionam com o espaço: o primeiro, composto por pessoas que querem ir ao cinema, mas por não entenderem o caráter coletivo do espaço, e talvez por uma postura muito auto-centrada, o consomem como se estivessem em casa. Comentam em voz alta, filmam, olham no celular, se levantam, voltam, entram no meio da sessão, e fazem da experiência sua sala de casa.

O outro perfil é justamente quem não quer passar por essas situações, sabem que vão se estressar e não querem pagar caro para sentar ao lado de um casal que não cala a boca. Por isso preferem ficar em casa e esperar o filme sair em algum streaming para ver no dobro do tempo, já que parcelam em pedaços separados por idas ao banheiro, respostas de WhatsApp e carinhos no pet.

A Cinemateca de São Paulo tem uma programação incrível e totalmente gratuita

É nesses pontos que o cinema de rua deixa de ser apenas nostalgia para se tornar solução. Primeiro, pela acessibilidade: não é incomum encontrar sessões por R$10,00, ou mesmo gratuitas, democratizando o acesso. Segundo, pela curadoria: enquanto shoppings focam nos blockbusters, as salas de rua abrem espaço para filmes nacionais e independentes. E talvez, o mais importante, pelo comportamento. A rua impõe as próprias regras, é um “movimento de manada” positivo, onde o respeito ao espaço coletivo inibe o uso do celular e das conversas paralelas. Acho interessante pensar que pode ser muito fácil cair no discurso elitista, mas a real é que a democratização dos espaços contribui para um trabalho quase pedagógico de ir ao cinema. 

Acredito de verdade que o futuro do cinema e, porque não da cultura, está na rua. O movimento do Nubank, apesar de soar como cinismo de uma instituição financeira tentar limpar a barra ao devolver um espaço público de troca coletiva, me soa como termômetro de que o mercado também está entendendo onde a cultura gera valor. 

A volta do Cine Copan é um movimento muito legal para a cidade e mostra que a arte ainda pode ser vivida como foi pensada. E fica a dica: se você sente que não consegue mais ficar 3h direto assistindo um filme sem pausar, vá ao cinema! De preferência de rua. Às vezes o que te falta é sentir de novo a própria pulsação batendo no mesmo ritmo que outras 299 pessoas reunidas em uma sala escura.


ISMO
Cultura em movimento

Assine nossa newsletter e receba
as últimas notícias em 1ª mão!

Assine agora