Castelos & Ruínas completa 10 anos
Uma década depois de seu lançamento, o trabalho mais pessoal de BK' continua a ser o que mais impacta o coletivo de ouvintes
Quanto tempo leva para se criar um clássico? Fiquei pensando nisso antes de escrever esse texto, porque sempre que leio ou ouço sobre Castelos & Ruínas (2016), a palavra “clássico” costuma aparecer junto, mas 10 anos me parece pouco tempo para se definir algo com um termo tão importante. Por outro lado, em um momento em que esquecemos com facilidade o que ouvimos no dia anterior e o lançamento do mês é superado em pouquíssimo tempo, um álbum continuar relevante por dez anos já me parece motivo suficiente para ser considerado um clássico.
Se você já foi em algum show do BK’, sabe que esse é o álbum favorito dos fãs, que cantam a plenos pulmões toda vez que alguma faixa do disco é tocada em meio aos sons dos 4 álbuns subsequentes. Ele pode não ser o melhor da discografia do rapper carioca no sentido de produção, caneta nas rimas, beats ou conceito, mas definitivamente é o mais bem resolvido, e o fato de ter sido lançado no contexto em que veio ao mundo, fez toda a diferença para que a obra como um todo tenha conquistado não só os fãs como a crítica. Para muitos, Castelos & Ruínas é o melhor álbum de rap da década, e isso tem um peso maior ainda quando falamos de uma década especialmente fértil para o rap brasileiro.

O ano era 2016 e o Brasil parecia ainda muito dividido em pequenos núcleos, coletivos e grupos que, localmente faziam muito barulho, mas ainda tinham dificuldade em atravessar fronteiras. A internet já era uma realidade, o YouTube vivia sua fase de ouro, e a cena do rap começava a fazer espaço para si, reconstruindo uma identidade que parecia há muito tempo perdida.
Em BH, a DV Tribo se mostrava uma família que buscava hackear o mercado com nomes que hoje dificilmente passam despercebidos. Em São Paulo, Haikaiss, Costa Gold e a banca da Damassaclan dominavam a mente de fãs jovens que se inspiravam nos caras até no jeito de se vestir. Enquanto isso, um pernambucano e um baiano, Diomedes Chinaski e Baco Exu do Blues, respectivamente, lançavam a diss “Sulicídio”, como forma de colocar o nordeste em destaque para um mercado que pouco olhava para pessoas fora do eixo Rio - SP. E falando nos cariocas, nomes como Felipe Ret e a molecada da Pirâmide Perdida criaram um movimento que definiu o dialeto de como as ruas falam.
Em meio a essa efervescência cultural, BK’ foi o nome que assumiu a pole e largou na frente ao lançar seu álbum de estreia no dia 21 de março de 2016, e assim se tornou o responsável por definir o caminho estético que a nova geração do rap iria seguir. Felipe Mascari define Castelos & Ruínas como a construção de uma cena, o norte artístico de uma geração muito talentosa, mas que ainda não tinha amadurecido uma obra com tamanha densidade lírica e coesão narrativa.
Essa coesão exigiu tempo. Ao ser perguntado quanto tempo levou para produzir o álbum, BK’ diz que foram 26 anos para fazer a obra que mudou sua vida, já que colocou todas as suas vivências de jovem solto pelo Rio de Janeiro, mais especificamente pela região do Catete-Gloria-Lapa. Esse é o primeiro fator que fez com que o público se identificasse com as letras do disco que explora a dicotomia sedutora e exaustiva da cidade. Aqui a Cidade Maravilhosa não é banhada pelo mar, e o asfalto sujo é chão para uma batalha entre o bem e o mal dentro de cada um. A escolha do título é bem coerente, já que aborda essa relação tóxica consigo mesmo, com o ambiente e com os outros, na busca por erguer um castelo enquanto ainda caminha sobre ruínas.

Também em entrevista, o rapper diz que sabia ter feito um trabalho incrível assim que o finalizou, como se ao ouvir o disco pela primeira vez tivesse certeza que sua vida e a vida daqueles que o ouvissem mudariam. O que se via ali, era um jovem com várias neuroses na cabeça mas nenhuma delas em relação ao que precisava entregar. A pressa era mais em como fazer dinheiro para resolver os problemas de casa do que o de uma gravadora batendo na porta pedindo o próximo álbum. A liberdade que BK’ teve para criar, escrever e trocar com seus pares, permitiu que toda a energia acumulada se transformasse em algumas das faixas mais icônicas da década passada.
Para mim, uma prova dessa liberdade criativa está na ficha técnica. Diferente do atual momento, em que feats definem um trabalho de sucesso, C&R controu com apenas uma participação, a do fiel escudeiro Luccas Carlos. É como se só ele, Abebe Bikila, pudesse contar aquela história. Hoje os streamings parecem pressionar artistas com o modelo de colaboração inflada, jogando com o algoritmo, mas BK’ seguiu o caminho sozinho e bancou a própria narrativa. O universo, a mitologia criada em seu álbum de estreia, não precisava de vozes complementares.
Curiosamente, essa solidão destoa do momento coletivo que BK’ vivia com a Néctar Gang, mas é justamente essa introspecção que guia o ouvinte pelas 13 faixas do disco. É uma experiência densa, exige fôlego, e foi moldada para ser consumida de ponta a ponta, sem pulos. O rapper se afasta das punchlines fáceis e das produções festivas feitas para audições abertas. A obra é um manifesto urbano, e a rua, ou melhor, a esquina, é o verdadeiro mapa desse universo. Assim como Exu, o senhor dos caminhos, domina a encruzilhada, a intersecção, BK’ anda pelas vias de mão dupla e se recusa à escolha básica entre bem e o mal. Ele vai pela sombra.
Toda essa carga lírica exigia uma tradução visual que fizesse jus ao peso do projeto, e aí preciso também falar da capa, assinada por Wilmore Oliveira, mais conhecido como youknowmyface. Na época, Wilmore já era conhecido por registrar a cena underground no Rio de Janeiro e a cultura popular da cidade. A foto foi resultado de uma sessão em estúdio que resultou no retrato estático, mas muito barulhento. A capa recusa adornos espalhafatosos, é cinza como a sonoridade do álbum, e isola a figura do MC em sombras dramáticas, cheias de contrastes, como a história contada.





Fotos: Wilmore Oliveira
São inúmeras as influências do disco para a cena, a começar pelos nomes que após ele vieram a colocar seus trabalhos na rua e o referenciarem. Heresia (2017) de Djonga, Regina (2017) de Nill, e mesmo que indiretamente mas até Esú de Baco Exu do Blues (2017) tem influência de BK’. Recentemente li em um tweet que Castelos & Ruínas é o disco de rap mais influente desde Sobrevivendo no Inferno, e por mais absurdo que isso possa soar, faz sentido. Porque em 2017, o ano lírico, o rap passou por uma transformação que definiu a estética e a expressão cultural que vivenciamos hoje. A retomada da cultura do rap pela periferia, em sua maioria negra, é fruto desse contexto que teve o disco de BK’ como um dos precursores. Lembrar da obra 10 anos depois é ter um registro muito preciso de um jovem que buscava um lugar na história, assim como vários que não conseguiram, mas que o tinham e têm como inspiração.
Mas para além das subjetividades, é bem foda perceber o quão atual o disco ainda soa, com os beats muito bem produzidos por JXNVS e El Lif Beatz, e as letras introspectivas e sombrias. Quando os arranjos e os dilemas dialogam com angústias universais, a obra se protege contra o envelhecimento precoce. BK’ provou que mergulhar em sua própria introspecção era o ato mais coletivo possível naquele momento, conectando milhares de jovens e apresentando um manual de sobrevivência que se tornou com o tempo um pilar da música brasileira contemporânea, e não só do rap.

Dez anos depois, o legado de Castelos & Ruínas segue ditando os termômetros da originalidade. O disco colocou a barra lá no alto para que toda uma geração aprendesse a construir suas rimas com propriedade e intenção, sem deixar de respeitar suas próprias sombras artísticas. É a vitória da paciência sobre a euforia e um lembrete que a grandeza não se constrói da noite pro dia, mas com várias pedras e tijolos coletados pelo caminho.
E o que fica agora é a expectativa. A promessa é de um show que revisite ao vivo o disco de ponta a ponta, mas podemos sonhar com faixas inéditas, que sabemos que existem, ou talvez um novo remix, dessa vez com a participação de CHS, por exemplo, que teria um verso no disco mas nunca apareceu. Seja revelando material engavetado, ou só celebrando na íntegra a obra que mudou os contornos do gênero no Brasil, esse momento coroa a jornada do BK’ e porque não a força da nossa cultura como um todo.