Carnaval sob pressão

A trajetória do lança-perfume entre luxo europeu, euforia tropical, moralismo de Estado e reinvenção cultural

Carnaval sob pressão

Poucos objetos sintetizam tão bem a disputa entre prazer e repressão quanto o lança-perfume. Nascido como símbolo elegante da modernidade europeia, transformado em artefato sensorial do carnaval brasileiro e posteriormente proibido por decreto presidencial, ele atravessa mais de um século revelando algo maior do que sua própria química. Sua história é a história de uma cultura que celebra o excesso e, ao mesmo tempo, convive com tentativas recorrentes de regulá-lo.

Pintura de Paris da Belle Époque

Antes de virar mito clandestino ou metáfora pop, o lança-perfume foi um produto sofisticado, embalado pela estética de uma Europa fascinada pela própria modernidade. Seu ponto de partida está na Paris da Belle Époque, onde arte, indústria e hedonismo caminhavam juntos. No final do século XIX, a capital francesa vivia uma explosão cultural e sensorial. Cartazes coloridos ocupavam as ruas, cabarés disputavam público noite após noite, perfumes e licores eram apresentados como experiências sensoriais completas.

Cartaz de divulgação de lança-perfume por Alphonse Mucha

O lança-perfume surge nesse ambiente como acessório festivo, um spray perfumado à base de cloreto de etila vendido para "animar" bailes e celebrações. O gesto de borrifar não era apenas funcional. Era performático. Um pequeno espetáculo portátil que traduzia o espírito do excesso elegante. Parte desse imaginário visual foi moldado por artistas como Alphonse Mucha, um dos principais nomes do movimento art nouveau. Suas composições gráficas elegantemente sinuosas e tipografias orgânicas ajudaram a transformar produtos industriais em objetos de desejo.

Embalagem de madeira, tubos de ensaio e rótulos coloridos adornados com a arte de Mucha

A empresa francesa Rodo (que depois viria a se chamar Rhodia), foi responsável por contratar Mucha para criar as embalagens e materiais de divulgação do lança-perfume "Rodo", absorvendo a estética do movimento art noveau para o universo da indústria e da publicidade.

Euzébio, Me Manda um Lança Perfume...

O que nasce como luxo europeu rapidamente atravessa o Atlântico. No início do século XX, o lança-perfume chega ao Brasil e encontra no carnaval um território de reinvenção. Em 1922, é inaugurada a primeira fábrica nacional, filial da própria Rhodia, em São Caetano no ABC paulista. O objeto sofisticado se tropicaliza. Nos salões e depois nas ruas, o jato gelado vira parte do ritual carnavalesco. Borrifar lança-perfume era brincar, paquerar, provocar. O spray se espalhava pelo ar, atravessava roupas e corpos, dissolvia distâncias sociais e amplificava a atmosfera da folia.

A sua mãe deve ter curtido, a sua avó com certeza curtiu

Durante décadas, tornou-se um acessório indispensável garantindo a alegria do carnaval brasileiro. Aparecia em marchinhas, crônicas e fotografias de coluna social. Ao mesmo tempo, carregava ambiguidade. O cloreto de etila, quando inalado de forma concentrada, produz euforia e tontura. A fronteira entre diversão e risco sempre esteve presente. Ainda assim, o objeto se consolidou como parte da iconografia da festa, ao lado dos confetes e serpentinas.

Em 1961, o então presidente Jânio Quadros cortou a brisa dos foliões e proibiu a fabricação, comercialização e uso do lança-perfume em todo o país. A justificativa oficial falava em riscos à saúde pública, mas a decisão refletia algo maior. Eleito com o discurso de restaurar a moral nacional, Jânio expandiu sua cruzada ética para o campo dos costumes. Seu governo, curto e turbulento, foi marcado por decretos que interferiam em práticas cotidianas e comportamentos públicos. A proibição do lança-perfume se encaixa nesse movimento de regulação moral.

O Brasil vivia uma transformação acelerada. Urbanização, industrialização, circulação cultural intensa. Ao mesmo tempo, crescia entre setores conservadores o medo da desordem e da perda de controle social. Em plena Guerra Fria, excessos simbólicos também eram lidos como ameaça. O carnaval, com sua mistura de corpos, classes e delírios, sempre foi território ambíguo para projetos autoritários.

Interditar o lança-perfume não era apenas conter uma substância. Era sinalizar que a festa tinha limites definidos pelo Estado. Esse tipo de medida antecipava a tensão política que poucos anos depois culminaria no golpe militar de 1964. A tentativa de disciplinar o excesso carnavalesco dialogava com um ambiente mais amplo de polarização e conservadorismo crescente.

Registro da ditadura militar em foto icônica de Evandro Teixeira

Mas cultura popular raramente desaparece por decreto. Mesmo proibido, o lança-perfume continuou circulando. Entrava no país por contrabando, atravessava fronteiras escondido em malas e navios. Surgiam versões improvisadas e receitas caseiras, muitas vezes perigosas. A clandestinidade reforçou seu mito. O que antes era acessório festivo virou objeto proibido, carregado de transgressão.

Em 1980, o termo retorna ao centro da cultura, agora pela via da música. Rita Lee lança “Lança-Perfume” e transforma o nome em código pop. A canção não descreve diretamente a substância, mas evoca atmosfera de sedução, delírio e jogo de poder. Em plena abertura política do final da ditadura, o que havia sido proibido duas décadas antes ressurge como linguagem. O objeto vira metáfora.

Lança Perfume, um dos maiores hits da eterna mutante Rita Lee

Décadas depois, o termo continua circulando na música popular. No funk contemporâneo, “lança” aparece como signo de festa, intensidade e transgressão. Faixas como Espirra o Lança mostram que o lança-perfume continua presente nos bailes. O contexto muda, a batida acelera, mas o imaginário permanece.

O mais curioso é perceber como um tubo de ensaio concentra tantas camadas históricas. Ele nasce no encontro entre arte e indústria na Paris do final do século XIX, se reinventa na euforia tropical do carnaval brasileiro, é interditado em nome da moral e retorna como signo pop e periférico. Do traço sinuoso de Alphonse Mucha às linhas diretas do funk, o lança-perfume atravessa estilos, regimes políticos e gerações.

No fim, ele revela algo estrutural na modernidade brasileira: toda tentativa de disciplinar o excesso encontra, mais cedo ou mais tarde, uma nova forma de expressão. O spray pode ser proibido. A palavra pode ser regulada. A festa, não.


ISMO
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