Camila Rosa e a arte em tempos de crise

Quando os contextos, sociais e políticos são desafiadores, a arte surge como resposta.

Camila Rosa e a arte em tempos de crise

O sonho da projeção internacional mora de graça no imaginário de muita gente, mas a concretização desse desejo costuma ser um exercício de resistência e muita tentativa e erro. Longe do discurso meritocrático, consolidar uma carreira que cruza fronteiras exige o controle de algumas variáveis que, bom, são incontroláveis, além de um corre gigante antes de qualquer reconhecimento aparecer no horizonte. Camila Rosa é parte desse pequeno grupo que conseguiu fincar uma bandeira nesse território, provando que a identidade local é um dos passaportes mais valiosos.

Nascida e criada em Joinville, Camila cruzou algumas fronteiras locais antes de desembarcar em Nova York, na tentativa de se firmar por lá. E não é que deu certo? Tanto que há alguns meses, se você circulasse pela cidade, encontraria uma ilustração dela na capa da The New Yorker, uma das principais e mais longevas revistas da história. Considerando o atual momento dos EUA e sua relação com estrangeiros, esse é um passo de ainda mais peso.

Atualmente já são três anos morando na cidade mais agitada do mundo e representando uma minoria que luta todos os dias para se manter por lá. Curiosamente, passou pela experiência de estar no país em 2016 e enfrentar a primeira eleição de Trump, mas retornou ao Brasil um pouco depois, quando encarou a pandemia do governo Bolsonaro, e só então foi de vez para os EUA. Esse desafio de contextos políticos adversos parece acompanhar sua produção artística, que vê em momentos de crise a oportunidade e a necessidade de se manifestar.

Em suas palavras: “Eu acho que esses momentos de maior repressão contribuem para a gente se expressar mais. Quando tudo está dando certo, tudo está fluindo, a gente quer viver, a gente não quer falar, a gente não quer expor nossa opinião, a gente quer curtir aquele momento.

E quando esses momentos de repressão, que o Brasil passou no momento de ditadura, no Chile também, agora com os imigrantes aqui nos Estados Unidos, o avanço da extrema direita num geral, eu acho que faz com que as pessoas queiram se expressar, falar, queiram se opor ao que está acontecendo. Isso com certeza vai criando uma onda criativa ao redor do mundo.

É um momento onde os artistas, que são imigrantes também, se sentem provocados a falar, quando possível, obviamente, quando se sentem seguros a falar, e a mostrar sua visão das coisas, mostrar que a sua voz também é importante. Então eu acho que são nesses momentos que a gente vê uma produção artística absurda. 

Eu lembro quando eu estava aqui nos Estados Unidos, na primeira vitória do Trump, e também observei muito isso, como a gente via a arte espalhada por toda a cidade, em protesto à vitória dele. Quando eu ia nas feiras independentes, eu via os artistas produzindo material sobre isso, e depois no Brasil, com o Bolsonaro, a mesma coisa.

Lembro muito do que o design ativista construiu ali naquela época, das ilustrações digitais, todo mundo fazendo material sobre o assunto da semana, ou o que estava acontecendo no Brasil... É triste, mas a gente acaba ficando mais inspirado a produzir, porque essa urgência da fala, do se posicionar, faz com que a gente produza mais.”

A arte de Camila claramente carrega em si diversos contextos que somados, alimentam as narrativas que propõe nas ilustrações, inclusive em trabalhos comerciais. Conhecida por desenhar mulheres, em suas mais diferentes formas, cores e estéticas, ela contribui para esse movimento que luta pela sua representatividade. Na conversa, me contou que se entendeu como latina só quando chegou em Nova York pela primeira vez, e se conectou com a cidade e com as pessoas dessa comunidade. Isso contribuiu com novos elementos para a construção dessa identidade artística. 

A coletividade, aliás, tem um papel fundamental em sua autocompreensão como artista. Designer de formação, trabalhou por anos como designer industrial para o polo de empresas que existia e ainda é muito forte em Joinville e região. Toda a criatividade dedicada para desenhar troféus, por exemplo, acabou saindo como arte ao participar do coletivo CHÁ, com outras mulheres, e levar para as ruas toda essa energia. Lambes, grafittis e ilustrações foram algumas das primeiras formas de se expressar. 

Outro elemento que também carregou a coletividade, de forma muito viva na formação de Camila, é o Hardcore e o Punk. A cultura HC foi fundamental para aproximá-la de discussões, conceitos e movimentos que posteriormente alimentariam criativamente sua arte, além de dar contorno para as temáticas que viria a abordar. Se hoje, uma de suas personagens aparece com a letra de uma música do Bulimia, ou de cabelo colorido, não é puro acaso ou uma decisão estética vazia. Essa cena fez parte de sua adolescência, aos 13 anos, chegou pela música, a fez conhecer pessoas, fazer amigos e quando percebeu, estava desenhando cartazes de shows da cidade, produzindo zines e mergulhando de cabeça nesse mundo.

Camila afirma: "Eu acho que (o hardcore e o punk) contribuíram muito para minha arte e principalmente pra ela ter esse viés político. O hardcore me mostrou esse universo, fez eu conhecer muita gente que até hoje faz parte da minha vida. Quando eu coloco em paralelo com o meu trabalho e o quanto isso me influenciou, é muito louco, porque eu consigo ver claramente como o hardcore está ali, de uma maneira ou outra, seja numa frase, ou numa roupa que as minhas personagens estão vestindo, no estilo de cabelo, algum acessório, ou estampa. Eu sei o porque está ali, não é colocado aleatoriamente, é colocado porque faz realmente parte do que eu sou.

O hardcore me mostrou coisas muito cedo, que eu não conhecia e que me moldaram. Foi dentro de um show que eu ouvi pela primeira vez sobre feminismo, sobre libertação animal, sobre a luta antirracista, sobre movimentos sociais como o MST, MPL, o Centro de Mídia Independente, jardinagem libertária, enfim, os assuntos eram os mais diversos possíveis e eu acho que isso trouxe contexto para depois de muitos anos eu encontrar um subsídio para a construção do estilo do meu trabalho, e principalmente do que falar. 

Eu me perguntava muito 'o que eu quero falar com o meu trabalho?' Então eu olhei pra mim mesma, voltei para o meu interior, que é um clichê absurdo, mas é isso, olhar para as minhas referências, para o que eu gostava, qual era o meu interesse e dali construir um trabalho. E com certeza o hardcore punk foi muito base pra isso. Eu sou muito apaixonada por essa cultura e acho que sempre me instiga muito a conhecer coisas novas, bandas novas, descobrir outras personalidades que fizeram parte, ler livros sobre o assunto.

E também tem essa questão dessa comunidade que você vai criando, cada show que você vai, cada cidade que você conhece tem a sua cena e você vai rodando e conhecendo essas pessoas. Hoje que eu sou ilustradora, acho isso muito legal, porque as pessoas me conheceram organizando show e hoje veem o meu trabalho e conseguem reconhecer a relação das duas coisas."

Para quem é fã de Hardcore e Punk, Nova York é a cidade para se estar, mas Camila me conta que até chegar lá, não tinha se dado tanto conta disso. Estar na cidade que respira e transpira arte e, em alguns aspectos, tem um perfil mais progressista e aberto para outras culturas, permitiu que ela se conectasse com uma comunidade grande de criadores. Pintar nas ruas é uma realidade ainda comum e, você estando por lá, preste atenção nos muros, quem sabe não encontra algum painel com as personagens de Camila.

Como ainda não dá pra pagar as contas com tinta, a criatividade precisa ser direcionada para projetos comerciais e comissionados, algo que ela já fazia há anos, quando ainda estava aqui no Brasil. São vários os projetos com marcas como Nike, Spoleto, Itaú, Artex, Redley, entre outras dos mais diversos setores, que contribuíram para que pudesse construir um portfólio sólido e aprendesse a entrar nesse mercado como freelancer. O problema é quando é preciso começar tudo de novo em outro país. 

Um pouco antes de lançar a capa para a The New Yorker, Camila me conta que estava num momento de baixa do trabalho, com dificuldade em encontrar novos projetos, e decidiu prospectar com parceiros com quem já tinha trabalhado anteriormente. O contato de Françoise Mouly, editora da revista, foi um desses, com quem tinha iniciado uma troca para produção da capa em 2023, mas alguns sketches depois o projeto foi engavetado. Com a cara dura, puxou o mesmo fio de e-mails e propôs retomar a conversa que, semanas depois, resultou na assinatura de uma das seis capas da edição especial de 100 anos da The New Yorker, algo próximo da realização de um sonho.

Apesar desse marco, ela me conta que o mercado de ilustração ainda está bem baixo, por diversos fatores, e que atualmente a maior parte de seus clientes são gringos, dos EUA ou da Europa, e que sente falta de trabalhar com marcas e empresas brasileiras, mas o mercado parece um pouco menos amadurecido, muito por um contexto histórico mesmo.

Se parar para pensar, os mercados estrangeiros têm uma história com a ilustração muito mais antiga e, talvez por isso, consigam driblar melhor os momentos de crise, o que não significa evitá-los. Mesmo o mercado editorial tem passado por diferentes ondas por aqui, impactando toda a cadeia. Definitivamente revistas e jornais já não usam ilustrações como antigamente, algo ainda comum lá fora. Essa estrutura é o que garante passar por crises com algum nível de segurança.

Quando pergunto sobre como enxerga essa fase do mercado, responde:

“Bom, eu acho que a ilustração está passando por um momento bem desafiador. A gente teve um boom ali em 2018, 2020, de grandes empresas como Meta, Google e outras usando ilustração em parte das campanhas publicitárias. Agora a gente vive um outro momento. Eu acho que tudo o que sobe muito, uma hora dá uma caída, e a gente está vivendo esse momento agora. 

As marcas e essas grandes empresas de tecnologia estão escolhendo outras formas de comunicação, às vezes na ilustração, às vezes fotografia, às vezes é inteligência artificial mesmo. Ainda é muito instável, a gente está descobrindo o que vai ser daqui pra frente, mas com certeza tem um impacto na nossa vida de ilustradora. Financeiramente, obviamente, e nessa insegurança mesmo.

Ao mesmo tempo, a gente vê muitas marcas e empresas querendo mostrar que não estão utilizando IA, como a Hermès e outras marcas grandes que fazem campanhas com ilustradores e artistas, e que utilizam disso para se diferenciar do que o resto do mercado está fazendo, e com isso acabam ganhando uma posição de destaque. Acho que as duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo, mas não tem como saber o futuro, a gente sabe que também tem muita profissão desaparecendo, né?!

Eu acredito que a Inteligência Artificial não vai contar a mesma história que a gente como ilustrador, como artista tem para contar. Então, por enquanto, eu acho que a gente tem que focar nisso, continuar fortalecendo a nossa identidade, as histórias que a gente quer contar e esse é um bom momento para isso, Sabe? Para se apegar a quem você é, ao que você quer falar para o mundo e como só você vai conseguir. Realmente não tem como nesse sentido, a inteligência artificial te substituir."

Por fim, pergunto quais os planos e próximos passos depois de alcançar um objetivo tão grande como a capa da The New Yorker. Brinco que não sendo artista, penso muito sobre como músicos podem entrar em crise depois de lançar um puta álbum, por exemplo, já que superá-lo passa a ser um desafio. Camila me explica que no momento quer explorar novos suportes, como a cerâmica, esculturas, testar novos formatos e construir um legado para além das obras em si. Marcas, galerias e revistas sempre são parte desse planejamento e sonho em construção, mas o que importa mesmo é entregar um trabalho que comunique com clareza aquilo que acredita.

Saio do papo mais fã da Camila do que já era antes da entrevista, e feliz em observar como a arte engajada e nutrida por referências pessoais e globais pode romper barreiras e brilhar em contextos de crise, sejam elas econômicas, sociais e políticas. Na capa de grandes revistas ou nos muros da cidade, Camila é daquelas vozes que se comprometem com a coletividade e com valores que dão motivo pra gente continuar acreditando num futuro melhor.


ISMO
Cultura em movimento

Assine nossa newsletter e receba
as últimas notícias em 1ª mão!

Assine agora