Braselda: Capítulo Três
Barba Negra, Mistah Jordan e convidados de peso fecham com maestria a trilogia de Braselda
Braselda: Capítulo Três encerra um ciclo iniciado em 2021, mas concebido ainda antes, no isolamento da pandemia. O projeto une Barba Negra e Mistah Jordan, parceiros de longa data que decidiram transformar amizade em obra conceitual.
“Braselda é um projeto Barba Negra versus Mistah Jordan, meu parceiro de longa data. Sou padrinho do filho dele. Nossa amizade já é bem antiga”, relembra Barba. Em 2020, enquanto produzia loops pensando mais em looptapes do que em rap, foi Jordan quem incentivou: era hora de rimar em cima daquele material. Ali nascia o primeiro capítulo.

Desde o início, a dupla sabia que seriam três discos. Cada faixa virou “versículo”. Onze por álbum. Trinta e três no total. “A nossa intenção era chegar no capítulo três e completar 33 versículos. A última faixa é o Versículo 33, que dá o entendimento de uma trilogia, que os três discos são uma obra só.” O conceito fecha matematicamente e simbolicamente.
Se os dois primeiros volumes saíram praticamente juntos em 2021, o terceiro chega após um hiato e com maior duração. “Algumas músicas são mais longas porque tem convidados que a gente queria muito colocar.” E a lista é extensa: Sombra, Funky Buia, Apelidado Xis, Jamés Ventura, Tio Fresh, Galf AC, Matenie, Naírobi, Akira Presidente, AXL, Arnaldo Tifu, Jhayam, Misterioso e Max B.O., que além de assinar as três capas da trilogia participa na faixa “Eu Vou”.

Dentre os primeiros singles lançados do último capítulo da saga, “Faixa Preta” já apontava o peso coletivo do projeto, reunindo Apelidado Xis, Jamés Ventura, Tio Fresh e Galf AC. Antes dela, "Ilusão" em colaboração com Sombra também havia sido apresentada, consolidando o diálogo entre gerações do rap nacional.
A conexão estética com o universo da Griselda Records permanece no drumless enfumaçado, nos loops hipnóticos e no boom bap "mocadinho" no fundo da mix. Mas a diferença está na matéria prima: Barba constrói suas bases com música brasileira, áudios de vídeos de YouTube, mensagens aleatórias de WhatsApp e trechos de desenhos. O resultado é uma espécie de spinoff brasuca do coletivo underground nova iorquino fundado por Westside Gunn, Conway the Machine e Benny the Butcher, não uma cópia.
O Vale do Paraíba é mais do que origem geográfica, é identidade. “O Braselda é um projeto do Vale do Paraíba”, afirma Barba, destacando a presença de AXL como um dos representantes diretos dessa cena que participa do disco na faixa "Carruagem de Fogo".
A dimensão visual reforça o conceito: as três capas criadas por Max B.O. formam uma única imagem com a jornada de um astronauta, atravessando uma narrativa que dialogo diretamente com o afrofuturismo. “O Mistah Jordan é muito futurista e em todos os momentos muito afro.” Braselda é ancestral e espacial ao mesmo tempo.


Entre os pontos altos está “Maloqueiro”, com Arnaldo Tifu. “Ele meteu o que a gente apelidou de flow cuíca.” Num disco que dialoga com a estética drumless e com a anedota do nome inspirado na Griselda, Tifu transforma a própria voz em instrumento percussivo brasileiro. “Eu vejo o MC como instrumento em cima do loop.” Aqui, o rap vira ritmo.
A presença jamaicana ganha corpo na faixa “Conquering Lion”, que reúne Funky Buia, Jhayam e Misterioso. “O Jordan é o original toaster”, lembra Barba. A música assume espírito Jamaica sem abandonar a textura minimalista e suja que define o projeto, aprofundando uma influência que já aparecia nos capítulos anteriores.
Há ainda “País da Maravilha”, com Matenie, Naírobi e Akira Presidente, praticamente registrada como guia, cada um gravando de onde podia no pós pandemia. A faixa ficou guardada por anos antes de entrar no disco. “A parada tinha uma alma tão verdadeira que a gente decidiu colocar.”
Por fim, é impossível falar de Capítulo Três sem mencionar DJ Sleep, também do Vale do Paraíba, peça fundamental na trajetória de Barba Negra. Foi ele quem, durante a pandemia, entregou ao produtor uma mala com cerca de 200 compactos, muitos sete polegadas, que serviram de base para seus primeiros loops e aprofundaram sua pesquisa musical. Sleep não apenas participa do disco, ele representa a gênese do Barba produtor.
Três capítulos. Trinta e três versículos. Uma obra pensada como unidade desde o início. Braselda deixa de ser referência e assume definitivamente a condição de assinatura dentro do rap brasileiro contemporâneo.