Bate-bola: a fantasia que queima tênis de mil reais

Carnaval suburbano e as outras lógicas da cultura sneaker brasileira

Bate-bola: a fantasia que queima tênis de mil reais
Foto: Vincent Rosenblatt

Hoje começamos um especial de carnaval aqui na ISMO com um recorte claro: pensar a cultura sneaker a partir da festa mais brasileira de todas, o carnaval. 

Para começar essa jornada, escolhi os bate-bolas, manifestação do carnaval suburbano carioca que atravessou a minha infância no Rio de Janeiro. Durante muito tempo, isso me pareceu simplesmente carnaval. Todo carnaval que eu passava lá tinha bate-bola, meu primo sempre se vestia de bate-bola, todo mundo sabia o que era bate-bola. Só na vida adulta, conversando com pessoas que frequentavam o Rio apenas pelos blocos do Centro e da Zona Sul, entendi que aquilo não era um repertório compartilhado. Era um carnaval localizado, com território e circulação próprios. Carioca, sim, mas acima disso, suburbano.

Mesmo crescendo em São Paulo, eu tinha quase 30 anos quando entendi que o bate-bola não era só uma expressão do carnaval carioca - era uma expressão do carnaval suburbano (Foto: Vincent Rosenblatt)

Mas o que são os bate-bolas?

Os bate-bolas são turmas organizadas que saem às ruas do subúrbio do Rio durante o carnaval usando fantasias volumosas, máscaras, apitos e bolas presas a cordas. A organização é coletiva e começa meses antes da folia, com definição de tema, arrecadação de recursos e produção das fantasias.

A pesquisa aponta para uma tradição com mais de um século de história, concentrada principalmente nas zonas Norte e Oeste da cidade. As origens são disputadas entre diferentes bairros e narrativas locais, o que diz menos sobre falta de registro e mais sobre a vitalidade dessa cultura. Ela se formou e se manteve fora do circuito turístico e do carnaval oficial.

Mesmo com o reconhecimento recente como Patrimônio Cultural Carioca, em 2013, os bate-bolas continuam operando a partir de regras próprias. Eles não dependem de cronograma, palco ou mediação institucional para existir.

Um carnaval fora do circuito

Para quem conhece o carnaval apenas pelos eventos organizados, os bate-bolas costumam causar estranhamento. A estética é de excesso: fantasia grande, de até dois metros de largura, cores intensas, barulho constante, grupos grandes. A máscara impede a identificação e assim as ruas são ocupadas sem pedir licença.

Esse desconforto aparece recorrentemente na forma como a mídia trata os bate-bolas, alternando entre a criminalização e a folclorização. Nenhuma das duas leituras dá conta do fenômeno e ambas ignoram que se trata de uma prática pensada para aquele território específico, não para o consumo externo.

E é nesse contexto, marcado por autonomia estética e circulação localizada, que o tênis entra como parte essencial da fantasia.

O tênis como parte importante da festa

De acordo com os levantamentos históricos e registros audiovisuais, o tênis passa a ocupar esse lugar de forma mais consistente entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000. Antes disso, outros tipos de calçado eram mais comuns. A mudança acompanha a popularização dos tênis esportivos de impacto visual e tecnológico.

A partir desse período, modelos de marcas globais passam a ser incorporados de forma sistemática pelas turmas. Nike Shox e Mizuno Wave Prophecy aparecem com frequência nos registros, escolhidos tanto pelo visual quanto pela funcionalidade. Hoje, estamos falando de pares que facilmente ultrapassam a faixa de R$ 1200 ou R$ 1300. Há dez anos ou mais, os “tênis de mil” não eram comuns mas eram vistos nos pés dos bate-bolas, o que diz bastante sobre o tamanho do investimento (entre fantasias e tênis, ele pode chegar a R$ 10 mil por carnaval). 

A escolha do tênis costuma ser coletiva. Em muitas turmas, modelo e cor são definidos para manter a unidade visual. Em alguns casos, o valor do calçado já entra no custo total da fantasia, pago ao longo do ano em carnês. Não há improviso nessa decisão.

Uso extremo como regra

Nos bate-bolas, o tênis não é pensado para durar vários anos. Ele precisa aguentar horas de deslocamento, o peso da fantasia, o asfalto quente, a dança e o impacto constante. O desgaste é parte do cálculo.

Há registros de turmas que descartam ou queimam a fantasia ao final do carnaval, incluindo o tênis. Em outras, o calçado é guardado como lembrança, mas raramente reutilizado, justamente por causa do estado em que termina. O dado importante é que o valor do objeto está concentrado no uso, não na preservação.

Essa lógica entra em choque direto com a cultura sneaker mais midiatizada, baseada em coleção, arquivo e revenda.

O que isso revela sobre cultura sneaker no Brasil

Grande parte do debate sobre cultura sneaker no Brasil ainda se apoia em um modelo importado, fortemente influenciado pelo racional estadunidense do colecionismo e do mercado de revenda. Esse modelo explica uma parte do fenômeno, mas não dá conta de todas as práticas.

No contexto dos bate-bolas, o tênis é código interno, ferramenta de performance e elemento de identidade coletiva. Ele pode ser caro e, ao mesmo tempo, destinado ao desgaste total.  E não há contradição aí! O uso se orienta de outra forma.

Olhar para o bate-bola ajuda a entender que cultura sneaker não é apenas um conjunto de regras sobre como consumir, guardar ou valorizar um objeto. No carnaval suburbano carioca (o meu primeiro entendimento de carnaval), o tênis entra em outra engrenagem: ele é ferramenta, código de grupo, parte da fantasia e, em alguns casos, algo que se encerra junto com a festa.

É claro que isso não invalida a cultura sneaker que se organiza em torno da coleção, da preservação ou do mercado. De jeito nenhum! Mas lembra que ela não é única. 

No bate-bola, o valor do tênis costuma estar menos no quanto ele dura e mais no que ele sustenta enquanto está em uso. E ele não explica essa lógica, nem tenta traduzi-la, mas simplesmente a coloca em prática. Acho que não tinha como começar esse especial de carnaval por outro lugar. 

Foto: Vincent Rosenblatt

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