Babilônia em chamas evidencia a potência das subculturas na luta contra o fascismo

A nova publicação da sobinfluencia explora três movimentos musicais em três momentos distintos da história e da política inglesa

Babilônia em chamas evidencia a potência das subculturas na luta contra o fascismo

Babilônia em chamas é o próximo lançamento da sobinfluencia edições, editora independente de São Paulo que, desde 2020, vem articulando política e estética a partir de uma perspectiva radical e autônoma, com enfoque em publicações filosóficas e literárias, artísticas e culturais.

O livro de Rick Blackman, historiador social, músico, ativista e professor universitário londrino, estuda um recorte de 60 anos, em que três movimentos musicais, em momentos históricos e sociais distintos, tiveram um papel decisivo no enfrentamento à ascensão de organizações fascistas na Grã-Bretanha — são abordados o Stars Campaign for Interracial Friendship (SCIF) dos anos 50; o Anti-Nazi League e o Rock Against Racism entre os anos de 1978 e 1982; e o Love Music Hate Racism dos anos 2000.

A obra, que pode servir de referência para qualquer um que se interessa por música, especialmente underground, chega aqui no Brasil pela sobinfluencia, com tradução de Amauri Gonzo e ilustrações de Waldomiro Mugrelise. O projeto está em momento de financiamento coletivo, que ainda conta com 25 dias de campanha. Garanta o seu exemplar na pré-venda e ajude na produção aqui, ou clicando na imagem aqui embaixo.

Aproveitei essa ocasião para trocar uma ideia com o Rodrigo Corrêa, fundador da editora, sobre os processos por trás desse lançamento, além de passar por alguns tópicos que se relacionam com o seu conteúdo e os universos que ele permeia.


Queria começar perguntando sobre a importância de trazer esse livro para cá. Por que lançar Babilônia em chamas no Brasil?

Em primeiro lugar, é um assunto que a nós, na editora, interessa muito. A editora é muito voltada pra filosofia, arte contemporânea, política e cultura. E nos últimos anos a gente tem se debruçado especialmente sobre a música. A gente publicou três livros sobre jazz e o Radical Records, que é sobre gravadoras independentes e selos políticos.

A gente vem do punk, que é a nossa escola de como se produzir coisas, e o Babilônia em chamas cruza um caminho estético que nos interessa. O foco principal do livro é os anos 70 — o punk, o reggae, que é o que gera mais insumo, até porque o autor fez parte desse rolê, e é o que tem mais material, mais elementos e desdobramentos, mas ele cruza um período grande.

É um livro que conecta três iniciativas, de gêneros e momentos históricos diferentes, que se colocam a partir das suas plataformas — a música — para combater o fascismo. Isso amplia um pouco a nossa compreensão de pontos em comum que a gente pode ter com outras cenas, com outras iniciativas, e de como o fascismo sempre esteve aí, na verdade.

Babilônia em chamas, além de nos apresentar uma história rica, nos estimula a articular o repertório que a gente tem para desenvolver formas de enfrentar, no nosso próprio meio, e expandir também para as ruas, a ascensão de movimentos racistas, misóginos. [O livro] acaba nos lembrando de como o nosso repertório pessoal, nosso gosto que é compartilhado por grupo, pode ser muito bem usado para enfrentar políticas autoritárias de extrema direita, racistas.

Capa de Babilônia em chamas, disponível para compra aqui

O livro traça um panorama de três movimentos distintos, que acontecem em momentos históricos e sociais diferentes, mas que, de alguma forma, se relacionam. O que está no centro dessa relação?

O ponto em comum em todas essas expressões é como elas são feitas — menos o que é feito e mais como é feito. Tem essa marca muito forte que é a do imigrante, da pessoa que saiu do seu país de origem para tentar a vida numa grande cidade ou num país um pouco mais central, e enfrenta dilemas diversos.

Da mesma forma que o reggae, nos anos 70, tinha uma expressão de se voltar para o espaço público como um lugar de produção e escuta de som, essas músicas urbanas dos anos 90 para cá, o jungle, o grime, o drill, também têm essa marca. As rádios piratas, as formas que você arruma de fazer sua mensagem ou sua música chegar nos lugares certos. E às vezes é até menos sobre conteúdo, né? Não é sobre o conteúdo ser uma coisa panfletária ou sobre o conteúdo se arrogar de uma vanguarda política, mas é a forma de fazer.

Acho que essas coletividades elegem formas de se produzir que tão fora do radar do mercado e das autoridades. E isso gera uma coesão para grupos de pessoas que estão à margem — geralmente os imigrantes, pessoas pretas, que tão na Europa. E num contexto de crise migratória, como é o que a gente tá vivendo agora, acaba tendo uma relevância material, não só estética, que as pessoas acabam se juntando, se apoiando mutuamente, tendo a música como pano de fundo.

O Rick Blackman é um cara apaixonado pelo Brasil. Ele quer muito vir pro Brasil e a gente pretende trazer ele ainda esse ano para fazer algumas atividades em relação ao livro. Foram dois anos de emails trocados, de 2023 até fevereiro deste ano. Quem traduziu este livro foi Amauri Gonzo, um jornalista que também é muito dedicado à cultura, muito envolvido com as coisas do Mark Fisher no Brasil.

Eu acho que a grande coisa do Rick Blackman, que inclusive fala disso no vídeo de apresentação, é que ele é uma pessoa que esteve envolvido diretamente com o Rock Against Racism nos anos 70. Ele fez parte dessa movimentação. Então, o que ele traz no livro não é só uma pesquisa de um professor universitário — porque ele também é professor em Londres, na Universidade de Leeds — ele também relata coisas que ele viveu e traz uma mediação com o que há de documento, de produção teórica sobre o fascismo histórico ou qualquer coisa do tipo a partir da vivência dele.

Eu acho que isso é um diferencial. Tem uma abordagem apaixonada, também — isso, pra quem lê, faz toda a diferença. Você se aproxima de tudo que ele coloca ali, porque tem muita propriedade.

E tem uma coisa que eu costumo dizer que quando você lida com uma pessoa que tem um repertório do punk, tem algumas diferenças na compreensão, tanto das limitações quanto das possibilidades que um projeto tem. Quando a gente fala de um esquema punk de se produzir as coisas, é um esquema em que todas as pessoas se envolvem — o autor, a editora, o público. Não existe uma prestação de serviços, é todo mundo mobilizando energia para fazer uma coisa acontecer. E isso tá se refletindo no livro.

Tanto que é por isso que a gente tá fazendo a campanha de financiamento coletivo, porque além da gente conseguir garantir que os custos do livro vão ficar cobertos de forma mais rápida, a gente envolve as pessoas no processo — e um monte de ideia vai surgindo. Abre um pouco o horizonte de como a gente pode trabalhar um livro, uma ideia, uma discussão.

Pôster com arte exclusiva de Waldomiro Mugrelise, disponível para compra aqui
"Quando eu comecei a sacar como que as editoras independentes se davam no mundo, eu comecei a reparar que editora era tipo banda, especialmente nessa cena independente. Quando você monta uma banda, você busca uma coesão, que feche um disco conceitual, que entregue uma identidade visual que tem a ver com o todo. Editora para mim é a mesma coisa."

Como se deu a construção da sobinfluencia ao longo dos anos? Quais são as dificuldades por trás de uma editora independente no mercado editorial?

A editora se formalizou com o tempo. Eu acho que ela foi ficando algo mais robusto, em termos profissionais, com o tempo. Porque quando começou, a gente não fazia ideia do que que significava ter um CNPJ de uma editora. Muito desse desejo tava atrelado ali, em algum nível, à expressão, à linguagem, à criação de algo que bebesse diretamente em algumas fontes muito específicas, tanto teóricas quanto estéticas — que a gente sentia que, aqui no Brasil, não é que não tinha, mas não era tão bem formatado como o que a gente desejava.

E a gente vem de uma escola, de uma cultura, em que as coisas são formadas muito a partir dos coletivos, das editoras independentes sem um CNPJ, e isso faz com que a sua expectativa não seja necessariamente algo que precise "dar certo". Então, você só vai fazendo as coisas. O começo foi isso — não teve estudo de mercado, não teve nada. Teve gente querendo fazer coisas. Eu e meus três amigos querendo fazer coisas.

A gente podia dar uma desculpa mais elaborada, mas a gente percebeu que ninguém tava discutindo isso. Eu trabalhava, na época, numa outra editora, e lá dentro, vendo mais ou menos como as coisas funcionavam, eu pensava: "eu queria que tal livro fosse publicado, com essa identidade visual, que articulasse essas coisas". Então tinha um pouco desse lugar de ver como as coisas funcionam e falar: "mano, vamos fazer".

É igual fazer som, é igual montar uma banda: "cansei do boombap. Vou fazer agora um negócio que é mais grime. Vou montar um outro grupo e vamos ver no que dá." E às vezes dá certo. Às vezes você vai se sentindo alimentado com aquilo e vai botando adiante.

Os lançamentos da sobinfluencia sempre contaram com um projeto artístico muito único e especialmente desenvolvido para cada livro. Como as ideias para a capa e as ilutrações de Babilônia em chamas surgiram?

O Waldomiro Mugrelise, que é o artista que assina as artes do livro, é uma pessoa que eu conheço de antes. Em algum momento, quando eu comecei a trabalhar na capa desse livro, tinha uma ilustração dele, que é a ilustração da capa, que eu sabia [que seria a capa do livro]. Eu falei para ele: "mano, eu acho que essa ilustração deveria ser a capa. Se você quiser desenvolver outras coisas que tenham a ver com essa linguagem, faz e me manda." Aí ele fez algumas outras coisas. 

Ele é uma pessoa que tem muito a ver com a gente, com o livro. Teve essa memória que ficou, desse desenho em específico, que é um desenho da pandemia. Quando eu vi, eu gostei dele e quando eu pensei no livro, no que ele traz, nessa coisa de pessoas se transformando num corpo — eu acho que tem várias interpretações desse desenho, tanto de um coletivo se transformando num corpo, quanto num corpo sendo tomado por algo coletivo e sendo desfeito, sendo refeito, sendo combatido. A gente pegou essa ilustração dele, foi para a capa e ele fez outras duas ilustrações e um cartaz, um original que também tá na campanha, que tem a ver mais com a linguagem que ele tá explorando agora.

Pintura original de Waldomiro Mugrelise, disponível para compra aqui

É um livro altamente ilustrado — muito cartaz de show, muita foto dos rolês, foto em loja de disco, foto de treta, foto de polícia. Tem muita imagem. Pra quem curte documento, é um livro com muito documento, com uma coisa visual instigante.

Ele tem uma abordagem que não é "se você gosta de política, ou punk ou música eletrônica". Se você gosta de música, você tem que ler esse livro. Pra galera que é mais do punk, especialmente, eu acho que vai ter muita história que talvez elas já conheçam, mas tem as coisas dos anos 1950 e dos anos 2010, que eu não conhecia. As coisas da galera voltada pra cena do jazz, pra migração caribenha nos anos 50, e pros anos 2010, a especulação imobiliária, gentrificação e as tensões raciais em Londres. São três períodos que eu tenho certeza que vão somar muito pra leitura de como a música e a luta antiracista, antifascista, se dá no decorrer da história.

Pensando nesses entrelaçamentos, como esse livro se relaciona com os outros lançamentos da editora? Qual é o fio condutor desse projeto editorial?

Acho que o fio que costura tudo é o interesse, não no que é feito, mas em como é feito. É por isso que os livros de jazz tem a ver com o livro de gravadoras independentes, que tem a ver com um livro que é sobre antifascismo e subcultura. Porque o que interessa pra gente se alimentar, em termos de experiência, é como as coisas são feitas — porque a gente precisa de novas formas de produzir as coisas. A gente tá muito atado, muito dependente de estruturas que só sugam da gente, e estamos meio perdido.

A gente não sabe exatamente como ir, pra onde ir. Só que teve um momento que as pessoas tiveram mais coragem, ousaram, falaram foda-se. Eu acho que a gente tá com muito medo de falar uns foda-se, pro Spotify, pros grandes festivais, pras plataformas todas, pra estrutura que tá colocada. E tem muita tradição que fala que mandar um foda-se e ir pra cima gera resultado. É importante não esquecer isso.

Vídeo de apresentação de Rick Blackman sobre Babilônia em chamas


Babilônia em chamas já está disponível para pré-venda, em processo de financiamento coletivo. Além do disco, pacotes com o pôster de Waldomiro, uma arte original e outros lançamentos da sobinfluencia também estão entre as opções de venda. Se não puder comprar o livro, apoie com o que conseguir nesse movimento que acontece com muito esforço e carinho.

O link está disponível aqui e aqui embaixo. Siga a sobinfluencia nas redes sociais e acompanhe os seus projetos no seu site.

Benfeitoria - Babilônia em chamas
Uma história da luta antifascista no seio das subculturas da juventude

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