Ano novo, música do Parteum nova

Algumas tradições nunca mudam - o Parteum lançar uma música no primeiro dia do ano é uma delas

Ano novo, música do Parteum nova

Quais são suas tradições de ano novo? Fazer novas resoluções, usar roupa branca, fazer planos financeiros, começar uma academia ou uma dieta, ou apenas curtir a ressaca da virada? Bom, para muita gente, é sobre isso tudo e mais um pouco, mas para o Parteum, a tradição do novo ano é lançar música. 

Desde 2014 o rapper paulistano traz essa brisa de lançar uma música no primeiro de janeiro de cada ano e a gente bateu um papo pra saber se isso é realmente uma tradição ou se já virou uma incumbência que o persegue ano após ano.


Por que sempre soltar música no primeiro dia do ano? 

Isso começou de 2015 para 2016, quando percebi que entre o Natal e Ano Novo, fora a cidade ficar mais devagar, o rolê de casa também ficava, era mais tranquilo. Comecei a determinar que esse era o tempo que eu tinha para testar os plugins que eu comprei durante o ano e não tinha dado tanta atenção; era quando eu podia acelerar um pouco mais alguma série que eu não tinha visto prestando muita atenção… Ali eu podia me dedicar um pouco mais, nesse espaço de 5 a 7 dias até virar o ano e começar a correria de casa. 

Aí pensei de pegar essa energia dos últimos dias do ano, já olhando pro futuro e construir músicas, ou às vezes só uma célula - comecei fazendo algo instrumental. O primeiro foi 15 pra 16 e faço desde então. Desde o último ano, 24, 25 e agora 26, são mais especiais pois estou construindo o que pode ser meu último álbum solo, o Raciocínio Inteiro. Primeiro foi a de mesmo nome, depois Intervalo e agora Dez, Talvez Nove. Uso essa semana do fim do ano para entender como vai ser o próximo. 

A música de 2026

Eu estava vendo o seriado Streets of San Francisco, o que revela o Michael Douglas. Era um outro jeito de fazer TV, sabe? Uma parada que sempre me pegou na música. O Closer to the Edge, do Yes, eram 3 ou 4 músicas, criava intervalos, algo meio até da ideia de orquestra, de sinfonia. Era algo que eu queria trazer pra minha música, esse novo lançamento tem algumas ideias que respondem alguns questionamentos que fiz no primeiro lançamento desse álbum. 

Você está indo para o décimo primeiro ano soltando músicas no primeiro dia do ano. Quando um ano vai acabando, existe uma pressão para fazer um som e lançar no dia primeiro? Como você lida com isso?

Existe uma pressão, sim e existe outra parada, que trouxe do skate: todos meus amigos que andavam ou andam de skate conseguem fazer algo e depois, mais tarde, conseguem falar da sua performance e do porquê de terem ido bem ou mal em determinado momento. A música também tem disso. 

Quando chega no mês de setembro, eu já começo a pensar nessa música do começo do ano. Tem dois anos que eu lancei alguma coisa e não fiquei satisfeito. Vejo isso como um exercício válido de criação, as pessoas tem acesso, mas tem duas que eu olho que eu penso que poderia ser diferente, às vezes um timbre de voz, às vezes um equipamento que eu usei… Quando você muda seu setup para fazer o que outras pessoas estão fazendo, fazer como elas criam, às vezes não dá certo igual no skate. 

Na música eu sou mais hermético do que no skate, se você não gostou, vai lá e faz o seu (risos). Mas tem esses últimos anos que eu achei que falhei na missão, como diriam meus amigos na zona norte (risos).

Sei que muda também a produção desses sons, ser diferente dos sons que não tem deadline - esses do dia 1 são mais “você sozinho”.

Em 2023 lancei uma música chamada Cadência 23 e boa parte do clipe foi captada pela minha filha. Eu estava mais na pressão de fazer o clipe do que a música, que eu já sabia o que eu queria fazer. Aí eu estava no meio da Mooca e o Vander (Carneiro) me ligou do celular do Kamau e falou “ouvi sua música nova, sua voz está mais enterrada na mix, era isso mesmo?” - não era. Nesse ano levei pra ele e fizemos uma nova mix e eu julgo que o Vander tem muito mais conhecimento para achar os bolsos da música, que é onde a voz do artista entra - ele está trabalhando comigo há mais de 25 anos e conhece muito bem minha voz, sabe qual meu timbre… O que ele fez foi mais interessante do que gravar de novo, ele me ajudou nos processos. 

Eu costumo fazer tudo sozinho, mas aquela parte final da mix e master, me sinto mais tranquilo conversando com o Vander. 

A relação do Parteum com o produtor Vander Carneiro vem de longa data

Qual a diferença do Dez, Talvez Nove para outros sons anteriores? 

Duas coisas: como faz parte de um álbum, tem um cuidado para a mix ser parecida. A ideia é ser um fio, uma conversa, um começo, meio e fim de fato. E uma terceira coisa também, de estar captando imagens para um documentário homônimo. 

Uma outra coisa que também fui aprendendo com o tempo é que na construção do som, você nem sempre precisa da coisa analógica. Quando a gente pode se divertir num processo como esse, fazendo tanta coisa como eu faço e não ter perdido o interesse no processo, isso é muito legal. 

Em alguns anos anteriores, algumas produções foram inspiradas em coisas que estavam acontecendo. Na desse ano tem alguma inspiração atual?

Se nesse ano teve alguma coisa que me fez escrever músicas foi o tempo. No ano de 2025 eu fiz 50 anos e mesmo que a gente não queira, a gente compara nossa existência com a de nossos pais. Com 50 anos, meu pai estava para se aposentar, num processo pessoal pesado e a vida dele era muito diferente da minha na mesma idade. Esse foi um dos alicerces da rima. 

Musicalmente, eu quis usar acordes que não necessariamente você vê em rap que é batida e rima mais direto. São acordes que você costuma ver menos, a não ser que você se inspire em grupos que samplearam de jazz, como A Tribe Called Quest e De La Soul.

A outra coisa que também tem a ver com a minha idade, mas é muito o que significa a amizade nesse momento. No skate eu sempre fui abraçado pelas gerações, mas na música as relações se dão por outros motivos - às vezes o cara que estar no palco contigo porque você tem alcance. Na música eu fui agraciado com amigos da música que fica evidente que não era competição a todo tempo - eu tive que mudar muita coisa também, enxergar as coisas de outras maneiras.  

Eu sinto que a minha geração da música não me abraçou, mas uma galera mais nova, Emicida, Kamau, Rashid, Amiri, Deryck, Hanifah, uma rapaziada mais nova, que me deu um segundo fôlego, porque eles me fizeram lembrar que eu também estou trampando. O Leandro (Emicida) me falou “você também não para!” e me fez lembrar que também estou no corre. Tem essa parada de achar que eu era mais bem quisto pela cultura do skate do que da música e essa geração ter me abraçado e ter me botado pra sentar na mesma mesa. Isso me deu calma para continuar criando. 

Esse ano tivemos discos do De La Soul, entre outros do Legend Has It, da Mass Appeal… Eu lembro que um amigo falava de “raps adultos” e realmente estávamos fazendo coisas que a rima ia mudar. Pensando em 2025 com essa chuva de lançamentos, com um monte de rapper com mais de 50 anos, a música desses caras muda, eles fazem coisas pensando que não tem tempo mais a perder e em 2025 foi importante por todas essas coisas e eu não podia fazer algo meia boca. 

Fabio Luiz, rapper, 50+

Ouça a linha do tempo dos sons do Parteum que saíram no primeiro dia de cada ano, a partir de 2016

2016

2017

2018

2019

2020

2021

2022

2023

2024

2025

2026


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