Almodóvar sem fronteiras: da Madri recém livre ao mundo
O diretor espanhol construiu uma filmografia cosmopolita a partir da antropofagia cultural
Hoje começa a segunda semana da Retrospectiva Pedro Almodóvar, mostra promovida pela Cinemateca Brasileira, a Embaixada da Espanha no Brasil e o Instituto Cervantes, que reuniu cerca de 20 filmes do cineasta espanhol e figura incontornável na história do cinema mundial. Já são quase 50 anos em atividade, passando por fases que vão da revolta e contracultura que emergiu em Madri, após o governo franquista, ao melodrama e, enfim, ao próprio universo, alimentado por obsessões pessoais.
Mas além de ser um grande cineasta, sensível a temas como luto, maternidade, memória, culpa, sexualidade e repressão, Almodóvar é um daqueles diretores que se conectam com diferentes países, produzindo uma obra realmente cosmopolita. A escolha de seu nome para uma retrospectiva no Brasil, se dá pelo peso de sua obra, claro, mas também pelas relações que construiu com nosso país e continente.
Para entender a origem dessa relação, é preciso entender o contexto em que Pedro Almodóvar surge em cena, que é o da Movida Madrileña, forte movimento de contracultura e libertação sexual que toma conta da capital espanhola, como eclosão de toda a repressão imposta pelo ditador Francisco Franco, que governou o país entre 1936 e 1975. Os filmes que iniciam a carreira de Almodóvar, Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão (1980), Labirinto de Paixões (1982) e Maus Hábitos (1983), carregam muito dessa energia de revolta, além de se terem como público-alvo, sua própria comunidade. Dá para dizer que são filmes meio “bairristas” e funcionam como crónicas de uma Madri finalmente livre para respirar.

Com o passar do tempo, o olhar do diretor começa a ampliar horizontes, cruzando essas fronteiras locais, quase como se as ruas da sua região local, e mesmo de Madri, ficassem pequenas demais para o que ele pensava esteticamente. Claro, se você já assistiu a algum de seus filmes, sabe que a capital espanhola é o grande pano de fundo, quase sempre presente, mas foi necessário olhar para outras culturas. O que a gente observa a partir da década de 1990 é uma antropofagia, em que o cineasta se alimenta de referências estrangeiras e as coloca para fora sob a sua ótica, com aquele filtro de cores que Adriana Calcanhoto cita em Esquadros.
Na real, esse amadurecimento das lentes é também uma evolução da própria Movida Madrilena, que se propunha a se apresentar novamente para o mundo, agora como um lugar aberto, cosmopolita e conectado com o restante do planeta. Logo, os elementos estrangeiros são mais que bem-vindos, e aparecem por meio da canção do folclore mexicano, de uma atriz argentina, das referências do cinema norte-americano… Tudo isso se mistura aos símbolos clássicos da cultura espanhola.



Pôsteres dos três primeiros filmes de Almodovar, nessa fase da Movida Madrileña
Desses possíveis estrangeirismos, poucos exerceram um magnetismo tão forte e constante na filmografia de Almodóvar quanto o Brasil. Nossa música, nossas cores e até nossas contradições serviram e servem de adubo para as emoções que ele gostaria de investigar. Se as vezes esquecemos que somos latinos, um gringo nos lembra que nosso drama é bem acentuado. O destaque desse diálogo aparece em Fale com Ela (2002), filme que lhe rendeu o Oscar de Melhor Roteiro Original e colocou o nome de Pedro sob os holofotes da crítica internacional.
Nossa cultura aparece em contexto quase místico, numa cena célebre em que Caetano Veloso interpreta Cucurrucucú Paloma. Almodóvar escolhe parar toda a narrativa do filme, que tem uma trama bem densa, diga-se de passagem, para dar tempo do espectador respirar e se emocionar com os personagens que estão enquadrados. A câmera passeia pelo ambiente enquanto Caetano canta uma versão minimalista e muito emocionante da canção mexicana escrita por Tomás Méndez. Para mim isso é a síntese do que falo aqui, desse perfil cosmopolita da obra de Almodóvar, pois se trata de um cineasta espanhol, que usa a voz do nosso amado e gênio baiano, para interpretar um hino mexicano.
"Esse Caetano me dá arrepios”, diz o personagem interpretado por Darío Grandinetti
No mesmo filme, outra conexão brasileira se dá com a inserção de Por Toda a Minha Vida, na voz de Elis Regina, cantora da qual Almodóvar é fã declarado. De novo, a letra de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, interpretada pela voz de Elis, embalando a cena da tourada traz um mix de sentimentos que só nossa música poderia fazer. É tristeza, elegância, num contexto muito visceral. Bonito demais.
Anos depois, o Brasil volta a aparecer, agora como território geográfico e com sutileza, no filme A Pele que Habito (2011), cujo roteiro é uma adaptação do românce francês Tarântula, de Thierry Jonquet. Aqui, nosso país é o contexto histórico do personagem Zeca, nascido e criado durante a infância nas favelas do Rio de Janeiro. Apesar de aparecer pouco como elemento narrativo, a personalidade de Zeca se relaciona com nossa cultura, principalmente pelo carnaval, presente em sua fantasia assim que entra em cena.
Se o Brasil é esse balaio de alegria, dor, tristeza e paixão, outros países da América Latina fornecem cor para os melodramas de Almodóvar, principalmente o México, e nossos hermanos da Argentina, âncoras culturais nos roteiros. Uma das grandes referências do cineasta é Luis Buñuel, nascido espanhol mas naturalizado mexicano, onde realizou mais de uma dezena de filmes. A cantora costarriquenho-mexicana, Chavela Vargas, é outra referência e musa inspiradora, dando voz a canções nos filmes Kika (1993), A Flor do Meu Segredo (1995) e Carne Trêmula (1997).
Já na atuação, o nome de Cecilia Roth provavelmente é o mais conhecido entre os latino-americanos que trabalharam com o diretor. A atriz argentina deu vida à inúmeras personagens, com destaque para Manuela, em Tudo Sobre Minha Mãe (1999), e Zulema, em Dor e Glória (2019). E não dá para deixar de citar o ator mexicano Gael García Bernal, que já era bem relevante internacionalmente, e assumiu mais de um papel em Má Educação (2004).
Claro que a bússola de Almodóvar não aponta só para as Américas. A Europa também é um Norte de referências, a começar pela obra de Hitchcock, um de seus diretores favoritos, presente no melodrama e na fase mais madura, em que explora o suspense como gênero. Mas o legal é ver como outras artes são tão influentes quanto o cinema, já que literatura, teatro e até dança contemporânea conversam com sua filmografia. As coreografias da alemã Pina Bausch, e sua visão das relações entre o masculino e o feminino, estão presentes nos corpos de Fale com Ela, enquanto a angústia de A Voz Humana (1930), do dramaturgo francês Jean Cocteau, serve de base para A Lei do Desejo (1987) e Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988).

Agora, se durante décadas o diretor ultrapassou fronteiras somente no campo imaterial e cultural, sem tirar os pés da Espanha, recusando inclusive várias propostas de Hollywood, os últimos anos apresentaram um Almodóvar mais flexível e até ousado, dirigindo em inglês como idioma principal. O primeiro passo foi o curta A Voz Humana (2020), protagonizado por Tilda Swinton, que provou que as cores vivas também caem bem na atriz, e que o sotaque espanhol não é obrigatório para que as emoções do diretor apareçam em tela.
O segundo passo, ainda curto — piada infame — acontece com Estranha Forma de Vida (2023), no qual ele recruta o novo queridinho de Hollywood, Pedro Pascal, e o veterano Ethan Hawke, para protagonizarem o projeto. O gênero também é novidade na cartela de Almodóvar, que realizou um western gay, desejo que tinha desde que viu O Segredo de Brokeback Mountain (2005). O título do filme é outra conexão estrangeira, olha só, saiu do fado português de Amália Rodrigues.
Testes feitos e bem sucedidos, foi hora de caminhar para algo maior, e a expansão global só aconteceu em 2024, com O Quarto ao Lado, o primeiro longa 100% em inglês. Para assumir os papéis principais, recrutou Julianne Moore e, mais uma vez, Tilda Swinton, que atuaram pelas ruas de Nova York. O filme levou para casa o Leão de Ouro de Melhor Filme no Festival de Veneza e atualmente é considerado por muitos como o melhor de sua carreira. Assim, Almodóvar provou que seu cinema é um território com geografia própria.



A trinca gringa de Almodóvar
Pedro Almodóvar ensinou, primeiro a Espanha e depois o mundo todo, a se olharem no espelho e ver sentimentos não tão bonitos mas presentes na vida de todo mundo. Histeria, luto, crises de identidade, tudo o que por vezes tentamos suprimir, e ele tenta enxergar beleza. E fazer dessa sensibilidade algo preso ao território em que nasceu e vive, seria de uma perda enorme, afinal, a dor humana e o absurdo que é estar vivo, são coisas que todos nós sentimos, aqui no Brasil, na Espanha ou na China. Percebendo isso, e esperto que é, recorreu à referências do mundo inteiro para contar suas histórias.
A voz cortante de Caetano Veloso, o peso de Chavela Vargas e os movimentos de Pina Bausch estiveram presentes nesses quase 50 anos de carreira de Pedro Almodóvar. Seus filmes provam que as paixões são idiomas universais e, quando os assistimos, seja no escuro do cinema, ou da sala de casa, somos todos um pouco estrangeiros nesse país que ele mesmo constrói. E como indico ver nos cinemas mesmo, se estiver por São Paulo aproveita essa última semana de retrospectiva na Cinemateca Brasileira.
