Ainda tem espaço para besteirol?

Entre a nostalgia e o politicamente correto, há quem sinta falta desse tipo de humor

Ainda tem espaço para besteirol?

Se você tinha consciência no começo dos anos 2000, ou ao menos tem memórias do Penta da Seleção Brasileira, muito provavelmente você se lembra dos filmes de besteirol da época. Estamos falando de um período em que o nosso consumo não era ditado por algoritmos e seguiam uma lógica muito específica. Eram vários os títulos que circulavam pela programação da TV aberta, estante de locadoras e, posteriormente, nos DVD’s pirateados. Foi nesse contexto que um tipo muito específico de humor encontrou terreno fértil.

Entre os filmes mais lembrados do período, está a franquia Todo Mundo em Pânico, que teve o primeiro volume lançado em 2000, se esticando por mais 5 filmes ao longo dos anos. Na real, a contagem chega a 6, já que o próximo capítulo da saga tem estreia prevista para ainda este ano nos cinemas. E aí que, tantos anos depois do auge da série, acho aceitável que a gente se pergunte: ainda faz sentido ou tem espaço para outro filme do tipo atualmente? Essa dúvida existe pela distância temporal entre esse lançamento e o último filme da franquia, e também pelo atual cenário do gênero da comédia no cinema mainstream, que sofreu mudanças bem significativas nas últimas décadas. E pra mim surge uma outra pergunta: o retorno dessa franquia é por pura nostalgia, ou ainda existe algo de novo para se contar?

Entendo que estamos mergulhados justamente na fase de nostalgia e de lembranças desse período, uma parada impulsionada principalmente por pessoas que não viveram a época, mas o gênero e o perfil do filme parecem hoje muito deslocados da realidade.

Para entendermos a morte do besteirol, bora olhar para o berço. Quando o primeiro Todo Mundo em Pânico (2000) foi lançado, estávamos vivendo um novo auge dos filmes do subgênero slasher, impulsionado por obras como Pânico (1996) e Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado(1999). Simultaneamente, clássicos eternos do terror, como Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo e Halloween, franquias fundamentais do final dos anos 1970 e começo de 1980, eram apresentadas a um novo público, seja por continuações, remakes ou spin-offs.

Do outro lado do espectro de gênero, os filmes de comédia também estavam em uma alta de sucesso comercial. Para se ter uma ideia do peso do humor nas bilheterias, Austin Powers: O Agente Bond Cama (1999) foi a décima maior bilheteria global naquele ano. Acho importante reconhecer que, naquele momento, a comédia ainda tinha seu lado "puro", ou seja, era o que definia o tom do roteiro como um todo.

Apesar de não existir mais o binarismo de "drama" e "comédia", tradicional do teatro clássico, e de novos gêneros já estarem bem definidos há décadas, ainda era normal um filme ser unicamente classificado como comédia. Coisa um pouco menos comum hoje em dia, já que o humor se tornou um artifício diluído, que entra como elemento de quebra de tensão em outros gêneros, como os filmes de super-heróis da Marvel, e não mais como o pilar principal da obra. Já parou para pensar há quanto tempo você não vê um filme de comédia internacional fazendo sucesso?

Mas bora voltar para os anos 1990 e 2000. Esse uso do humor, como elemento complementar, já estava aparecendo nos citados filmes de terror da época, que aos poucos abriam mão do suspense e abraçavam a caricatura do sangue jogado na tela e dos estereótipos construídos ao longo de décadas. Se a gente compara o primeiro Sexta-Feira 13 (1980) com Jason X (2001), por exemplo, vemos que são coisas completamente diferentes, com o segundo parecendo muito mais uma sátira do primeiro do que uma continuação legítima de terror. Aliás, essa palavra, "sátira", é muito importante para o que quero trazer neste texto e para entendermos a mecânica do riso daquela geração.

Tipo, WTF? | Jason X (2001)

Os anos 2000 são, ao meu ver, o berço de um sub-gênero que dominou o mercado por quase uma década e sumiu do nada: o besteirol. Títulos como American Pie (1999), Todo Mundo em Pânico (2000), Não É Mais Um Besteirol Americano (2001) e Histeria (2000) são exemplos padrão desses filmes de comédia bobos. Eram resultados de uma mistura entre a inocência dos filmes dos anos 1980, como Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu! (1980) e Loucademia de Polícia (1984) — não confundir essa "inocência" com baixa qualidade ou humor barato — com a sátira dos filmes de terror, de super-herói, ou mesmo com temas considerados polêmicos pela sociedade, como o sexo. Assim nasce esse tipo de filme bem "Sessão da Tarde", que a gente ama assistir sem pensar muito, só pra rir de bobeira. 

Acontece que a cultura, como dizemos aqui na ISMO, tá sempre em movimento. Como boa parte do entretenimento daquele período, o "politicamente correto" simplesmente não era uma preocupação vigente para roteiristas e estúdios, logo, as piadas eram das mais absurdas possíveis. Isso me faz pensar se, no clima de hoje, essas produções ainda teriam algum espaço. Homofobia, Racismo, Machismo e Xenofobia eram tipo a base de sustentação cômica do sub-gênero, que não tinha medo nenhum de colocar, por exemplo, um personagem gordo para passar pelas piores e mais humilhantes situações só pelo riso fácil.

Claro, revisitar essas obras também abre espaço para refletirmos sobre o quanto podemos falar hoje, e cruza com discussões super importantes, como o direito de humoristas e comediantes construírem suas piadas com base em mazelas e preconceitos da sociedade. Mas, olhando para Hollywood, vamos combinar: cadê o Adam Sandler? O cara era o rei absoluto do gênero, mas depois do sucesso que fez com Jóias Brutas (2019), abraçou o drama e nunca mais voltou para a comédia boba. Para mim e outros fãs, uma tristeza.

I miss the old Adam Sandler

Essa discussão sobre os limites do humor e a possibilidade da sátira atravessa outras mídias além do cinema, como os videogames. Este ano, ao que tudo indica, o aguardado GTA 6 chega aos consoles e promete ser o maior lançamento da história do entretenimento, sem exageros. O problema, e aqui mora a tensão contemporânea, é que a franquia da Rockstar é mundialmente conhecida por ser uma sátira crua da cultura norte-americana, e faz isso esticando até o limite as contradições sociais que vemos no dia a dia.

Mas, na atual polarização digital, é impossível pensar no efeito que isso pode ter nas mãos de pessoas que não enxergam a obviedade dessa sátira. Recentemente, em fóruns na internet, surgiu o rumor de que uma das missões do jogo poderia acontecer no meio de uma parada LGBTQIAPN+, ou de uma manifestação progressista. Logo, uma galera começou a discutir seriamente sobre a possibilidade de atropelar todos os NPC’s, e as complicações éticas e de relações públicas que isso poderia trazer para a desenvolvedora. É uma preocupação importante, que talvez não pensaríamos há alguns anos, quando a mecânica de atirar em garotas de programa no jogo era considerada banal pela comunidade gamer.

Trazendo o debate para o Brasil, as mudanças de paradigma são igualmente perceptíveis. Talvez o maior exemplo que tivemos de produção de humor local com alcance de massa nos últimos anos seja o do programa Pânico na TV. Foram anos de um sucesso absurdo de audiência, construídos inteiramente na base de piadas e quadros que hoje, sem nenhuma dúvida, dificilmente teriam espaço nas grades de qualquer canal, muito menos da televisão aberta, como era o caso na época.

Genial para uns, perigoso para outros

De volta ao besteirol, que começou a reflexão, o retorno de Todo Mundo em Pânico e seu possível impacto cultural ainda são mistério. Não dá pra saber se o filme vai ter a ousadia — ou a estupidez, dependendo do ponto de vista — de manter o mesmo tom absurdo e ofensivo de sempre, repleto de piadas "canceláveis", ou se vai jogar no seguro para evitar a fúria das redes sociais. Tem a chance também do filme só fracassar e ninguém assistir. São riscos que, aposto, passam todos os dias na cabeça do roteirista, do montador, do produtor e da distribuidora.

Acredito que o futuro da comédia não está necessariamente na extinção da sátira, mas em uma possível evolução. O "besteirol" como o conhecemos, esse que depende de estereótipos baratos e de bater em minorias sociais já não tem mais espaço. E nem só porque uma parcela da sociedade está mais consciente, mas porque a piada ficou velha mesmo, é só ruim e preguiçosa. Esse tipo de humor precisa encontrar alvos mais inteligentes. A boa sátira sempre mirou no poder, na hipocrisia das instituições, nos absurdos do comportamento humano e nas neuroses da cultura digital. É só ligar o jornal diário que você consegue material.

O cinema de comédia, a “pura”, ainda tem espaço para ser brilhante e divertido, desde que as pessoas por trás das tomadas de decisão entendam que rir com o absurdo dos nossos tempos exige muito mais talento do que simplesmente rir do colega. A nostalgia é um puta combustível, mas não sustenta um roteiro inteiro.


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