A Veneno Live é um arquivo vivo da cultura DJ no Brasil
Trocamos uma ideia com o Bartigga para entender um pouco dos processos por trás da rádio online independente paulistana
O momento em que vivemos é marcado por uma forte transformação no processo de pesquisa musical, que cada vez mais se dá à partir das demandas e gostos pessoais dos ouvintes. As rádios, no sentido tradicional da coisa, foram perdendo o seu lugar de influência com o avanço da internet, dando espaço para as rádios online levarem a cultura adiante, à partir de curadorias complexas e voltadas para nichos. Um dos projetos mais importantes neste universo aqui no Brasil é a Veneno.
A Veneno Live é uma rádio online independente baseada em São Paulo, criada em 2018 por Rafa Toledo, que registra e movimenta a cena eletrônica do nosso país de maneira profunda e abrangente. Estando na ativa há vários anos, já foi espaço de aprendizado e troca para diversos artistas no início de suas carreiras e gêneros ainda incipientes. Hoje em dia o espaço é comandado por Bartigga, DJ, produtor cultural e curador da Zona Leste de São Paulo, que também faz parte da Tijolo Records e assina a curadoria do Edifício Martinelli.
O papel principal da Veneno é de documentação do momento atual da cena brasileira, com todas as suas nuances e particularidades. Dar espaço e colocar em destaque quem está movimentando e criando as coisas de maneira verdadeira. "Ainda mais neste momento em que os DJs brasileiros estão muito em voga — não tem um DJ interessante que não tenha uma música de um produtor brasileiro. Desde uma coisa mais tech house, o cara vai ter uma produção do Mochakk, ou um cara mais underground, ele vai ter um BADSISTA, um EVEHIVE", conta Bartigga.
A rádio conta com uma programação ininterrupta, transmitindo música 24 horas por dia, 7 dias na semana. Entre os 25 programas residentes, são exceções aqueles que tem um formato mais clássico, com gêneros do mainstream da música eletrônica. A grande maioria dos DJs que compõem a grade da Veneno exploram os lados mais ocultos da música — cenas que estão emergindo, se fortalecendo e se construindo de maneira verdadeira.
"A gente preza por essa diversidade de gêneros, porque o que mais tem por aí é a galera tocando house, techno, o 4x4 clássico. A Veneno também tem um papel de conseguir expandir — DJs que tocam muito em pista, quando vêm pra cá, eles curtem fazer um lado B — e ser um espaço pra você criar, de qualquer forma, mesmo." — Bartigga
Além do papel ímpar de documentação da cena, a Veneno também é um espaço de conexão e troca entre os artistas. Bartigga enxerga a rádio como um hub cultural: "fora a live, que é o nosso principal produto, daqui já saiu muita coisa. Já saiu casal, collab, duo de festa, de produção. Aqui, as pessoas conseguem dialogar de uma forma que numa festa a gente não consegue. Dá pra botar mais peso nesse papo, com trocas genuínas.
Se você passar um dia aqui, vai ter um cara de Londres, depois um mano de Osasco e depois a Clementaum, por exemplo. E de estilos, também — pode ser um cara de reggae, um cara de techno, outro mano de house e um de ambient."
Os programas residentes dividem a programação com as gravações do LAB, projeto que expande e tensiona essa variedade de gêneros. Voltado para pessoas emergentes, sons diferentes e recortes sociais, a curadoria aqui procura o que é o novo. "No LAB, a gente tenta sair um pouco mais do convencional, trazer algo diferente, novo, que vai ser meio inesperado. Do rolê do funk, tem muita gente que tocou com CDJ pela primeira vez aqui na rádio — eu tento ver isso, porque tem muita gente que não vai ter acesso, mesmo, só pelo jeito que a pessoa é, de onde vem, como ela aparenta ser e até pelo tipo de som.
É claro que agora, nesse começo de ano, tem muito gringo na cidade. Aí a gente preza um pouco também por isso, porque é legal ter esses intercâmbios. E é muito doido, porque você pega uma galera, por exemplo, norte-americana ou europeia, e o nível de mixagem é muito da hora. Porque a galera realmente tem um acesso desde sempre", explica Bartigga.




"A gente tenta prezar pelo que vai ser o próximo, gêneros um pouco mais desconhecidos, coisas que a gente dificilmente vai ver na pista. Alguma coisa que mexa um pouco, que seja um pouco fora de padrão, mais avant-garde." — Bartigga
A Veneno funciona nessa troca, abrindo espaço para novas sonoridades e permitindo que artistas emergentes tenham contato com equipamentos extremamente inacessíveis, como conta o produtor: "ter um material gravado, acesso à CDJ-3000, um mixer bom, um toca-disco bom, um retorno bom, um estúdio com tratamento, eu acho que vem muito por isso, nessa construção de cena, mesmo. Isso eleva muito a nossa produção, a forma de conseguir melhorar tudo."
O papel de registro e produção de arquivo da Veneno se torna cada vez mais relevante em uma sociedade que progressivamente banaliza o fazer artístico, em um momento extremamente difícil para a produção de festas independentes, como explica Bartigga:
"Se acabar o romantismo, fodeu. Porque se colocar na régua, como business, com o investimento que é feito pra uma festa, é melhor abrir uma franquia de coxinha. Agora é um momento que tá bem difícil, porque não tem muito clube interessante, que tem uma curadoria massa. Pro underground tá bem difícil de conseguir ter uma relevância, tanto que várias festas vão acabar, não vão ter edição neste ano. Ou senão tem que virar uma coisa grandiosa, e aí fazer ligações com prefeitura, com marcas, porque sozinho não dá.
Até a rádio mesmo — por cinco anos, a gente foi independente, com o nosso dinheiro, meio uma filantropia, uma vontade de produzir. Depois, no pós-pandemia, a gente voltou e não tinha como. A gente tinha vendido os equipamentos, entregado tudo e a gente só voltou porque conseguimos o apoio da Heineken. A gente conseguiu um apoio por três anos, que vai acabar agora, nesse final do ano, e eu já tô olhando pra outras formas de conseguir captar grana, porque é uma parte um pouco difícil.
Se a rádio acabar, ou alguma coisa assim, vai ser bem triste pra 'noite', porque muita gente vai até dar uma desencanada de produzir, de tocar, porque as festas já não preenchem mais da forma que preenchiam antes.
Tem muita gente boa, mas a gente não tem lugar pra produzir, conseguir botar essa galera pra tocar. Ou é um negócio universitário, ou é uma festa gigantesca com um risco gigante, ou senão é um negócio dos amigos, fazendo num lugar que praticamente não tem risco, mas não tem retorno nenhum."
A Veneno ocupa um lugar essencial no ecossistema da cultura DJ brasileira, funcionando como um hub para artistas se conectarem, democratizando o acesso e produzindo horas e horas de material de qualidade.
A rádio ao vivo pode ser acessada no site deles a qualquer momento, em veneno.live, e os vídeos gravados são postados no Youtube. A inscrição para DJs que quiserem tocar por lá pode ser feita através de um formulário, e no Instagram a programação e os cortes são postados diariamente. Acompanhe e apoie o trabalho da Veneno e de Bartigga.
